Às 14h, a massa de manifestantes que marcharia até a frente da Prefeitura Municipal de Belém, ia crescendo. Concentrados em frente do Centro Arquitetônico de Nazaré (CAN), ao lado da imagem da padroeira dos paraenses, grupos de diferentes origens, cores e credos começavam a formar um corpo único que, dissonava em alguns momentos, mas que conseguia manter-se unido sob gritos de “Sem vi-o-lên-cia!”.
Foi assim da avenida Nazaré até a sede do poder municipal. Uma pequena confusão na largada da marcha ligada a ação de um homem que aproveitava a aglomeração de muitas pessoas para efetuar furtos e a apreensão de algumas latinhas de spray utilizados para pichações foi o de que mais grave se viu durante todo o percurso que no ponto de chegada teve as cores mudadas. Com a praça Dom Pedro I como testemunha, manifestantes de alas mais radicais tomaram a frente do movimento e o que se viu foi um confronto pesado entre juventude e polícia, já no início da noite.
A aparição do prefeito Zenaldo Coutinho - e sua posterior saída da prefeitura, pelos fundos – foi o estopim da confusão. Parte da massa já inflamada não aprovou a aproximação do gestor, que chegou a sair do palácio Antônio Lemos dirigindo-se à multidão com um sorriso no rosto. “O-por-tu-nis-ta! O-por-tu-nis-ta!”, repetia, aos gritos, grande parte dos integrantes de diferentes movimentos.
Estava criado o cenário da agitação. As provocações que começaram com garrafas de plástico sendo atiradas, evoluíram para frutas, pedaços de pau e rapidamente chegaram a pedras. Inúmeras. Uma delas, atingiu em cheio o rosto de um guarda municipal que sangrou muito e socorrido por amigos da guarnição precisou de atendimento médico. Também houve feridos do outro lado.
No meio da confusão, a universitária Sandra Batista, 26, acabou ferida na perna esquerda. “Começaram a apertar, empurrar e só senti a pedra na canela. Quero encontrar meus amigos”, repetia a moça abrigada por detrás de uma das colunas do prédio sede. “A gente não quer isso. Fomos pacíficos até onde foi possível, mas de repente a manifestação tomou outro rumo. Não vamos conseguir resolver nada assim”, tentava apaziguar, Lucas Borges.
DESENTENDIMENTO
Com a Guarda recuada dentro do prédio da prefeitura o clima esquentou. Manifestantes do lado de fora cobravam um conversa com o prefeito que já tinha saído do prédio após ter recebido uma cópia das reivindicações do movimento entregues por uma comissão. A notícia da ausência do prefeito irritou ainda mais os manifestantes e o entendimento ficou difícil.
“O prefeito se prontificou a conversar, mas eles [manifestantes] não têm líder. No momento em que a integridade do prefeito foi ameaçada ele foi retirado do prédio. Tentamos manter a ordem como foi possível. Em nenhum movimento de todo o país se viu a polícia permitir que cartazes fossem afixados na sede da prefeitura. Nós permitimos. Ainda assim, eles perderam o controle, estamos evitando o confronto”, garantiu o comandante a Guarda Municipal de Belém, Carlos Machado, que exigia uma ação mais enérgica dos líderes para contenção dos manifestantes mais radicais. Não adiantou.
Por volta das 19h30, com centenas de pessoas forçando as portas de entrada do Palácio, a Guarda reagiu e spray de pimenta foi utilizado para dispersar os manifestantes que não cederam. Bombas, rojões e pedras voltaram a ser lançados. Houve correria.
No momento mais tenso da manifestação, policiais da Tropa de Choque marcharam contra a juventude que ainda oferecia reação. Com escudos de proteção, eles dispararam armas com balas de borracha e a violência se generalizou. Vários jovens ficaram feridos, outros foram detidos e após dez minutos de confronto direto, a massa foi sendo controlada sentando-se sobre o asfalto como forma de demonstrar não à violência.
Pedras, gritos e invasão
Após percorrer as avenidas Nazaré, Presidente Vargas e Boulevard Castilhos França, a chegada até a sede da Prefeitura Municipal de Belém, no Palácio Antônio Lemos, já transpirava ares de surpresas. Comentários já se ouviam entre alguns poucos manifestantes que algumas mochilas continham pedras.
Por volta das 18h, a maioria dos participantes da passeata já estavam concentrados em frente à sede do Poder Público da capital. O Palácio, que também é museu, foi cercado pelo Grupamento de Ações Táticas (GAT) da Guarda Municipal. A ordem era manter a calma, o movimento é pacifico e levava uma pauta de reivindicações para ser entregue ao prefeito Zenaldo Coutinho.
Os gritos de cobrança e alguns até de xingamentos ao prefeito se intensificaram. Os gritos foram se tornando mais fortes. A pressão da população cresceu. Empurrões e uma pedra. Da onde ela veio, surgiram mais. E mais objetos: coco, garrafas e o que tivesse à mão foi jogado. Os gritos de “Sem violência! Sem violência!” começaram, quase um hino das atuais manifestações brasileiras.
Daí em diante foi questão de tempo. A cerca da entrada já havia sido ignorada e o GAT continha os manifestantes bem à porta do Palácio, a um passo de entrar.
Tensão durou até o meio da noite
Bombas de gás lacrimogênio foram disparadas pelo Grupamento. Assim ganharam algum espaço, mas o alvoroço continuou. Por volta das 19h30 muitas bombas foram disparadas. Haviam manifestantes passando mal, caídos no chão. “A gente que tava fora só estava tentando falar com os manifestantes da organização que tavam na prefeitura, ninguém tava jogando nada, aí a polícia jogou o gás”, relata a estudante Luana Souza enquanto socorria uma amiga que havia perdido os sentidos.
A movimentação em frente ao Palácio continuou até cerca de 21h30, quando a chuva começou a dispersar os últimos resistentes que se mantiveram no local. As equipes de policiamento militar e municipal também foram aos poucos deixando o local, já no final da noite.
No final, 24 pessoas foram detidas
Vinte e quatro pessoas foram detidas e 15 adolescentes apreendidos e encaminhados à Divisão de Investigações e Operações Especias, da Polícia Civil (Dioe), após os incidentes registrados, na noite de ontem, no centro de Belém. Todos eram suspeitos de envolvimento nos tumultos que envolveram milhares de pessoas.
Ao final, todos foram liberados, após um acordo feito por representantes da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB-Pará, a Defensoria Pública e a Polícia.
Os suspeitos e os adolescentes foram levados à Dioe em um ônibus. “Sobre todos eles pesavam acusações de lesão corporal e desordem”, informou o major PM Marcelo Leão.
Segundo o defensor público Johny Giffoni, não seria feito Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) contra os suspeitos “porque não foi especificada a materialidade de nenhum delito”.
(Diário do Pará)
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