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Santa Casa pede misericórdia

Na saída da sala de cirurgia, Juley Souza Castro recebeu a notícia de que teria que aguardar. Passados os nove meses da gravidez e a rápida apresentação ao filho após a cesariana, a mãe de primeira viagem foi surpreendida pela notícia de que teria que se

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Na saída da sala de cirurgia, Juley Souza Castro recebeu a notícia de que teria que aguardar. Passados os nove meses da gravidez e a rápida apresentação ao filho após a cesariana, a mãe de primeira viagem foi surpreendida pela notícia de que teria que se acomodar em um dos corredores da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará até que desocupasse um leito na enfermaria. Sob o incômodo causado pelo procedimento cirúrgico ainda muito recente e isolada de conhecidos, Juley não consegue definir o que doía mais, o corte da cirurgia ou a distância do pequeno Luciano. “Fiquei sentada na cadeira no meio do corredor porque não tinha leito. Eu estava me vendo de dor e tive que ficar lá até o dia depois que o meu filho nasceu”.

Nascido no dia 11 de junho deste ano, o pequeno Luciano veio ao mundo em meio ao período complicado. Foram 25 até o dia 12 de junho e mais sete desde então. Mesmo que nenhuma relação possa ser feita entre as mortes e a situação vivenciada por Juley durante os sete dias de internação na Fundação, ela e a mãe não tiram da memória as situações observadas na maternidade que é referência em todo o Estado. “Falta muita estrutura, ela [Juley] ficou jogada lá no corredor chorando desesperada. Ela teve bebê 21h do dia 11 de junho e só conseguiu ir pra um leito lá pelas 16h do outro dia. Tinham mais nove moças pra fazer cesária que estavam jogadas tudo numas macas no corredor”, indigna-se a diarista Shirley Silveira Souza, já ao lado da filha e com o neto nos braços. “No dia que saímos daqui não tinha água. Saímos sem tomar banho, os banheiros são todos sujos. Eu esperava um atendimento muito melhor”.

Sem que a indignação pela ausência de estrutura seja exclusividade de quem já precisou dos serviços da maternidade que completou 363 anos em fevereiro deste ano, não são poucas as denúncias recebidas também pelo Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa). Durante assembleia realizada ainda em abril deste ano, os depoimentos dão conta de problemas como a alta demanda, material insuficiente para realização de procedimentos, ambiente físico insalubre e o número insuficiente de plantonistas para atender à grande demanda de ocupação.

“Cansamos de alertar o Estado”

Pediatra neonatologista da Santa Casa, a integrante da diretoria de defesa profissional do Sindmepa, Vilma Hutim, destaca a demanda excessiva como o grande problema enfrentado, hoje, na maternidade. “Nós cansamos de alertar o Estado. A superlotação vem acontecendo lá desde o início do ano e camuflaram, mascararam”, enumera. “As causas das mortes vão ser esclarecidas, mas com relação ao processo e às consequências, tem que haver uma reflexão em cima da atenção básica. Se não há mais leito, tem que se contratar leitos privados, o que não pode é continuar com essa demanda sem controle”.

A estudante Mariane Ribeiro, de 18 anos, percebeu falhas ainda em dezembro do ano passado, quando esteve internada em decorrência do nascimento da filha Vitória. “Tive que esperar quatro horas por um leito, depois que ela [filha] nasceu. Mas o pior era o mau cheiro dos banheiros, cheios de limo, com as torneiras quebradas”, lembra, ao voltar à maternidade para consultar a primogênita. “Ficava um monte de roupa jogada no chão. As pessoas operadas tiravam e jogavam por lá. É tudo complicado aí dentro”.

MINISTÉRIO DA SAÚDE

O diretor do Departamento de Ações Pragmáticas Estratégicas do Ministério da Saúde, Dário Pasche, esteve em Belém acompanhando a situação na Santa Casa. Ontem, depois de visitar ao hospital no dia anterior, ele passou o dia reunido com gestores e cogestores das secretarias de Saúde Pública do Estado e dos municípios.

Pasche descartou um surto de infecção hospitalar. Segundo ele, apenas cinco óbitos tiveram como causa mortis infecção hospitalar “causada por bactérias diferentes e comuns na maioria dos hospitais do Brasil do porte da Santa Casa”.

Várias ações serão apresentadas na próxima semana ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante reunião que deverá ser agendada com o secretário de Saúde do Estado, Hélio Franco.

O diretor do Sindicato dos Médicos do Pará, Wilson Marchado, informou que desde o anúncio das 25 mortes de bebês, mais seis já tinham morrido até anteontem, totalizando 31, um a menos do que a contagem oficial do governo. “A omissão do Ministério da Saúde e da Sespa não pode ser aceita, as crises se repetem periodicamente, eles deveriam impedir esse crime”, afirmou.

Em 2008, surto. Em 2013, surto e incêndio na UTI

Sem que a morte de tantos bebês em tão pouco tempo e a especulação sobre a possibilidade de infecção tenha sido o primeiro problema envolvendo a maternidade em 2013, a Santa Casa ainda enfrentou, em março deste ano, um princípio de incêndio na central de ar da UTI (Unidade de Tratamento Itensivo) da área de neonatologia. Com 20 bebês internados na ala no momento do incêndio iniciado a partir de um curto circuito, cinco funcionários precisaram de atendimento por inalar fumaça enquanto resgatavam os bebês.

Há cinco anos, em junho de 2008, situação muito similar à atual foi vivenciada pela maternidade quando 20 bebês teriam morrido em apenas uma semana. Na ocasião, o então presidente da Fundação, Antônio Ancelmo Bentes de Oliveira, deixou o cargo junto com toda a diretoria do hospital.

(Diário do Pará)

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