“O que está acontecendo com o Brasil?”. Essa é a pergunta que tem dominado todas as rodas de conversa nas ruas, nos bares, nas redes sociais. Jovens até então acusados de apatia e comodismo tomaram as ruas das principais cidades brasileiras, em uma série de protestos que ainda carece de explicação e tem gerado análises de estudiosos de todas as áreas.
O estopim do movimento foi dado em São Paulo, a maior cidade do País no último dia 13. Milhares de pessoas ocuparam as ruas em protesto contra o aumento de vinte centavos na passagem de ônibus. Opiniões apressadas taxaram o manifestantes de baderneiros e vândalos. A polícia paulista reprimiu os manifestantes com violência e a grande imprensa fez críticas severas aos participantes dos protestos. O sentimento de injustiça se espalhou pelo País, principalmente pelas redes sociais. Rapidamente, outra manifestações de apoio aos paulistanos começaram a ser organizadas em várias capitais, Belém entre elas. Muitos começaram a perceber que como em São Paulo também nas outras cidades havia muito o que reivindicar.
“Já havia um grupo iniciando a movimentação. Pediram ajuda jurídica e a gente foi para uma reunião aberta no domingo. Na segunda pela manhã reunimos com a PM para definir como seria a manifestação e à tarde fomos para a rua”, conta o advogado Fernando Gurjão Sampaio que acabou se tornando um dos principais organizadores da marcha em Belém. Segundo dados da PM, a caminhada que durou três horas e ocupou a avenida Almirante Barroso de São Brás ao Entroncamento, reuniu entre 13 mil e 15 mil pessoas. Foi a maior manifestação nas ruas da cidade desde as passeatas pelo impeachment do então presidente Fernando Collor em 1992.
E o movimento vai continuar. Já há eventos marcados para o próximo dia 20, quando os jovens devem ocupar a Praça da República. Na semana que vem nova marcha poderá acontecer. Mas afinal, qual a razão dos protestos? “É por tudo”, resume Sampaio. “É injusto querer limitar a causa, especificar um tema”, completa. Nos cartazes, que podiam ser lidos ao longo da caminhada em Belém, lia-se frases pedindo melhorias para saúde, a educação. Em São Paulo um bordão resumiu bem a marcha: “Não é por 0,20. É por direitos”.
O cientista Político Roberto Corrêa compara os acontecimentos da última semana no Brasil aos que varreram o mundo em 1968. Em plena guerra fria (no Brasil vivíamos uma ditadura), jovens de todo o mundo iniciaram uma onda de protestos. Sem líderes, sem pauta definida, o principal mote de 1968 foi “é proibido proibir”. Como ocorre agora, também havia uma insatisfação com as autoridades constituídas e com a política partidária. Na segunda-feira em Belém, por exemplo, um grupo que levava bandeiras do PSTU foi vaiado e acabou ficando fora da marcha.
“Percebe-se que é um momento semelhante (a 1968). A juventude está buscando uma nova ordem”, diz Corrêa. O que chama a atenção e parece preocupar as autoridades é a aparente falta de comando dos protestos. É difícil encontrar uma pessoa ou entidade que assuma liderar as manifestações. “As lideranças vão surgindo no processo”, diz Roberto.
Rede sociais impulsionaram movimento
“O movimento é a rede. Nas ruas, com várias propostas, eixos temáticos. O estopim foi um, mas a rede se propagou rapidamente com vários temas. E essa propagação atordoou todo mundo. Por isso, vimos tantos repórteres e autoridades em busca de líderes, fontes oficiais do movimento. Com esse comportamento eu repito a sugestão que já li, substituir o ‘o povo unido jamais será vencido’ para ‘as pessoas conectadas e interagindo não podem ser mais comandadas e controladas”, diz a professora de Comunicação Social da Unama e Estácio FAP, Ivana Oliveira, que vem acompanhando o fenômeno de perto.
A grande novidade do fenômeno é mesmo o uso das redes sociais como instrumento de mobilização. Facebook e Twitter foram os mais usados. No Facebook, foi criado um grupo Belém Livre que até o final da tarde de ontem já tinha 18.459 integrantes. É lá que os jovens trocam informações, protestam, ajustam a agenda. Embora tenha objetivos gerais, como melhorar o País, acabar com a corrupção e aumentar a oferta de serviços públicos, a marcha em Belém teve como mote inicial as obras do Bus Rapid Transit (BRT), que há quase dois anos infernizam a vida dos belenenses e se arrastam sem qualquer esperança de conclusão no curto prazo.
“Não acredito que a manifestação original - pelo preço das passagens - tenha sido pensada para isso, para mobilizar todo o País, em sua base. O que ocorre é que o mundo hoje está sob uma tensão enorme, na iminência de disputas entre as velhas e as novas potências mundiais e você percebe essa necessidade de posicionamento, de rebeldia da sociedade”, diz a pesquisadora Kalynka Cruz, que faz doutorado em Sociologia em Sorbone, Paris, e estuda o impacto do uso das redes sobre os jovens.
“Com o passar dos anos o que vem ocorrendo é justamente uma espécie de reeducação da sociedade diante das questões sociopolíticas. Era muito fácil se isolar na sua bolha de conforto e ligar a TV para assistir aos pronunciamentos oficiais. Hoje estas questões são evidenciadas e se impõem ao cotidiano, mesmo que você não queira e tenha preguiça de ser um ‘ser político’ você acaba sendo. Falando especificamente sobre estes últimos acontecimentos, acredito que houve uma ação de mimetismo em relação ao que ocorreu na Turquia. Isso não quer dizer que é um movimento vazio que copiou outro, não, ao contrário. O mimetismo se relaciona diretamente ao comportamento dos grupos diante da opressão, da insatisfação que sentem”, completa Kalynka, citando as recentes manifestações que ocorrem na Turquia, onde jovens também tomam as ruas protestando contra o governo.
São muitas as dúvidas e questões em torno dos fenômenos dos últimos dias no Brasil. Muita gente ainda se pergunta: e a partir de agora, o que vai acontecer? O País vai mudar? O tempo dirá, mas uma coisa já se sabe, o 17 de junho de 2013 já entrou para a história.
(Diário do Pará)
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