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Gastos com saúde extrapolam orçamento de pacientes

Laís Queiroz é advogada e está no sétimo mês de gestação. A mãe de Gilma Socorro Mendes, dona Arlete, é aposentada e tem 73 anos. Maria Célia Farias trabalha em casa, no município de Santa Izabel. Mulheres diferentes, realidades distintas. Em comum, mais

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Laís Queiroz é advogada e está no sétimo mês de gestação. A mãe de Gilma Socorro Mendes, dona Arlete, é aposentada e tem 73 anos. Maria Célia Farias trabalha em casa, no município de Santa Izabel. Mulheres diferentes, realidades distintas. Em comum, mais que o gênero, as três dividem a ausência de um plano de assistência à saúde e pagam caro por isso. Literalmente.

Desde a descoberta da gravidez, Laís divide a rotina de profissional liberal com as preocupações de futura mamãe. Na mesa da sala, entre as pilhas de papéis com os casos que defende, a advogada guarda um a um os recibos que comprovam: “Engravidar custa caro”, brinca a jovem que precisou de menos de um mês para chegar a essa conclusão. “Na primeira bateria de exames apenas laboratoriais deu para sentir o impacto. Foram os R$ 600 mais rápidos da minha vida”, relembra.

Na mesma proporção que a barriga, de lá pra cá, as cifras se acumularam e não pararam de crescer. Para garantir uma gravidez tranquila, a advogada segue rigorosamente o pré-natal e encara o consultório médico uma vez por mês. Pelo pacote que inclui as nove visitas ao obstetra mais a cesariana, Laís desembolsou cerca de R$ 2 mil. Para ela uma vitória. “Esse valor eu consegui na base da pesquisa e da pechincha. A média de preço no mercado fica em torno dos R$ 5 mil”, afirma a jovem que gasta mais. Somadas as necessidades de consultas extras, quando são necessários outros R$150, e a realização das ultrassonografias que pelos cálculos de Laís devem fechar em R$1.300, a advogada programa ter gasto ao fim dos nove meses, no mínimo R$ 5 mil descontando os gastos com medicações.

SUS? Nem pensar?

“É um valor que pesa no bolso, mas que não dá pra abrir mão porque pra mim é impossível depender do SUS. No meu caso, conto com a ajuda do meu pai, pesquiso e divido em prestações tudo o que é possível, afinal tenho um enxoval inteiro para montar”, justifica.

Fruto de uma geração diferente de Laís, dona Arlete pouco gastou [com consultas e exames] durante as cinco gestações que acumulou ao longo da vida. O peso da idade, entretanto, é o vilão do bolso. “Ela é hipertensa e faz check up geral com o geriatra uma vez por ano. Vem de Barcelos [município do Amazonas] só para isso. São R$300 pela consulta e toda natureza de exames. É aí que começa a baixa”, revela a filha, Gilma Socorro, que carrega a responsabilidade de levar a mãe às clínicas e laboratórios, missão que este ano começou mais cedo. Uma crise ocasionada pela evolução de uma hérnia hiatal [quando parte do estômago recobre o músculo diafragma] fez dona Arlete antecipar a viagem de outubro para abril. No consultório, o diagnóstico e o preço. O caso da aposentada depende de intervenção cirúrgica e os gastos que anualmente giram em torno de R$ 4 mil (consultas e exames) não sairão por menos de R$11 mil.

“Eu acho uma cobrança abusiva. Ela será internada em um dia. Fará a cirurgia à tarde e na manhã seguinte terá alta. O médico explicou que R$ 8 mil ficam com equipe e R$ 3 mil com o hospital. Minha proposta sempre foi pagar um plano de saúde, mas os outros irmãos não concordam porque dizem que se gasta quando não se precisa, então esse é o preço. Pagar tudo de uma vez nesse momento de necessidade”, reflete Gilma.

Calvário

Aos 56 anos, a autônoma Maria Célia é a única das três que antes de recorrer ao convênio particular, procura o Sistema Único de Saúde (SUS). Hipertensa e diabética, dona Maria não paga pelas consultas médicas que faz no centro de saúde, mas diz que para obedecer as orientações às vezes desiste da espera quando o assunto são os exames. “A última vez, por exemplo, foi em fevereiro e eles marcaram os exames para abril, mas quando chegou o dia desmarcaram. Não é fácil”, queixa-se a autônoma que complementa a renda de um salário do marido com a venda de gelo e ‘chopp’.

“Como em outras vezes, vou fazer no particular com a ajuda do meu marido. Mas faz falta porque a gente tem outros gastos necessários como luz e alimentação. O particular tem a vantagem de fazer na hora, mas se não tiver dinheiro, não faz”, constata.

Consulta de neurocirurgião pode chegar a até R$ 400,00

Para o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Saúde do Pará (Sindespa), Breno Monteiro,os preços cobrados por consultas e exames em hospitais e clínicas particulares de Belém não são exagerados e refletem a dinâmica do mercado. Pagar de R$300 a R$400 por uma consulta com um neurocirurgião, por exemplo, é, na avaliação de Monteiro, fazer um investimento justo e diferente do praticado pelas empresas de plano de saúde.

“O valor de uma consulta médica depende do profissional e do grau de especialidade, destaque e sucesso dele. É natural que quanto mais conceituado e menos disponível no mercado esteja o profissional, maior seja o pagamento pela consulta o que nunca vai acontecer com o plano de saúde, mesmo o melhor deles, que paga uma valor bem inferior aceito pelo profissional pelo quantitativo de pacientes agregados por aquela empresa”, explica.

O mesmo raciocínio valeria para a realização de exames estabelecendo-se apenas a proporção com a utilização de novas ferramentas tecnológicas.

De acordo com o presidente do Sindespa, existe no país hoje uma regulação sobre a cobrança dos honorários médicos que estipula um percentual mínimo a ser praticado, nunca um máximo que varia de região para região, de especialidade para especialidade. “A tabela é elaborada por entidades representativas como o Conselho Federal de Medicina e está em sua quinta edição. Hoje, não se deve pagar menos de R$ 80 por uma consulta médica no Brasil, mas os planos não cumprem isso e pagam entre R$60 e R$ 70”, critica Breno Monteiro, que não acredita, entretanto, que possa haver um possível repasse ao paciente individual resultante da relação desarmoniosa com as seguradoras de saúde. “O usuário que faz o atendimento particular é sozinho, o plano traz consigo 400 mil usuários. Essa é a lógica”, resume.

(Diário do Pará)

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