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Um coração onde cabem muitos filhos

Nem todos saíram de seus ventres, mas elas têm incontáveis filhos. Apesar de aparentemente apostas, as duas, além da maternidade, têm em comum a fé e a disposição para tornar o lugar em que vivem um pouco melhor. Em maior ou menor escala, elas se tornaram

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Nem todos saíram de seus ventres, mas elas têm incontáveis filhos. Apesar de aparentemente apostas, as duas, além da maternidade, têm em comum a fé e a disposição para tornar o lugar em que vivem um pouco melhor. Em maior ou menor escala, elas se tornaram referências e servem de exemplo para outros que seguem seus caminhos. Seja à frente de uma das mais respeitadas instituições filantrópicas do Estado ou oferecendo suporte espiritual ao bairro, o carinho que têm pelos que ajudam é o mesmo. As mães da comunidade são a prova de que, acima das preocupações diárias, o amor, a dedicação e o cuidado ainda prevalecem.

É uma família numerosa. São oito filhos que lhe renderam 18 netos. Fora eles, existem cerca de 8.000 pessoas morando no coração de Ana Klatau Leite, 69 anos, presidente da Avao (Associação de Voluntariado e Apoio à Oncologia). Por cima, este é o total de pessoas que buscam ajuda na associação durante um ano. Os números, apesar de devidamente registrados, são difíceis de precisar. Entre idas e vindas, alguns procuram a Avao apenas uma ou duas vezes. Outros são pacientes regulares que semanalmente estão na sede da entidade, localizada na rua 14 de Abril, vizinha ao Hospital Ophir Loyola.

Ana senta em uma mesa próxima à porta de entrada e faz questão de receber os que chegam. Seja para recolher doações ou resolver pequenas pendências, ela é procurada a todo instante. “Depois que eu me sento aqui, não levanto mais”, conta rindo. Do trabalho dela e dos outros voluntários depende uma ajuda providencial para pessoas com idades que variam de 94 anos a poucos meses. ”Aqui nós somos filhas, irmãs, mães, avós... Preparamos tudo e atendemos todos como se estivessem na nossa casa. Deixamos nossa porta sempre aberta”, fala a presidente.

Alimentação, vestuário, doações de equipamentos, atendimento odontológico e oficinas de arte são alguns dos serviços oferecidos gratuitamente pela Avao. A instituição, fundada em 1999, sobrevive sem o apoio do poder público e não possui bandeiras partidárias. Ana Klautau, voluntária desde o primeiro ano, viu a associação se reconstruir, crescer e se tornar referência em voluntariado humanizado no Estado. Hoje, ela está à frente de 60 voluntários fixos que fazem as inúmeras doações que chegam à entidade se transformar em esperança. “Se um terço da população parasse de olhar apenas para si e se preocupasse um pouco mais em ajudar o outro, viveríamos em um mundo muito melhor”, comenta a presidente.

Filha de Ogum, mãe de todos

Na certidão de nascimento, registrada há 51 anos, consta o nome de Nazaré Inez Rodrigues do Nascimento. Aos 12 anos, ela começou a trilhar um caminho que lhe cobrou paciência, um casamento, o prazer de ser professora e, principalmente, um tempo que ela gostaria de ter dedicado às pessoas que mais ama. Por falta de opção e também por reconhecer a importância do que o futuro lhe reservava, a menina continuou os estudos, que lhe garantiram aprender a lidar com uma herança especial. Hoje, ela carrega o título de Mãe Inez.

Conhecida por muitos na Cidade Velha e para além dela, a Seara Mamãe Oxum (templo) já foi palco de curas espirituais de doentes desenganos e até da benzedura de filhotes de gato. “A mediunidade veio de família. Minha vó tinha, minha mãe tinha... então era natural que eu tivesse também”, conta Mãe Inez. Mas o que hoje é natural para ela já causou espanto, medo e a fez ser alvo de discriminação. “Pra tu ter uma ideia, quando eu era criança, tive incorporação dentro da escola. Aí começaram a me chamar de macumbeira, dessas coisas pejorativas. Procurei várias religiões, mas foi na umbanda que eu me encontrei mesmo”, conta a senhora de riso simpático. Filha de Oxum e Xangô, devota de São Jorge, há 20 anos ela recebe em sua casa pessoas que chegam com todo tipo de demanda.

Sobre o rico altar, onde santos e orixás se misturam, a placa informa que a Seara foi criada em oito de dezembro de 1995. No entanto, há bem mais tempo Mãe Inez já realizava passes, benzeduras e rezas. A disposição para atender todos que lhe procuravam cobrou seu preço. “Minhas crianças começaram a questionar por que eu tava dando mais atenção para os outros do que pra eles. Meu ex-marido também não compreendia isso.

Mas eu acreditava que eu estava fazendo as escolhas certas”, confessa a mãe de santo, sem conseguir conter as lágrimas.
Hoje, ela se orgulha de ter conseguido contornar as dificuldades e de obter o reconhecimento dos dois filhos. Católicos, espíritas, ateus... Mãe Inez não faz distinção entre os que batem na sua porta pedindo auxílio ou conselhos. Ao invés de um terreiro nos fundos de sua casa, a mãe de santo resolveu construir sua Seara no pátio, visível a quem quiser vê-la. Para cobrar respeito, ela procura respeitar. “Às dez horas, no máximo, nós já estamos encerrando nossas atividades. Fiz a Seara aqui na frente porque eu tenho orgulho do que eu sou e tenho a consciência tranquila de que não tô fazendo mal para ninguém. Não tenho por que me esconder”, frisa.

Entre os casos emblemáticos que testaram as capacidades espirituais de Mãe Inez estão suicidas atormentados e doentes cujo único prognóstico era a morte. “Já foram vários pacientes desenganados que salvei. Tem médicos que já indicam para cá porque sabem que não podem fazer nada”, entrega. Como liderança religiosa, a mãe de santo procura trabalhar para manter vivas tradições seculares. Ela é uma das organizadoras da Festa de Iemanjá, por exemplo, que ocorre em fevereiro. Ativa e consciente de sua missão, a mãe de santo nem pensa em se aposentar.

(Diário do Pará)

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