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O desafio do ensino superior para quilombolas

Chovia muito na noite em que Raimundo Magno Cardoso Nascimento sentou ao lado da bicicleta, chorou e pensou em desistir. Fazia sol na manhã em que toda a comunidade África Laranjituba, em Moju, comemorou o grande passo alcançado por Magno. Entre esses doi

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Chovia muito na noite em que Raimundo Magno Cardoso Nascimento sentou ao lado da bicicleta, chorou e pensou em desistir. Fazia sol na manhã em que toda a comunidade África Laranjituba, em Moju, comemorou o grande passo alcançado por Magno. Entre esses dois momentos, o de quase desistência do curso superior, levado adiante a duras penas, e o da festa de formatura junto a amigos e parentes, há a síntese do que seja conseguir um diploma para quem vem de uma comunidade quilombola. É um esforço infinitamente maior.

Magno cursou Administração com ênfase em Comércio Exterior no Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa), uma instituição particular de ensino, em Belém. No primeiro dia de aula, ouviu do reitor que chegar ao final do curso não seria nada fácil. Pensou que não poderia ser mais complicado que o caminho percorrido até ali. Estava enganado.

Chegar a uma instituição de nível superior havia sido uma vitória pessoal. Magno estudara só até a quarta série na comunidade quilombola. Não havia mais como prosseguir. “Em muitas comunidades, estamos condenados a ter apenas esse primeiro período do ensino fundamental. Nem energia elétrica havia onde eu morava em 2002. Ainda hoje TV e energia elétrica são novidades no África Laranjituba”, diz.

Decidido a não estancar, Magno optou por estudar sozinho. Começou a catar, aqui e ali, livros usados, devorados à luz de lamparinas até quase as três da manhã, todos os dias. “Queria estar preparado para quando surgisse a oportunidade de voltar à escola”, lembra. A biblioteca intuitiva começou a crescer. São mais de dois mil livros atualmente.

A oportunidade de voltar a sentar num banco de escola veio em 1998, quando Moju foi afetado por um dos maiores surtos de malária já vistos até então. Entre 1998 e 1999, mais de 30 mil dos 100 mil habitantes do município foram derrubados pelo mosquito. Magno foi contratado para ser um dos agentes de saúde no combate à doença. Passou a morar em Moju, numa casa alugada pela prefeitura aos agentes de saúde. Magno conseguiu terminar o Ensino Fundamental, mas, antes de entrar no Ensino Médio, a epidemia de malária foi debelada e ele seria mandado de volta à comunidade. “Foi um baque. Eu tava realizando um sonho”, diz Magno.

Ao procurar o secretário municipal de Saúde e expor o que almejava, Magno ouviu que, se quisesse estudar, deveria entregar a vaga e ir para a escola. Sem casa e sem trabalho, isso seria impossível. Voltou para a comunidade. Cinco dias depois, recebeu um recado. O secretário mudara de ideia. Magno fora recontratado para combater a malária no Alto Moju. Nove pessoas já haviam morrido. O ano era 2000.

O estudante quilombola tanto insistiu que conseguiu fechar um acordo com a Secretaria de Educação de Moju. Os 22 dias do mês que passaria em um barco descendo e subindo rios combatendo a malária também seriam destinados a estudar conteúdos previamente elaborados pelos professores. Nos oito dias em terra, Magno faria as provas necessárias. Foi assim que concluiu o Ensino Médio.

Magno queria mais. Soube que o governo federal começara a abrir vagas em instituições de nível superior através do Prouni. Seriam 300 mil vagas. “Uma seria minha, pensei”. Foi. Magno foi aprovado e entrou no Cesupa.

PELO QUE IMPORTA

“Se vocês acham que foi difícil entrar, saibam que vai ser mais difícil se manter aqui”. A voz ecoava no auditório em Belém, no dia 28 de fevereiro de 2005. Era a saudação do reitor do Cesupa, Paulo do Vale, voltada aos alunos do Prouni. O desafio foi minimizado por Magno. “Toda a dificuldade que passei para chegar aqui não deve ser mais difícil que os próximos quatro anos”. Foram.

Vindo de uma comunidade quilombola e de um município pequeno, Magno sentiu que Belém não era tão acolhedora. Entregava currículos, mas não tinha oportunidade sequer de fazer testes. Com o tempo, sem emprego, com dificuldades para se manter, Magno voltou a Moju. Trabalhava no município, depois se deslocava a Belém para assistir às aulas e voltava de embarcação para Moju. Chegava à sua casa às duas da manhã e levantava às seis. Todos os dias.

Numa dessas noites, choveu muito durante todo o percurso de volta. A mãe de Magno sempre deixava uma bicicleta à espera do filho. Era como vencia a distância da rodovia até a comunidade. A chuva derrubara um poste no meio do caminho. Os fios de alta tensão se romperam. A parte energizada serpenteava próximo. Outra parte, não energizada, se enroscou no pescoço de Magno levando-o ao chão.

Com frio, encharcado, cansado, Magno sentou no mato à beira da estrada, com a bicicleta ao lado, e chorou. Durante um tempo que parecia não acabar, chorou. Quando chegou à sua casa, disse à mãe que desistia, chegara ao limite. “Só vão se importar se você chegar ao final”, ouviu como resposta. Não foi o suficiente para demover o estudante da decisão de trancar a matrícula.

Foi o que fez no dia seguinte. Ligou para o Cesupa e informou que não poderia continuar. Ao mesmo tempo, Magno havia passado em um concurso na prefeitura de Moju. Iria trabalhar e abandonar a ideia de ter um diploma universitário. No dia seguinte, no momento em que saberia a o nome da comunidade onde iria trabalhar, Magno recebeu um telefonema do Cesupa. Era a professora Elza Dantas dizendo que falara aos alunos da turma de Magno da decisão de abandono. A turma resolveu se cotizar e ajudar o quilombola. Ele não deveria desistir.

Durante quatro meses, Magno estudou dessa forma, com os colegas ajudando nas passagens e na alimentação. O Cesupa passou a administrar o Hospital Metropolitano e Magno foi trabalhar no hospital. As notas melhoraram, Magno se tornou um dos melhores da turma e acabou sendo o escolhido para ser o orador da turma. No dia da formatura, quebrou o protocolo e contou a própria trajetória. Ao final, entre os cumprimentos emocionados, ganhou uma bolsa de pós-graduação ofertada pela instituição. A especialização em Marketing encerra em julho.

O estudante autodidata que à luz de lamparinas devorava livros levou à própria comunidade tudo o que aprendeu. Há laboratórios de informática, bibliotecas, sala de cinema, turismo ecológico e o retorno do artesanato em África Laranjituba. No início do ano, Magno se deu um novo desafio. É um dos aprovados no curso de Direito na UFPA, no processo seletivo especial para oriundos de comunidades quilombolas. “Só aceito oportunidades se puder fazer algo pela minha comunidade. Seremos um calo no pé da UFPA. Pode contar com isso”. Não há como duvidar.

(Diário do Pará)

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