Concentrada na geração de tecnologias, serviços e produtos que poderão atender às demandas da sociedade em relação à produção de alimentos, ao uso dos produtos naturais e florestais e à conservação do capital natural da região amazônica, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) vem auxiliando na resolução dos principais problemas da região desde 1973.
Ainda assim, mesmo tendo completado quarenta anos em 2013, depois de assistir à migração do Brasil de um país em situação de insegurança alimentar para se tornar um dos principais produtores de alimentos do mundo, a chefe geral interina da Embrapa Amazônia Oriental, Maria Rosa Travassos, destaca que a atuação da empresa na Amazônia data de trinta anos antes. “A nossa atuação aqui na Amazônia tem mais de 70 anos. Nós começamos em 1939, com a criação do Instituto Agronômico do Norte (IAN), o mais antigo centro de pesquisa da região amazônica, e fomos mudando o nosso nome. Atualmente nos chamamos Embrapa Amazônia Oriental”.
Pesquisadora de formação e com atuação na Embrapa há mais de 20 anos, Maria Rosa acompanhou os avanços observados na geração de tecnologias geradas pelas pesquisas. Porém, não deixa de identificar na aproximação cada vez maior com a sociedade ainda um desafio a ser alcançado nos próximos anos. Sobre esses desafios e sobre a atuação da Embrapa desde sua criação, a pesquisadora conversou com a repórter Edmê Gomes.
P: Após quatro décadas de trajetória, como atua hoje a Embrapa e que finalidade maior ela carrega?
R: A Embrapa, como uma instituição de pesquisa, atua na geração do que a gente chama de TSP, tecnologias, serviços e produtos. Para isso, há uma ação conjunta com seus parceiros. Esses parceiros podem ser instituições de fomento, os próprios agricultores, entidades privadas. A Embrapa sabe que tem um público-alvo heterogêneo. Uma preocupação que nós temos é a classificação desse publico. O tratamento dado a um produtor que se dedica à agricultura familiar não é o mesmo que nós vamos levar a um produtor que disponha de um suporte financeiro superior. Nascemos e até hoje mantemos a missão de desenvolver tecnologias, serviços e produtos que possam chegar à sociedade de uma maneira geral, do agricultor familiar ao grande produtor, de forma que a gente possa auxiliar na resolução dos principais problemas da nossa região, do Brasil e, quiçá, do mundo, através da atuação dos nossos ‘labex’, que já estão distribuídos em alguns continentes. Em síntese, a gente pode dizer que, através desses TSPs, a Embrapa viabiliza a produção de alimentos, o uso dos nossos produtos naturais e florestais, a conservação do capital natural da região amazônica.
P: Quando você fala em solucionar problemas, refere-se a que situações especificamente aqui na nossa região?
R: Em todos os lugares, os problemas são vários. Nós temos aqueles problemas endêmicos de pragas; de logística para que o produtor consiga levar o seu produto até o mercado, emissão de gases de efeito estufa, há a necessidade de elaboração do nosso zoneamento climático, enfim, os problemas e, consequentemente, as áreas de atuação são inúmeras, mas é bom que se diga que as demandas têm de vir da sociedade para a Embrapa, que então dará um retorno dos resultados.
P: Que avaliação é feita sobre esses resultados? Em outras palavras, a Embrapa reconhece uma resposta vinda da sociedade?
R: As respostas estão chegando. Temos conseguido atingir do pequeno produtor ao grande investidor, mas queremos continuar avançando e uma estratégia pensada é a de necessidade de fortalecimento cada vez maior dos nossos laços com as instituições de extensão. Hoje, a Embrapa possui, inclusive, um departamento de transferência de tecnologia que é exatamente para fortalecer nossos laços com as instituições de extensão rural que se transformarão em agentes multiplicadores de informações sobre nossos TSPs gerados, facilitando o alcance à sociedade e, assim, fechando o nosso ciclo de missão. Nós trabalhamos em uma mão de via dupla. Tanto oferecemos cursos a esses agentes multiplicadores, como atendemos demandas externas para que possamos oferecer cursos ou qualquer outro tipo de atividade de transferência. A Embrapa é uma empresa muito reconhecida. Falta a gente fortalecer cada vez mais os mecanismos de difusão para que os conhecimentos sobre as TSPs cheguem cada vez mais à população.
P: Lá atrás, quando foi criada, a Embrapa surgiu como um instrumento de reformulação da pesquisa agropecuária. Passadas essas quatro décadas, que análise se pode fazer sobre o setor agrícola no país?
R: Ao longo desses 40 anos, nós tivemos uma alavancada. O Brasil é hoje um grande exportador, de grãos principalmente [o crescimento no setor chega a 500%, de 30 milhões de toneladas, em 1972, para 166 milhões de toneladas, atualmente]. Não obstante, a capacidade do Brasil em quebrar recordes na produção, ainda entendemos que hoje temos produtores que estão à margem desse processo por uma condição de logística. Mas a nossa preocupação não tem que ser somente essa [safras recordes]. A nossa preocupação tem que ser de que o produtor consiga alcançar o mercado.
P: Dentro desse mesmo cenário, como se encontra o Pará?
R: O Pará é um exportador de carne. É pioneiro em açaí, por exemplo, um recurso natural, hoje já até exportado pelo Estado. Podemos dividir em recursos naturais nossas fruteiras, por exemplo, e temos a pimenta do reino, que é uma ‘commodity’. E o Pará está alcançando seu lugar de destaque, mas nós temos que observar que isso não depende apenas das instituições de pesquisa. Isso depende de um esforço conjunto que envolve nossos planos de governo (federal, estadual), nossas atuações com parceiros, uma ação coletiva em busca de que a gente se torne cada vez mais autossuficiente.
P: Você citou o açaí e a gente sabe que está em um período de entressafra. De que modo a tecnologia gerada entre as cercas da Embrapa auxilia o produtor lá na ponta?
R: A nossa atuação abarca tanto o manejo de açaizais nativos - como agora vamos iniciar a parte de irrigação para termos condição de produção mesmo na entressafra, assim como trabalhar o melhoramento genético para que possamos lançar cultivares que sejam propícios para esse período. Nós temos uma atuação forte já com cultivares de açaizeiros lançados, não só em relação ao açaí, como às nossas fruteiras de modo geral, mas é uma pesquisa que não para, já que ainda temos esse problema de carência do produto na entressafra. Podemos atuar tanto pelo melhoramento genético como pelo sistema de produção.
P: E no caso da agricultura de subsistência?
R: A agricultura familiar propicia a subsistência do pequeno produtor que está espalhado nesse nosso Pará, que tem uma abrangência imensa. Nosso trabalho, nesse sentido, é o de classificar esse produtor e respeitar o conhecimento tradicional. Nossa função é alavancar essa produção com nossas tecnologias, produtos e serviços, de modo a melhorar a vida desse produtor.
P: A revolução no campo passa por uma discussão recente e global que envolve o avanço da produção, mas com sustentabilidade, um debate muito pertinente na nossa região. Como a Embrapa lida com isso?
R: Nós já temos grandes áreas abertas. O desafio é expandir sem necessariamente demandar mais desmatamento para pecuária e pastagem. Qual o nosso papel hoje? É fazer com que essa área volte a ser enquadrada no sistema produtivo, através de um sistema de integração da pecuária com a floresta, por exemplo. Temos que utilizar toda a nossa munição para obter um reaproveitamento dessa área para que novas não venham a ser abertas. Isso pensando na conservação da nossa floresta amazônica.
P: Que projetos a Embrapa tem para estimular essa produção de tecnologia, produtos e serviços?
R: Não basta considerar o número de projetos que nós temos em andamento e os que estão por vir. O mais importante é a resposta que esses projetos vão dar na produção de tecnologias, produtos e serviços para atender a demanda da sociedade. No Pará, como exemplo dessas respostas, nós temos cutivares lançados de cupuaçuzeiros e açaizeiros e nós temos o sistema de integração lavoura pecuária já sendo testado e totalmente aprovado em algumas regiões, como em Paragominas.
P: São realizadas parcerias junto à academia, por exemplo, para que as tecnologias sejam desenvolvidas?
R: Um exemplo básico do fortalecimento da nossa atuação junto às universidades é a parceria de cooperação inédita no Brasil firmada entre Embrapa e Unicamp no final de 2012, com a função de prospectar tecnologias genéticas e biotecnologias para o desenvolvimento de plantas melhor adaptadas às mudanças climáticas. Trata-se de uma iniciativa de grande impacto e mostra que a nossa atuação pode ir além dessa que nós temos hoje, que é de sermos parceiros em projetos de pesquisa, atuar nos cursos de pós-graduação, orientar os estagiários. Hoje, temos parcerias com a UFPA [Universidade Federal do Pará], Uepa [Universidade do Estado do Pará] e Ufra [Universidade Federal Rural da Amazônia]. Atuamos em cursos de pós-graduação, temos parceria em projetos de pesquisa e a tendência é ampliar cada vez mais, pensando em parcerias em que haja pesquisadores de ambos os lados para desenvolver tecnologias de grande impacto.
P: Quais são os desafios para os próximos quarenta anos?
R: O nosso maior desafio é fortalecer a nossa imagem como uma empresa preocupada em atender à demanda da sociedade. E, para que nós possamos atender, nós temos que produzir tecnologia, produtos e serviços, fazer com que eles cheguem até a sociedade de maneira cada vez mais eficiente, avaliar o impacto socioeconômico e ambiental do uso dessas nossas tecnologias. Só mostrando a nossa importância é que vamos nos fortalecer cada vez mais. O nosso ideal é conseguir chegar ao momento em que possamos suprir cada vez mais as demandas do nosso Estado, da nossa região. A Embrapa não tem que ser vista como uma empresa que produz tecnologia para que essa tecnologia fique guardada. Ela tem que fazer com que isso chegue à sociedade. Quando eu falo na sociedade, falo como um todo, englobando produtores, criadores, todos os segmentos. Então, vamos produzir, vamos fazer com que esse produto chegue até a sociedade e visualizar qual foi a melhoria que a sociedade obteve com a utilização dessa tecnologia, para que tenhamos o retorno sobre a nossa atuação.
(Diário do Pará)
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