Revelar os bastidores de um período do Estado marcado pelo silêncio, pela violência e por histórias que ainda estão por ser reveladas. Esta é a proposta de um grupo de estudantes da Universidade Federal do Pará (UFPA). Eles requerem a instalação de uma Comissão Estadual da Verdade, como a criada em São Paulo, a fim de realizar trabalhos paralelos ao desenvolvido pela Comissão Nacional da Verdade.
O objetivo é contextualizar, com depoimentos e relatórios, como o Pará enfrentou os anos de suspensão da democracia vividos durante a ditadura militar. Como parte da proposta, está sendo realizado no Instituto de Ciências Jurídicas (ICJ) o seminário “César Leite: Por Verdade, Justiça e Memória”.
O evento lembra a morte de César Moraes Leite, estudante de 19 anos que morreu em março de 1980.
O aluno do curso de química faleceu em sala de aula quando a arma de um agente da repressão infiltrado disparou acidentalmente. Breno Cavalcante, 20 anos, membro da comissão organizadora, diz que o objetivo dos alunos é discutir, resgatar e garantir a preservação da memória de um período político importante para o Estado. “O que a gente estuda sobre ditadura fica restrito às aulas do Ensino Médio e pouco se fala de como o Pará viveu esse período”, comenta Breno.
Além da Comissão da Verdade, os alunos encaminham ao pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFPA, professor Emmanuel Tourinho, proposta de criar uma espécie de memorial-museu na sala 2 do Pavilhão F, onde César Leite foi morto. “O museu teria recortes de jornais, notícias e registros da época. Seria um espaço multimídia para visitação e realização de eventos relacionados ao tema”, explica Breno. A reinauguração de uma placa em homenagem ao estudante morto também integra as solicitações.
O professor Francisco Freitas, diretor da Faculdade de Direito, disse estar orgulhoso da ação dos alunos, que também mobilizou estudantes dos cursos de física e farmácia. “Como conselheiro da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), eu apoio totalmente a instalação da Comissão Estadual da Verdade. Esse é um projeto muito relevante, e contribuirá para resgatar histórias de um período conturbado que precisam ser reveladas”, explica.
O seminário, que começou ontem pela manhã, termina hoje e conta com o relato de participantes como Paulo Fonteles Filho, integrante do Grupo de Trabalho Tocantins. “No educandário de Coutijuba, por exemplo, houve uma série de torturas a presos políticos. Fora ele, tem outros espaços na cidade, como o antigo presídio São José Liberto, onde os agentes da repressão ligados ao governo militar também atuavam”, lembra.
Para Fonteles, que se dedica a resgatar a história da Guerrilha do Araguaia, os chamados “anos de chumbo”, três décadas depois, ainda cobram seu preço. “A violência no campo, a impunidade, o trabalho escravo, a perseguição política... tudo isso são consequências reais de um Estado que sofreu com a ditadura militar e ainda guarda hoje muitos resquícios do que ela foi”, comenta.
(Diário do Pará)
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