Fazendeiros e extrativistas descobriram uma nova forma de desmatar a floresta amazônica sem serem captados pelas imagens de satélites, apesar do amparo tecnológico e do melhor sistema de monitoramento da América Latina.
"O desmatamento é feito em etapas", explica o pesquisador e geógrafo da Universidade de São Paulo (USP), Ariovaldo Umberlino. "Primeiro, retira-se as madeiras de lei, isto é, as de boa qualidade. Em seguida, parte da vegetação, e assim sucessivamente, até virar uma vegetação rala. É a chamada extração seletiva."
Neste processo, o satélite só consegue captar a etapa final, quando a vegetação está visivelmente mais baixa. Ariovaldo explica que anteriormente eram feitas derrubadas diretas, sem nenhuma estratégia, e a floresta era destruída de forma avassaladora.
No entanto, após o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) fortalecer o projeto de monitoramento da floresta, os desmatadores ilegais reformularam seu modo de agir para não serem captados pelas imagens de satélite.
Atualmente, o Inpe conta com dois programas de monitoramento via satélite: o Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes) e o sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter). O Prodes é indicado para cálculo de taxas anuais de desmatamento, enquanto o Deter divulga suas medições diariamente.
Outra estratégia que esses desmatadores usam é agir no período de chuvas, quando as imagens são prejudicadas devido a presença de nuvens. O pesquisador explica ainda que esse é o motivo de o índice de desmatamento ter aumentado em períodos de precipitação sobre a floresta.
“Há uma tendência à diminuição, pois já foi maior, porém, isso não significa que devemos relaxar. É preciso lutar cada vez mais. Ao todo, 17% da Amazônia já foi devastada, um número que não é tão assustador, mas se fizermos uma equação de área desmatada em relação ao tempo, a situação fica realmente preocupante”, alerta Ariovaldo.
FUTURO
Se essa triste realidade perdurar, poderemos ter graves problemas ambientais no futuro. É o que demonstra o físico e professor do Instituto de Física da USP, Paulo Artaxo.
Ele explica que a Amazônia é o maior reservatório de carbono do mundo, possui ainda a maior bacia hidrográfica e é habitat de diversas formas de vida, algumas ainda sequer descobertas pela ciência, inclusive tribos indígenas que nunca tiveram contato com o “não-índio”. É, portanto, um lugar único, onde magia, folclore e cultura são extremamente vivos.
De acordo com o Greenpeace, 49% da Amazônia estão no Brasil, porém, infelizmente, o povo brasileiro olha com distanciamento o maior tesouro natural do planeta. Aliás, sabe-se muito pouco sobre a região amazônica do ponto de vista científico, mas sua extinção poderia trazer enormes problemas climáticos para o mundo, o que Artaxo acredita ser uma questão-chave para desenvolver um quadro mais abrangente das mudanças climáticas globais.
SERVIÇO
Os pesquisadores Ariovaldo Umberlino e Paulo Artaxo foram palestrantes convidados do projeto “Repórter do Futuro”, realizado pela organização Oboré em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), como curso de complementação para jovens comunicadores.
Outros especialistas farão suas palestras, transmitidas em tempo real pela internet, aos sábados. Quem desejar mais informações pode acessar a página oficial da Oboré.
(Claudio Seidji Kokubo, especial para o DOL)
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