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Relatos de fé em um Santuário Mariano

Do alto a mãe observa quem entra e quem sai. Guardada por um “exército” de 15 anjos, é companheira diária dos filhos que chegam de todos os cantos; a promesseira que de joelhos percorre o corredor central da igreja até o altar; o fiel que de terço em punh

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Do alto a mãe observa quem entra e quem sai. Guardada por um “exército” de 15 anjos, é companheira diária dos filhos que chegam de todos os cantos; a promesseira que de joelhos percorre o corredor central da igreja até o altar; o fiel que de terço em punho conversa baixinho com Deus; as crianças que ignoram a doação da família Ribeiro em troca de uma rodada de ‘adedonha’; o jovem senhor que chega procurando abrigo apenas para folhear uma revista de sucos naturais. O lar de uma mãe é a segunda casa dos filhos. Na Basílica Santuário de Nazaré não é diferente.

Prestes a completar sete anos como Santuário Mariano da Arquidiocese de Belém, o patrimônio arquitetônico encanta pela beleza e tranquilidade transmitidos. Os traços de caráter neoclássico, o interior em mármore, a riqueza dos detalhes do forro de madeira confeccionado por artistas paraenses. O ruído que vem de fora se abafa. Por fora das paredes, no coração do bairro de Nazaré, a cidade fervilha em calor, buzinas e pressa.

“A gente chega cansada do estresse da cidade, mas quando entra aqui fica leve. Uma paz invade nossos corações e o silêncio vai tomando conta de tudo, transmitindo aquela tranquilidade. Quando saio daqui, sou outra”, diz a dona de casa Maria Raimunda Pacheco, 58, que frequenta a igreja pelo menos uma vez por semana desde a mudança para a capital paraense.

VISITA

Católica nascida na ilha do Marajó, Maria lembra sem esforço a primeira visita feita à casa da ‘mãezinha’. Tinha 8 anos, viera a Belém por ocasião do Círio. A menina franzina vestida na melhor roupa do armário simples não sabia, mas estava prestes a conhecer de perto a morada daquela que é considerada a padroeira dos paraenses. “Deu para ficar abismada. Uma cabocla do Marajó chegando numa igreja linda como essa. Nunca tinha visto nada parecido. Os vitrais, o teto, todo o dourado do altar. Meus olhos brilharam”, recorda emocionada a fiel devota.

“É a mais linda igreja do mundo e é nossa. Não tem como não se admirar”, comenta a xará, Maria das Neves Netto, de mãos unidas em oração. Aos 82 anos, a aposentada comemora a vida independente. Para cruzar a cidade e chegar ao santuário, não precisa de ajuda. É tarefa das mais prazerosas. “Ela (Nossa Senhora) me dá a força necessária. Passar por Nazaré e não entrar na Basílica é um pecado para o paraense”, brinca Neves.

Os amigos Maria de Souza, Francisco Carvalho e José Gomes saíram da cidade de Codó, no Maranhão, e já na capital paraense não titubearam. “É o primeiro lugar que visitamos. Há uma energia muito boa em volta do Círio e, agora, aqui nesse Santuário, a gente vê de perto a força dessa devoção”, reflete o comerciário Francisco Carvalho, registrando todos os detalhes da vista em sua câmera fotográfica.

“Apesar de já ter viajado e conhecido muitas igrejas nesse país, nunca vi nada igual. Já imaginava, mas agora tenho certeza. Vir ao Pará e não visitar a Basílica é o mesmo que ir a Roma e não ver o papa”, compara Maria de Souza. “Há uma tranquilidade e uma conexão que não se encontra em qualquer lugar. O que eu também noto é o cuidado que se tem com a igreja. Quem entra aqui entra sempre com muito respeito, entra como se realmente estivesse chegando à casa da mãe”, analisa o chileno Mario Salvo, pela primeira vez no santuário.

“É uma igreja que tem a cara do Pará”

A Basílica ainda não estava decorada, nos bancos não haviam convidados e o som não lembrava em nada a marcha nupcial. Braços dados com o pai, Vanessa Lourenço, 22, chegou ao altar de vestido preto para encontrar Ricardo Donato, 25, vestido em uma blusa azul e uma calça cáqui. Faltavam três dias para o casamento, era o ensaio geral para o grande dia.

“A minha parte é a mais fácil porque eu só ando um pedacinho com a noiva. Estamos treinando direitinho, mas na hora eu sei que vamos esquecer tudo. No dia do meu (casamento), eu estava tão nervoso que na hora do beijo, beijei a testa da minha esposa. Ela ficou irada”, recorda o pai da noiva, Antônio Lourenço, viajando quase 30 anos no tempo.

Não lembrar seria tarefa difícil. A cada passo dado, as recordações do trajeto no passado, agora repetidos pela filha. “Escolhemos a Basílica para o casamento pelo que ela representa para a nossa família. É uma igreja que tem a cara do Pará e foi aqui onde meus pais se casaram há 28 anos. Seria difícil fugir”, justifica Vanessa, vigiada de longe pelo noivo que não aceita entrevista antes do ‘encontro’ com a noiva no altar. “Deixa a gente terminar, que eu falo”, resume o fluminense, revelando o nervosismo de quem beira o casamento. Em treino, ainda sem padre, mãe Nazaré derramava de cima as bênçãos sobre o jovem casal.

(Diário do Pará)

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