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Ajuda tecnológica para vencer barreiras

Enquanto ajustava o som ambiente do auditório, o mineiro Kellerson Viana digitalizava um texto que seria ‘tuitado’, verificava o celular e monitorava o que seria transmitido ao vivo em uma webradio. Tudo praticamente ao mesmo tempo e com um detalhe: Viana

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Enquanto ajustava o som ambiente do auditório, o mineiro Kellerson Viana digitalizava um texto que seria ‘tuitado’, verificava o celular e monitorava o que seria transmitido ao vivo em uma webradio. Tudo praticamente ao mesmo tempo e com um detalhe: Viana não enxerga nada. A cegueira o acompanha desde os 13 anos, por conta de um descolamento de retina. Aos 38 anos, no entanto, Kellerson Viana pouco parece se importar com a ‘deficiência’. É um adepto fervoroso de todas as possibilidades tecnológicas. No sábado, debateu o uso de smartphones, tablets e outros equipamentos nas mãos de pessoas com deficiências visuais.

A discussão foi feita durante o ‘I Encontro Norte-Nordeste de Informática Inclusiva com o uso do Dosvox e outros softwares’, uma iniciativa da Associação de e para Cegos do Pará (Ascepa). “Uso Facebook, Twitter e meu celular é adaptado, acho que esses mecanismos são essenciais para quem tem algum tipo de deficiência”, diz Viana.

O mineiro é uma exceção. Problemas relacionados a deficiências físicas andam muito próximas à pobreza. E em municípios da região Norte é sempre mais complicado adotar mecanismos de inclusão digital. “Os desafios na região são maiores, porque há o problema geográfico, as longas distâncias e municípios com estrutura mais deficiente”, diz José Antonio dos Santos Borges, um dos criadores do programa de computador Dosvox, que revolucionou a vida de muitas pessoas com deficiência visual.

O Dosvox é um sistema destinado a ajudar o deficiente visual a fazer uso de microcomputadores, por intermédio de um sintetizador de voz. O sistema foi desenvolvido no Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob a supervisão do analista José Antonio dos Santos Borges, da Divisão de Assistência ao Usuário, para atender às necessidades dos deficientes visuais da UFRJ.O sistema vem sendo aperfeiçoado a cada nova versão, com interferência direta de programadores deficientes visuais, que fazem uso do próprio sistema Dosvox, sem necessitar de ajuda de pessoas que enxergam normalmente. O sistema conversa com o deficiente visual em português.

O Pará é o estado nortista onde a inclusão digital assume importância fundamental. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a Amazônia possui cerca de 3 milhões de pessoas que não enxergam ou tem dificuldade para enxergar. Um milhão e meio estão no Pará. O estado possui quase 20% da população com deficiência visual do Brasil.

“Precisamos interiorizar o programa, para que fique mais acessível”, diz Antonio Carlos de Barros Júnior, coordenador do Encontro. “Nas fronteiras do estado ele não é usado e para nós é um sistema essencial, que deve ser usado nas escolas”, diz.José Luiz Batista, 37 anos, usou pouco o Dosvox. “Não tinha computador em casa e só tive um curso que ensinava a usar, mas tem de ficar usando sempre, senão perde o jeito”, diz Batista.

Usuários garantem eficácia do sistema

A dificuldade de acesso é o que fez com que Olivaldo Pinto da Rocha, 33 anos, chegasse a procurar a Justiça no município de Cametá para garantir o uso do sistema. “Em 2009 entrei na Justiça brigando contra a Seduc para garantir material adequado para estudar”, diz. Rocha cursava o ensino médio. O Dosvox foi uma ferramenta essencial para que o cametaense conseguisse fazer cursinho pré-vestibular e entrar na universidade. Recebendo treinamento do Senai em relação ao sistema, Olivaldo agora cursa Pedagogia.

Sonhos de evolução educacional também passam pela cabeça das amigas Claydiane Teixeira Madureira, 17 anos e Larissa Oliveira, 13 anos. Moradoras de Icoaraci, já usam o programa e perceberam que a vida mudou para melhor.

“Comecei a usar ano passado. Já conhecia há um tempo, mas não tinha computador em casa, por isso era meio complicado, eu não sabia escrever no computador”, diz Claydiane, estudante da sexta-série. Claydiane ainda tem dúvida se vai cursar Psicologia ou música.A realidade de Larissa é um pouco diferente. Com dois computadores em casa, usa o Dosvox desde 2008. “Facilitou na escola, facilitou na internet”, diz ela. Larissa perdeu a visão aos cinco anos de idade, em consequência de um erro médico. Gripada e com febre foi sendo medicada com remédios inadequados. Acabou numa UTI, quase morrendo. Perdeu a visão.

“Para mim facilitou em 95% ter o aparelho”, diz Luciene Monteiro Nunes, 48 anos. “É um programa muito bom. Se tu não vê, precisa ouvir e é isso que eu faço”, diz. Luciene Monteiro perdeu a visão em 2006 por conta de um tumor no cérebro. “Perdi a vista, mas faço coisa que muita gente que enxerga não faz”, garante ela.

(Diário do Pará)

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