O estado de saúde do cantor baiano Netinho – internado no mês passado por causa de uma hemorragia no fígado, que pode ter sido causada pelo uso prolongado de anabolizantes – é mais um alerta para quem busca o corpo perfeito a qualquer preço. Apesar de proibido pelo Ministério da Saúde para fins estéticos, esse tipo de droga ainda tem sido muito procurada por pessoas que interessadas em ganhar músculos colocam em risco a própria saúde.
“Variação de humor, agressividade, depressão, perda de interesse sexual, disfunção erétil, são alguns dos efeitos colaterais em nível psicológico. Aliados a esses há o comprometimento do fígado e coração como elevação da pressão arterial e do nível de colesterol total [aumento do LDL, colesterol ruim, e diminuição do HDL, bom colesterol]”, explica o coordenador do Grupo de Estudos em Exercício Resistido e Saúde (GERES) da Universidade Estadual do Pará (Uepa), Evitom Corrêa Sousa, que desenvolve vários estudos que relacionam o uso de anabolizantes à prática de atividade física.
Em uma das pesquisas mais recentes, desenvolvida com o auxílio do pesquisador Odilon Salin, e publicada na Revista Brasileira de Medicina do Esporte, Evitom analisou o conhecimento, e uso das drogas, por profissionais e estagiários de educação física em academias de Belém. A constatação foi desanimadora. “A pesquisa demonstrou que 31,6% dos professores e estagiários usam ou já haviam usado algum tipo de esteroide anabolizante. É o maior índice de todo o país”, alerta o especialista. “Nosso conhecimento empírico, de experiência com academias, já apontava esse problema que preocupa, afinal, ao invés de buscar métodos naturais, os alunos podem acabar tendendo a essa utilização irregular inspirados nos professores que deveriam ser espelhos”, avalia Corrêa.
A descoberta chamou atenção dos pesquisadores norte americanos Yesalies e Bahrke que convidaram os pesquisadores paraenses para participarem da edição de uma publicação específica que será lançada durante às olimpíadas.
Em sua grande maioria, os esteróides trazem um alto teor do hormônio masculino testosterona, que atuam no crescimento celular e em tecidos do corpo, como o ósseo e o muscular. Evitom explica que apesar da disseminação do uso indiscriminado, as substâncias foram inicialmente produzidas para o tratamento de pessoas com distúrbios hormonais e que por isso, necessita de orientação médica, alerta o especialista que já coordena um novo estudo. Agora, o foco é a ligação das mulheres com essas substâncias. “Temos observado o aumento do uso também em mulheres. O modelo de corpo perfeito que a sociedade adota contribui para esse fenômeno”.
Frequência
O produto é encontrado na forma de comprimidos, cápsulas e injeções. O principal atrativo está relacionado ao aumento rápido da massa muscular e à redução da gordura corporal. Com a experiência de dois anos como instrutor de musculação em academias, Moisés Costa, confirma o ‘sucesso’ dos anabolizantes. “Infelizmente, o uso de esteróides anabolizantes no meio é bastante comum, mas devido à exclusão, é também muito camuflado”, afirma Moisés. “Não existe milagre, o resultado ideal só será alcançado com exercício, alimentação balanceada e descanso, mais ou menos que isso é correr risco de consequências sérias”, dispara.
Aos 20 anos, a universitária Bianca Duarte é adepta da musculação há quatro anos. “Desde que comecei a malhar ganhei qualidade de vida. Durmo bem, diminuiu o estresse, dores femininas. O resultado estético é uma consequência não uma busca”, diz a jovem que afirma jamais ter lançado de anabolizantes, apesar das oportunidades. “Tenho amigos próximos,esclarecidos, que usam essas substâncias. Nesse círculo de amizades o entendimento é que os benefícios compensam os riscos, mas eu penso exatamente o contrário. Acho que é algo passageiro que pode trazer males permanentes e por isso me mantenho afastada”, argumenta.
Atitude que o guarda municipal, Anderson Costa, 35 anos, hoje também segue. Praticando musculação desde os 18 anos, ele diz que a pressa e a imaturidade são os maiores facilitadores para a busca perigosa. “Quando você é garoto e começa a malhar é importante ter consciência. É muito difícil se ver magro e olhar para o lado e ver vários fortões. Você quer ficar forte e tem pressa”, afirma o funcionário público que assume, sem orgulho, o uso de anabolizantes durante o primeiro ano de malhação.
“Eu ganhei força, mas logo apresentei efeitos colaterais. Com a pele muito oleosa, a minha aparência ficou destruída com espinhas em todo o rosto, braços e costas. Também me percebi mais agressivo e comecei a comparar com outras pessoas. Perdi um amigo por causa de anabolizante e coloquei na balança. Antes da queda de cabelo, aceleração de riscos para tumores, problemas cardíacos, esterilidade e outros males deixei de usar”, detalha Anderson que atualmente malha uma hora e meia, quatro vezes por semana.
(Diário do Pará)
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