O mês de junho começou e junto com ele a cidade ganha mais cores, cheiros, sabores e ritmos. As noites tendem a ser aquecidas pelas fogueiras e iluminadas por balões e bandeirinhas coloridas. O clima é propício a comemorações com iguarias típicas em abundância e também muito “arrasta pé”.
É neste cenário de festejos juninos que aparecem inúmeras quadrilhas formadas por jovens brincantes que enaltecem a cultura popular e inovam os ritmos de São João. Na periferia de Belém, as quadrilhas adquirem um valor que vai além do cultural e ultrapassa o social, pois tendem a dar uma ocupação a moças e rapazes de forma a se evitar que eles entrem para o mundo da criminalidade. Isto acontece, por exemplo, na quadrilha Expresso Junino, no bairro de Águas Negras, em Icoaraci, que já retirou dezenas de jovens do mundo das drogas e trabalha com eles a paixão pela cultura paraense.
A sede da quadrilha funciona em um galpão na passagem São Raimundo. A via apresenta todas as características que revelam a pouca atuação do poder público naquela área, a começar pela falta de pavimentação. Quando chove, a rua vira um verdadeiro lamaçal, mas isto não impede que os brincantes frequentem e estejam lá todas as noites para o ensaio e também de dia para participar das oficinas. No total, 60 pessoas estão envolvidas com a quadrilha, sendo que 40 delas formam os 20 casais dançarinos.Os olhos carregados de sombra e o batom na cor vermelha ficam em segundo plano quando a jovem morena Milene Driely, 21, sorri ao vestir o traje, que usou no ano passado, para ensaiar a sua coreografia de Miss Mulata. “Eu danço na Expresso Junino há cinco anos e me emociono bastante toda vez que a gente consegue arrancar aplausos do público. É uma prova de que o nosso trabalho, a nossa dedicação, deu o resultado esperado”, comentou.
Questionada sobre o que seria a dedicação exigida pela quadrilha, se é apenas frequentar os ensaios e as oficinas, ela imediatamente responde que não. “Eles nos cobram frequência na escola e boas notas nas provas, só para começar! Além disso, pedem que os nossos pais nos acompanhem sempre que puder”, acrescentou.
O fundador da quadrilha, Francisco Assis, 46, mais conhecido por Chico, destaca que quando o grupo começou, há seis anos, não se pensava no trabalho social com os jovens da comunidade, até mesmo porque a Expresso Junino foi fundada por antigos brincantes de quadrilha que, no primeiro momento, queriam apenas brincar as festas de São João. “A minha família toda dançava quadrilha, então decidimos montar uma nós mesmos. Eu, por exemplo, além de coordenador também sou dançarino e ajudo a costurar as roupas dos brincantes”, comentou.
Com o crescimento da violência no bairro e na cidade - Belém está entre as capitais mais violentas do Brasil -, Chico observou que era importante motivar a juventude para se participar dos ensaios e dançar na quadrilha, a fim de dar a eles uma ocupação no horário da noite, quando eles saiam para brincar na rua e ficavam vulneráveis à violência.
“Este ano nós estamos felizes porque conseguimos resgatar um jovem de 17 anos que era envolvido no tráfico de drogas”, exaltou Chico, que não autorizou aproximação com o rapaz, por uma questão de segurança. “Ele trabalhava como ‘aviãozinho’ (uma espécie de office boy) para traficantes do bairro, mas hoje ele não faz mais nada do tipo e até se distanciou destas pessoas”, frisou.
Com o bebê no colo, a jovem Daniele Cristina Melo, 17, observa os colegas ensaiando os passos das danças deste ano. Ela não pode participar da quadrilha por causa do filho recém-nascido. “Conheci o meu marido (José Augusto Guimarães, 23) aqui na quadrilha. Ele também não vai dançar este ano”, frisou.Para ela, o fato de não dançar este ano não é motivo de se afastar do grupo ou de deixar de participar das oficinas. “Os donos da quadrilha têm responsabilidade com a gente e eles nos cobram responsabilidade e compromisso”, desfechou.
O coordenador destaca que o casal não foi excluído do grupo, apenas não podem dançar porque o mês de junho é intenso e fazem muitas apresentações, logo o casal não pode deixar o filho novo. “Além disso, quem não está estudando não pode dançar”, frisou.Próximo ao casal também estavam duas ex-dançarinas da quadrilha que ficaram de fora este ano porque repetiram na escola, mesmo assim estão motivadas a participar das oficinas, que acontecem três vezes por semana. Entre as atividades está a realização de pré-eventos como a “São João Fest”, uma micareta realizada na sede da quadrilha a um mês da quadra junina. Com o rendimento da festa, eles compram os acessórios para confeccionar as roupas.
“A minha esposa e eu costuramos as roupas, mas cada dançarino é responsável por ornamentar. As meninas bordam e os rapazes enfeitam o chapéu. Assim, quando olham o produto final, que é a roupa pronta, dizem orgulhosos que foram eles que fizeram – e foram mesmo”, informa Chico ao comentar sobre as oficinas que são realizadas.
Um trabalho árduo que une todos os envolvidos
A preparação para a quadrilha, todo ano, começa após o carnaval. É quando os coordenadores se reúnem para definir o tema da quadrilha e começam os preparativos e ensaios. “Nós também participamos de escolas de samba, daí convidamos os jovens que participaram do carnaval para participar da quadrilha, assim eles se mantêm ocupados por mais tempo ao longo do ano”, disse Chico.
De acordo com o coordenador da quadrilha, nenhuma taxa é cobrada dos dançarinos tanto na hora da inscrição quanto para a confecção de roupas. “A gente busca desenvolver atividades para arrecadar fundos, pois nem todos têm condições financeiras. Isto permite que eles acabem dando mais valor ao trabalho e se tornem empreendedores”, destaca Chico.
Ele explicou que a quadra junina, para eles, começa já com o grupo endividado. “Este ano, a nossa dívida começou em R$ 3 mil com a compra do que iriamos precisar para começar a montar as roupas”, esclareceu. Chico reforça que eles não recebem ajuda de custo nem do governo e nem da prefeitura.De uma forma geral, o que se percebe entre os membros da quadrilha é que eles formam uma grande família e este laço é, também, uma característica das festas juninas – que em seu aspecto religioso homenageiam os santos tidos como casamenteiros.
(Diário do Pará)
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