Um cenário de transição que pode impor medo a uns, mas ser auspicioso a outros. É dessa maneira que o diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, analisa o atual estágio do jornalismo, principalmente o impresso. Aos 58 anos, Pedreira é jornalista com de 35 anos de experiência, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Trabalhou no Jornal do Brasil, na revista Veja, revista Isto É e TV Globo, entre outros veículos de comunicação. Foi secretário de Imprensa da Presidência da República e trabalhou também em campanhas políticas e empresas de assessoria de comunicação. Está na Associação Nacional de Jornais há sete anos, primeiro como assessor de comunicação e há quatro anos como diretor executivo.
Nesta entrevista, Pedreira fala sobre o atual cenário e o futuro dos jornais impressos e também comenta um fato histórico para a imprensa no Norte: no próximo dia 30 de abril, em Nova Iorque (EUA), o DIÁRIO fará parte da programação do INMA Awards 2013, que premia as melhores campanhas de marketing de empresas de jornalísticas do mundo. O jornal está entre 87 finalistas entre mais de cinco mil empresas de mídia do mundo inteiro. É o único da região Norte e um dos três únicos jornais brasileiros finalistas na premiação.
O DIÁRIO concorre em sete categorias, com os projetos ‘Guia de Profissões’, ‘Receita do Chef’, ‘Diário do Pará- 30 anos’, ‘A Era do Ferro’, ‘Diariopedia Olímpico’, ‘Orgulho do Pará’, ‘Revista D Semanal’, e ‘Dr. Responde’. A premiação da International Newsmedia Marketing Association (INMA) é dividida em 10 categorias e de acordo com a circulação de publicação. O DIÁRIO concorre nas categorias de jornais com tiragem de até 75 mil exemplares - a realidade de 90% das publicações nos cinco continentes - ao lado de vários importantes jornais de todo o mundo, como o The New York Times. Confira a entrevista:
P: O DIÁRIO DO PARÁ é o jornal com maior número de peças finalistas no INMA Awards 2013. Como o senhor avalia isso dentro do cenário atual do jornalismo brasileiro? Ou seja, um jornal da região Norte encabeçando essa disputa?
R: É significativo que um jornal fora do eixo Rio-SP tenha indicações tão fortes numa premiação feita por uma instituição de credibilidade mundial e que premia a excelência. Isso mostra que tem gente fazendo jornalismo de qualidade, de olho tanto no mercado como nos leitores no mundo todo. Hoje há uma troca muito grande de informações e as empresas jornalísticas acabam por conhecer iniciativas jornalísticas diversas. Isso faz com que as melhores práticas possam ser seguidas. Essa premiação mostra também como é possível buscar essas melhores práticas em cada mercado específico, e me parece ser exatamente isso que o DIÁRIO DO PARÁ está fazendo.
P: O cenário atual do jornalismo tende a ser catastrófico para uns e auspicioso para outros, dependendo do ponto de vista adotado. Quais as impressões que o senhor tem a respeito disso?
R: Os profetas do fim do jornal sempre existiram e dizem isso há muito tempo, principalmente diante do fenômeno da internet e das mídias digitais, mas fizeram isso também em relação a outras mídias, como a televisão no passado. O fato é que os jornais sempre foram se adaptando às novas realidades. Não há dúvida que esse é um momento de transição muito forte, mas isso é um desafio que as empresas jornalísticas podem transformar em oportunidades. Entendo que o jornal não é só papel impresso, e a informação jornalística de qualidade vai se manter, seja qual for a plataforma. As pessoas estão buscando informação em diversas plataformas. Com esse pressuposto, se pensarmos dessa forma, chegaremos à conclusão de que nunca se leu tanto como hoje em dia. Pode-se dizer que houve uma queda nas vendas de jornais nos Estados Unidos e na Europa, mas nunca se leu tanta informação jornalística como nos dias de hoje, entendendo informação como algo bem apurado, preciso.
Isso significa que há um crescimento de audiência. Na ANJ, achamos que as empresas jornalísticas estão buscando um modelo sustentável nas mídias digitais, mas ainda não se sabe exatamente como se fazer isso. A publicidade não está sendo suficiente e talvez se passe a cobrar mais pelo conteúdo disponibilizado na internet. O desafio é grande, mas a ANJ crê que a informação com qualidade sempre será necessária e quando quer esse tipo de informação o leitor vai procurar as grandes marcas jornalísticas que já têm a credibilidade conquistada.
P: Quais as tendências principais que a indústria de jornais parece se encaminhar?
R: Não há como imaginar uma empresa jornalística hoje que fique só no impresso. As plataformas digitais são uma realidade e cada dia essa realidade se apresenta de forma diferente. O mercado está se modificando. A Folha de São Paulo, por exemplo, está chegando aos 40 mil assinantes digitais. Antes, os jornais acreditavam que poderiam utilizar a gratuidade na versão digital e que o mercado publicitário seria
suficiente para garantir a receita necessária. Já se sabe que não. Hoje, estamos no meio de um processo em que de forma geral se tem o entendimento que algum tipo de cobrança deve ser feita. A boa notícia é que os leitores fiéis tem se mostrado dispostos a pagar por esse conteúdo. Isso é auspicioso. Vivemos hoje esse ‘Woodstock’ da internet, com informação de todos os lados, onde não se sabe exatamente em quem confiar, já que é possível pôr tudo na internet. Qual o diferencial, então? A marca jornalística, o valor da notícia com credibilidade. A isso sempre se dará o valor necessário.
P: E o mercado brasileiro? Quais as perspectivas para os próximos anos?
R: Não estamos vivendo um bom momento para os meios de comunicação em geral. Isso é reflexo do próprio panorama econômico brasileiro. No ano passado, a economia brasileira cresceu coisa de 1 %, houve um crescimento de 1,8% dos jornais, mas não cresceu a fatia do bolo publicitário. Temos a inflação empurrando também, ou seja, não vivenciamos um bom momento econômico, mas temos sabido nos reinventar. O próprio DIÁRIO DO PARÁ, por exemplo, está buscando novas formas, novos produtos, inovando na linguagem e no marketing. A segmentação e o localismo são cada vez mais importantes nesse cenário. Ninguém cobre melhor a cidade que um jornal dessa própria cidade. Essa segmentação de mercado pode ser uma das saídas.
P: Há quem diga que o Brasil é o país onde ainda se pode notar uma possibilidade boa para o mercado de jornais por conta do aumento de pessoas alfabetizadas e ascensão de consumo de classes econômicas menos privilegiadas. O senhor concorda com essa ideia? É esse o cenário mesmo?
R: Sim, é isso mesmo. Nas economias mais maduras, como a de Estados Unidos e Europa, os níveis de leitura de jornais diários são muito maiores que os nossos. Segundo a World Association Newspaper, no Brasil, para cada mil habitantes, há 63 exemplares de jornais. Na Alemanha, essa média é de 300. No Japão é de 700, ou seja, quase um para um. É evidente que países como o Brasil, que têm um espaço grande para o crescimento de pessoas alfabetizadas e de ascensão de classes, essa relação pode e deve aumentar. Há um mercado a ser conquistado, mesmo com publicações mais populares. Nós temos espaço para crescer porque muitos cidadãos ainda irão entrar nesse mercado consumidor de notícias, cada um no seu gosto pessoal. Na Alemanha, por exemplo, o jornal impresso vai muito bem, tanto que eles nem cogitam o fim desse tipo de mídia. Nos Estados Unidos há um baixo-astral grande, mas são exemplos de que vivemos realidades diferentes. É preciso saber olhar para essas realidades e aprender com elas.
(Diário do Pará)
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