No bairro mais populoso de Belém, um projeto que alia diversas modalidades de dança traz, acima de tudo, esperança e sorrisos aos rostos de crianças, adolescentes e jovens que anseiam contornar a criminalidade que cerca o Guamá, na periferia da capital paraense.
Mexer com o corpo e a mente. Assim o Projeto Pará Break Sport pretende transformar a realidade dos garotos e garotas do Guamá e dos que vêm do outro lado do Canal do Tucunduba, a Terra Firme. A pluralidade de estilos dá o tom e ritmo. Adeptos do break, hip hop, freestyle, funk e passinho são bem- vindos.
As reuniões são feitas na praça Frei Daniel e chega quem quiser. Curiosos, aguçados pelo som que vem da caixa amplificadora, olham das janelas e portas das casas. As crianças que estão de passagem após a saída da escola, também dão uma paradinha para ver as pernas e braços que ora estão no chão, ora no ar.
A perspectiva pela qual o entregador Ronaldo Henrique da Silva, 19 anos, vê a vida é inversa à habitual: de cabeça para baixo. “Tem que usar o corpo todo, se soltar e perder a timidez”, recomenda o b-boy.
Uma forma de expressão. É como o pintor automotivo Júnior Marcos, 23 anos, define a dança. Praticante do passinho, ele resume a ideia que norteia o Pará Break Sport. “A gente se reúne para fazer dança”.
PRAÇAS E SERRAGEM
Sem ter um lugar certo para praticar a dança, as reuniões são feitas em espaços públicos. Em uma área coberta por serragem e caroços de açaí, às margens do Canal do Tucunduba, a garotada se junta para jogar bola. Tudo improvisado, conforme as doações dos próprios moradores do bairro.
Para comparecer aos encontros, basta respeitar uma regra simples: frequentar a escola. “O foco é não tirar os meninos do estudo. Sem estudo a gente não vai além”, afirma o estudante Anderson Júnior, 23 anos. Em um bairro onde o cotidiano é atravessado por graves índices de violência, lutar contra o estereótipo é rotina. “Todo mundo tem uma visão de que aqui é área vermelha”, diz Anderson, que pratica pout pourri, uma mistura de ritmos e estilos.
Outro pré-conceito comumente dissipado e ouvido pelos rapazes diz respeito ao que eles mais gostam de fazer: dançar. “A pessoas que veem a gente dançando pensam que somos bandidos, que a gente usa droga e rouba”, lamenta Júnior. Para o estudante, a arte que eles praticam tem várias funções. “Você tem um olhar crítico. Isso aqui é como se fosse uma terapia”.
VOANDO JUNTOS
Cada um tem um talento, um jeito e histórias distintas. A troca de experiências é fundamental e as reuniões que englobam pessoas com o mesmo propósito rende frutos. O estudante Jean Valadares, 14 anos, que há quase dois meses integra o grupo, é só elogios. “Eu já tinha vontade de dançar o passinho, mas faltava incentivo, que agora eu tenho”. Por meio da dança, cada um deles não quer ser mais um dos quase 95 mil habitantes do Guamá.
Thamerson Carvalho, o “mascote” do Pará Break Sport tem apenas três anos e gingado de gente grande. Para o coordenador do projeto, Reinaldo Gonçalves, mais conhecido como Buru, afastar os meninos “do mau caminho” é o que norteia os esforços de todos os que compõem a equipe, que atuam voluntariamente, disseminando conhecimentos na arte da dança e multiplicando valores.
Com reuniões que somam ainda os jogos de futebol e os encontros na praça Frei Daniel, Buru contabiliza 300 crianças e adolescentes que participam das ações de um projeto que conta com a boa vontade e curiosidade de professores e alunos para ter andamento. “Precisávamos fazer algo pelo nosso bairro, um dos mais populosos de Belém, que desponta entre os campeões nos índices de criminalidade”, pontua.
Somente um trabalho em prol dos mais novos, segundo ele, pode mudar esta situação. Membro da equipe “Amazon B-Boy”, o estudante Leony Pinheiro, 16 anos, foi até a França em 2011 participar do Campeonato Mundial de B-Boys, o “Battle Of The Year” (Batalha do ano). Representantes do Brasil e da América Latina, como o grupo campeão Sul Americano, oito brasileiros, entre eles cinco belenenses, mostraram ao mundo a dança de rua praticada nas periferias do país.
O primeiro contato de Leony com a dança b-boy foi através do Pará Break Sport. “Tem alguns de nós que começou por lá e depois cada um seguiu seu rumo e foi para algum grupo”, conta. Era no Guamá que aos 13 anos ele ensaiava os passos iniciais. “Eu ia todo o final de semana para lá”, lembra.
De lá para cá, algumas coisas mudaram. “Depois que o break entrou na minha vida, muita coisa mudou. A gente conhece gente nova, aprende a compartilhar e tem contato com várias coisas”, diz. “Quando você começa a dançar, muda a tua vida, a tua personalidade, para o melhor”, sorri.
Ganhador do Concurso de Dança da TV Xuxa e campeão recente do quadro “Se vira nos 30”, no Domingão do Faustão, o dançarino Kekeu, 22 anos, fala das dificuldades de viver da dança em Belém e da falta de espaços para a prática. À frente de dois trabalhos voluntários com jovens do Guamá, Terra Firme, Canudos e Ananindeua, Kekeu acredita que a saída para as desigualdades e conflitos sociais está mais próxima do que se pensa. “Quando você desenvolve a cultura do hip hop na periferia, tira aquele jovem da ânsia de dar um passo errado e entrar no mundo do crime”. Segundo ele, o que falta são oportunidades para estruturar um trabalho e se expressar em cima de um projeto.
Aos poucos e com a visibilidade que conseguiu ao ganhar o campeonato em um programa global, o dançarino faz seu nome e recebe os méritos pelo trabalho. “Graças a Deus vivo e me sustento da dança. Eu gostaria de trabalhar em Belém, mas as oportunidades são difíceis”, considera. A dança, para os garotos, é mais que uma arte: é uma chance de fazer a diferença. “Educação e cultura é o que o ser humano mais precisa na vida para crescer, ter responsabilidade e caráter”.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar