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Ciclistas precisam de equilíbrio e coragem

A cidade amanhece e devagar o asfalto é tomado pelas rodas. Duas, quatro, doze. Motocicletas, veículos de passeio, caminhões. Até o fim do ano passado, a estimativa da frota veicular da capital paraense girava em torno das 350 mil unidades. Um conjunto en

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A cidade amanhece e devagar o asfalto é tomado pelas rodas. Duas, quatro, doze. Motocicletas, veículos de passeio, caminhões. Até o fim do ano passado, a estimativa da frota veicular da capital paraense girava em torno das 350 mil unidades. Um conjunto enfrentado diariamente pelo encanador Valdemar da Costa, sempre de bicicleta.

Morador do bairro da Marambaia, seu Valdemar é ciclista há meio século. De lá para cá viu muita coisa mudar. Uma não. “Motorista não respeita ciclista. A gente é que não se cuide pra ver só o que acontece. Termina no asfalto, atropelado”, resume com simplicidade o trabalhador que faz da ‘bike’ a companheira de todas as horas pelas vias de Belém. Almirante Barroso, Júlio César, Pedro Álvares Cabral. O encanador vai a qualquer lugar de bicicleta, mas já teve o caminho interrompido.

“Eu ia na BR [rodovia BR-316] pelo acostamento e vinha um carro atrás de mim. De repente a motorista quis entrar numa rua e acabou me batendo. A sorte é que me jogou pro lado da calçada e não foi muito grave”, relembra o ciclista que entrou para as estatísticas de 2010 quando foram registrados em todo o Pará, segundo o Departamento Estadual de trânsito (Detran-PA), 1509 acidentes envolvendo ciclistas, 621 deles apenas na capital paraense.

“Falta espaço”, reclama o vendedor João Albuquerque que no cruzamento da Lomas Valentinas com Almirante Barroso deixou para traz o fluxo caótico da rodovia Augusto Montenegro, tida por muitos ciclistas como uma das vias mais perigosas da capital. “Lá a ciclovia existe, mas em termos. Porque tem mato, um início de BRT e muito carro, ônibus e van pra nos desrespeitar. É uma aventura todo dia”, queixa-se o morador do bairro do Mangueirão que precisa da bicicleta para se dirigir até o bairro de São Brás, onde trabalha.

FALTA DE RESPEITO

Integrante do movimento ‘Bicicletada’, iniciativa nascida nos Estados Unidos em 1996 e que chegou a Belém durante a realização do Fórum Social Mundial, há três anos, Murilo Rodrigues é um dos grandes defensores da utilização da bicicleta como modal de transporte, mas assume que hoje a missão ainda não é das mais fáceis. Sinalização deficiente, poucos espaços dedicados à circulação exclusiva de bicicletas, e ciclofaixas que terminam em meio ao caos das avenidas - os seis km de ciclovia da avenida Almirante Barroso, por exemplo, terminam no Entrocamento sem qualquer ligação segura com dois pontos críticos em relação a fluxo de veículos: rodovia BR-316 e Augusto Montenegro - são apenas alguns dos problemas enfrentados cotidianamente por quem opta por seguir caminho sem carro.

“Em Belém, ainda se tem muito arraigada a cultura do automóvel. Além das dificuldades de infraestrutura, o ciclista precisa lidar com a falta de respeito do motorista ao código que em pistas compartilhadas, por exemplo, não respeita a distância de 1,5 metros”, aponta Murilo que também reconhece a necessidade de criação de uma consciência coletiva também entre os ciclistas.

“Para andar de bicicleta, o cidadão não precisa de auto-escola. Ele aprende na rua e claro que isso traz reflexos para a relação de trânsito, mas isso não justifica que o ciclista pague com a vida como tem acontecido. Acredito que o governo precisa também investir em políticas de conscientização do ciclista como forma de incentivo ao modal, mas o motorista do automóvel precisa também contribuir”, argumenta o ativista que defende a implantação do Plano de Mobilidade Urbana [obrigatório para cidades com mais de 500 mil habitantes] na capital e arborização de vias para que a bicicleta possa ser amplamente utilizada em horários que não apenas inicio de manhã e fim de tarde e noite.

Espaço para ciclistas é viável

Arquiteto e urbanista, Paulo de Castro acredita na viabilidade da mobilidade ciclística em Belém, apesar das deficiências encontradas hoje. “Belém é uma cidade plana, isso favorece sobremaneira o modal que sem nenhum tratamento para o ciclista representava em 2000, 7,5% dos deslocamentos”, lembra.

Para o especialista, a bicicleta cumpre papel de meio de transporte único casa/trabalho em um raio de sete quilômetros e, com investimento, pode se transformar em meio complementar, um papel hoje desempenhado por vans e mototáxis. “Em corredores como BR-316 e Augusto Montenegro é possível se notar a presença dos clandestinos ou mototaxistas que cumprem um papel que poderia ser perfeitamente da bicicleta com a possibilidade, inclusive, de redução de custos”, destaca Castro que é enfático em outra crítica.

“É possível se tratar a via como um espaço coletivo, não apenas de carros. Na José Bonifácio, no Guamá, por exemplo, onde circulam 600 bicicletas por hora não há ciclofaixa, mas existem faixas para estacionamento nos dois lados. Ora, isso é desperdiçar espaço, é deixar de utilizar a via para a sua função primária que é o deslocamento. Ali, bastaria eliminar, uma das faixas e dar espaço para esse outro modal”.

CONEXÃO

Em toda Belém, existem hoje 55,153 Km de ciclovias e ciclofaixas, a maioria sem qualquer interligação. Um trabalho que de acordo com a superintendente da Autarquia de Mobilidade Urbana de Belém [Amub], Maisa Tobias, começa a ser desenvolvido pela prefeitura. “Dentro da diretoria de projetos há um estudo em andamento que visa conectar essa malha. Nós identificamos essa falta de ligação, fizemos um levantamento dos recursos investidos e agora vamos desenvolver o ‘Plano de Rotas Cicláveis’ que visa a formação de um conjunto de vias conectadas para o uso de bicicletas”, afirmou a superintendente que no mês passado assinou o termo de referência base para a contratação de consultoria para elaboração do Plano de Mobilidade Urbana de Belém que deve ser elaborado em conjunto com o Plano de Uso do Solo. Tudo ainda sem prazo de finalização.

“A abertura de espaço e a sinalização está sendo pensada pela prefeitura, mas há outro fator importante que é uma grande dificuldade. A consciência individual do próprio ciclista que precisa desenvolver um comportamento seguro no trânsito, integrando-se ao sistema”, finaliza Maisa Tobias.

(Diário do Pará)

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