Não é regra, mas nas escolas de educação infantil de todo o país hoje é dia de se pintar de índio. Brancos, negros ou amarelos, meninos e meninas dos quatro cantos do país lembram a data de hoje espalhando tinta pelo corpo ou enfeitando-se com cocares. Mas 513 anos após a descoberta do Brasil - 69 após a instituição da data que celebra a – os índios mantêm a mesma imagem? Rormakore Akukare Tarkateje é exemplo que não.
Além do nome pouco convencional aos ‘brancos’, Roro como é mais conhecida, carrega os cabelos longos, lisos e negros e o tom da pele mais escuro como características dos antepassados e apesar da intensa relação mantida com a aldeia de onde veio, as semelhanças não vão além. Estudante de medicina da Universidade Federal do Pará (UFPA), a índia acrescentou à própria imagem o jaleco branco, o estetoscópio e os livros volumosos. Ossos do ofício escolhido como missão. “Desde pequena, ainda na aldeia, eu sonhava com a medicina. Quero aprender para cuidar da minha gente, do meu povo”, define a universitária que antes de sentar no banco da faculdade fez curso técnico de enfermagem.
Nascida na Aldeia Mãe Maria Gavia Tarkateje localizada no município de Bom Jesus do Tocantins, oeste do Pará, Rormakore tem o português fluente, mas não abandonou a língua mãe. Na comunidade que hoje já conta com internet banda larga, aprendeu a ler e escrever, mas precisou sair para alçar voos mais longos. “Hoje lá já tem ensino médio, mas na minha época precisei sair para continuar os estudos em Marabá e depois pra vir para Belém fazer o curso de medicina”, revela a jovem aprovada em segundo lugar no processo de reserva de vagas do vestibular 2011. “Encontro dificuldades em algumas matérias, mas é como qualquer outra pessoa. Devo sair da faculdade em 2017 para voltar à minha comunidade. Nem todo indígena pensa assim, mas é o meu sonho”, revela a futura médica que deixou toda a família na aldeia para morar na casa de apoio montada pela comunidade no município de Ananindeua.
INSPIRAÇÃO
“A casa é para quem precisa resolver alguma coisa na cidade ou quem trabalha ou estuda aqui. Não sou a única, temos na aldeia cerca de 30 universitários, mas sou a primeira a fazer medicina. Espero poder inspirar outras gerações”, admite Roro deixando escapar certo orgulho.
Para a coordenadora da II Jornada dos Povos Indígenas no Pará, Viviane Menna Barreto, os índios sofrem um processo de adaptação aos novos tempos que deve ser encarada com naturalidade e não pessimismo. Encontrar índios no mercado de trabalho ou nas redes sociais, avalia, é tendência global.
“As pessoas precisam deixar a imagem do índio de 1500 para trás. Os indígenas formam hoje um grupo social inserido em mundo interligado. Eles desempenham novos papéis ao mesmo tempo em que mantém suas tradições. Não há contradição nisso”, analisa.
38 mil índios vivem em solo paraense
Em todo o país, de acordo com o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, são registrados 896,9 mil indígenas, 36,2% deles residentes em áreas urbanas. No Pará, a população de índios chega a 38.036. Indivíduos que podem ser classificados, de acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai), em ‘não contactados’ (aqueles que se mantêm isolados da população ‘branca); ‘semiaculturados’ (aqueles que, apesar do contato com a sociedade não indígena, mantêm suas tradições); e os ‘aculturados’ (aqueles que já perderam suas origem em virtude da miscigenação). “O índio está nos consultórios, na academia [universidade], nos fóruns, nas redes sociais. É um direito de todos e uma tendência que não vai mudar”, afirma Viviane Menna.
(Diário do Pará)
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