Apesar de assustadora, a notícia já não causa surpresa à população. “Doze mortes em 24 horas é um absurdo, mas é a nossa realidade. A violência está em todos os cantos e só resta nos recolhermos dentro de casa”, diz já desacreditada a dona de casa Virginia Costa. Moradora do bairro da Terra Firme, dona Virginia comemora o fato de jamais ter sofrido qualquer tipo de violência, mas para aí. “Até aqui Deus me protegeu, outros moradores não tiveram a mesma sorte”, constata.
Assíduo frequentador das páginas policiais, o bairro de dona Virginia é visto por muitos como uma das principais ‘zonas vermelhas’ da capital. Na noite do último domingo, testemunhou o mais recente homicídio. Joilson dos Anjos, 21, foi morto na porta de casa com três tiros na cabeça.
No Guamá, o mesmo cenário. “É triste a gente ver, mas a criminalidade tá tomando as nossas ruas. Bem faz quem não sai nem deixa seu filho fora de casa depois das nove da noite. É muito perigoso”, avalia a manicure, Nazaré Gonçalves, que da porta de casa vê a juventude perder espaço para o tráfico de drogas. “Dá dó você olhar essa rua e ver a meninada perdida pra droga. O resultado tá no jornal. O número cada vez maior de mortes entre os jovens”, analisa a moradora.
“A gente não pode deixar de se preocupar com a banalização da violência. Existe uma problematização e o poder público não considera as raízes desses problemas”, avalia o especialista em Segurança Pública Aiala Colares.
Na edição de ontem do DIÁRIO, o caderno Polícia trouxe o assassinato de 12 pessoas, 11 delas eliminadas a tiros. O assunto, debatido há tanto tempo, já causa uma certa frustração em Colares. “Eu falo disso e dou entrevistas há seis anos e só estou vendo a situação piorar. O Pará é um dos estados mais violentos em homicídios do Brasil. Ganha de São Paulo, que tem uma população muito maior”, afirma.
Para ele, já é possível enxergar um conflito social grave na situação da segurança pública atual. “Da forma como as coisas são apresentadas, a gente vê um conflito entre o governo e os bandidos. Quando matam um policial, mostram que não têm medo e aí os policiais vão atrás dos culpados por vingança. O Estado precisa encarar a segurança pública como uma questão emergencial, porque está parecendo que ele está perdendo o controle”, considera. Ele diz que a violência é generalizada.
MORTE DE POLICIAIS
O crescimento da violência contra a própria polícia é outro fator que preocupa. Nos quatro primeiros meses do ano, 12 policiais foram mortos no Estado. O mais recente foi no último sábado, em Val de Cães, quando o sargento da Polícia Militar (PM), Josenilson Silva, foi morto em frente a sua casa após uma tentativa de assalto. “Infelizmente, nem mesmo os policiais que deveriam estar salvaguardando os cidadãos de bem estão conseguindo resistir ao avanço da violência que está imperando no Estado”, dispara o presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Pará (ACSPMBMPA), Francisco Xavier .
A associação atribui ao efetivo atual da corporação uma das possíveis causas para o crescimento dos números de criminalidade em todo o Estado. “O Estado diz que está tudo bem, mas nas ruas a gente está vendo que não é bem assim. Nosso efetivo atual é de 14.600 policiais na ativa. Considerando a recomendação da ONU (Organização das Nações Unidas), nós acreditamos que o Estado precisa de 28 mil homens para fazer segurança de qualidade”, critica Cabo Xavier, que defende a revisão da maioridade penal.
Para o delegado geral da Polícia Civil, Rilmar Firmina, a situação está sob controle. “Não é todo dia que temos doze mortes. A última segunda-feira foi um dia atípico. Temos feito operações e trabalhado em conjunto com outros órgãos. Só nesse último final de semana, apreendemos oito quilos de pedra de óxi e prendemos traficantes envolvidos em casos de homicídio”, revela. E considera a morte de policiais fatalidade. “Não acredito que os policiais tenham morrido porque são policiais, o bandido sempre procura o alvo mais fácil, qualquer um pode ser alvo. A maioria das mortes de policiais foi reação a assaltos, não operação policial”, avalia.
(Diário do Pará)
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