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Educação para comunidades quilombolas é um desafio

Elídia Miranda saiu cedo de casa. Da comunidade quilombola de Tartarugueiro, no município de Ponta de Pedras, veio a Belém para encontrar um local onde pudesse se conectar a internet, único modo possível de fazer a inscrição para o processo seletivo espec

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Elídia Miranda saiu cedo de casa. Da comunidade quilombola de Tartarugueiro, no município de Ponta de Pedras, veio a Belém para encontrar um local onde pudesse se conectar a internet, único modo possível de fazer a inscrição para o processo seletivo especial criado pela Universidade Federal do Pará destinado a estudantes oriundos de comunidades quilombolas. Na comunidade de Tartarugueiro não há internet. Pelo menos esse ano, o esforço de Elídia não surtiu o resultado esperado. Ela não foi aprovada no concurso.

Ter de superar dificuldades geográficas até para se inscrever em um concurso de vestibular talvez seja apenas a ponta de um iceberg para centenas de jovens quilombolas em todo o território paraense que almejam obter um diploma de nível superior. Para quem teve de superar dificuldades como morar em comunidades em que o ensino vai apenas até a quarta série, muitas vezes em locais de difícil acesso e até sem energia elétrica, ter apenas a internet como forma de inscrição a um processo seletivo só demonstra o afastamento da realidade vivida pela comunidade universitária frente a diversas populações tradicionais.

Foi o que vivenciaram moradores de comunidades como as de Acará ou Oriximininá. Realidades diferentes postas como iguais. Em 2013, pela primeira vez, estudantes de origem quilombola tiveram vagas destinadas especificamente a eles na UFPA. Duas em cada curso. Dos 596 inscritos, ao final da primeira fase apenas 130 continuaram na disputa por uma das 358 vagas ofertadas no Processo Seletivo Especial. No fim, foram aprovados 48 estudantes.

Entre os cursos oferecidos pela universidade, o mais disputado entre os candidatos quilombolas foi o de Serviço Social, com 55 inscritos para duas vagas ofertadas; Pedagogia, com 49 inscritos também para duas vagas; e Engenharia Industrial, com 45 inscritos concorrendo a duas vagas, todos em Abaetetuba.

“Sobraram vagas e é preciso que instituições que lidam com a questão do negro no Pará, como o Cedenpa e a Malungu tenham como missão fazer um trabalho de conscientização junto às comunidades em relação a esse processo seletivo”, diz Zélia Amador, pesquisadora da universidade e integrante da comissão responsável pela seleção quilombola. Segundo ela, o racismo institucional está presente nas pequenas coisas, como a exigência de inscrição via internet. “Não adianta discutir isso na universidade. Não se consegue entender que não é uniformizando que vão atingir a todos. Eu tenho certeza que muitos deixaram de fazer a inscrição por não conseguir ter acesso à internet. Para alcançar os quilombolas não pode ter só atendimento online”.

O Pará é a terceira maior unidade de federação em número de comunidades formadas por ex-escravos. São pelo menos 400 territórios quilombolas. Neles há milhares de jovens que sonham com o ensino superior. “Normalmente, grande parte das comunidades quilombolas só tem até a 4ª série do ensino fundamental. Grande parte dos quilombolas cursa ensino médio pelo sistema modular, mas é preciso um sistema regular para essas comunidades”, afirmou Zélia Amador, logo após o resultado da primeira etapa do processo seletivo.

É uma realidade que precisa ser vista de perto para que as políticas afirmativas funcionem efetivamente. Levantamento feito pela Fundação Cultural Palmares, órgão do Ministério da Cultura, aponta em todo o Brasil a existência de 1.209 comunidades remanescentes de quilombos certificadas e 143 áreas com terras já tituladas. Estudos realizados sobre a situação dessas comunidades demonstram que as escolas estão distantes das casas dos alunos. Além disso, as condições de estrutura são precárias, geralmente construídas de palha ou de pau-a-pique. Há escassez de água potável e as instalações sanitárias são inadequadas.

Quando há o acesso a escolas, faltam mestres

De acordo com o Censo Escolar de 2007, o Brasil tem aproximadamente 151 mil alunos matriculados em 1.253 escolas localizadas em áreas remanescentes de quilombos. O problema é que a maioria dos professores não está capacitada adequadamente e o número é insuficiente para atender à demanda.

No caso da universidade a realidade não se afasta desse panorama inicial. “Os cursos são sempre fora e longe das comunidades. A universidade não está nos quilombos. Para um jovem que queira estudar, precisa pensar em como se manter, como viver longe da família e como lidar com os desafios típicos de quem sai de uma comunidade para ir à cidade”, diz o sociólogo e antropólogo Assunção Amaral.

Segundo ele, a forma com que os professores lidam com quem é de fora também pode ser um empecilho. “Geralmente numa sala teremos 40 pessoas não quilombolas e uma ou duas vindas dessas comunidades. Se não houver uma preocupação em como lidar com essa temática, as dificuldades serão maiores”, diz.

São os desafios que calouros como Eder Luiz Nascimento e Cláudia da Silva Pereira, aprovados em Direito, ou como John Lennon Ferreira Batista e Morisalberte de Jesus Carvalho, aprovados em Educação Física, terão de superar. Comunidades inteiras esperam que consigam.

(Diário do Pará)

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