Às 16h30 da última segunda-feira, o cobrador da linha Tenoné olhava a chegada dos grupos de jovens, estudantes na maioria, que começam a se organizar em São Brás. Ele vaticinou: ‘estão chegando os bagunceiros’. Na manhã do dia seguinte, a estudante de Jornalismo Vanessa Lago diria ter ficado orgulhosa de ser paraense por não ter havido ‘vandalismo’ nas manifestações. Entre esses dois momentos, a discussão sobre o entendimento e a legitimidade dos movimentos.
O tom da cobertura da chamada grande imprensa no sudeste do País reverberava a ideia de vandalismo e inconsequência nas manifestações. Na internet, o discurso oposto também demonstrava certa ingenuidade, com jovens dizendo que ali a informação era livre. Não é. As manipulações de informação podem – e são feitas- em qualquer plataforma. Ao longo da semana, o tom da cobertura amenizou, embora não tenha mudado totalmente.
No centro da questão, os manifestantes, os jovens estudantes. Considerações mais romantizadas lembravam momentos históricos de participação jovem no Brasil e no mundo. Outras, mais pessimistas, avaliaram como carnavalização pontual a ida às ruas de milhares de pessoas. Entre 10 mil a 20 mil, dependendo do olhar de quem analisa, estiveram na avenida Almirante Barroso na segunda-feira.
“Eu acredito que a passeata vai ter uma amplitude maior, porque foi um movimento nacional, mas não vejo muita afinidade com as passeatas dos anos 70 e 80, porque a minha geração não tem identificação alguma com a política partidária tradicional atual”, diz o estudante de Ciências Sociais Anderson Salgado, 25 anos.
A passeata foi um grito de ‘não aguento mais’, avalia o estudante. E embora a multidão tenha reunido jovens ligados a movimentos sociais e grupos políticos partidários, os múltiplos interesses e visões de mundo deram a tônica na manifestação.
“Ninguém abre a janela e diz ‘que dia lindo para fazer uma passeata’. Ela é resultado de um acúmulo de insatisfações morais e decepções que a sociedade vem passando”, diz o cientista político Roberto Corrêa.
Mas isso não quer dizer uma juventude mais ou menos politizada. Pelo menos não em relação à política partidária e a uma busca por uma sociedade diferente de forma mais aguda. O que ocorreu, segundo Corrêa, foi a mobilização suprapartidária, um grito por algo difuso, ainda desfocado, mas carregado de simbolismos.
Nataliane Galdino, 19 anos, nunca participara de passeata alguma. A estudante de Publicidade não avisou aos pais que iria. Não se arrependeu. “Eu fui justamente por esse espírito nacionalista que tá surgindo”, diz ela.
Há uma sensação clara para Nataliane que pela primeira vez a geração dela está participando da história. “Acho que os vinte centavos foram só a ponta de um iceberg, de uma situação que ninguém mais aguentava. Eu sinto que a gente está fazendo algo que nunca fez antes. Estamos nos mexendo”.
Desde que começou a votar, Nataliane optou pelo voto nulo. Característica de grande parte dos jovens que ganharam as ruas de Belém durante a semana.
Luã Newbery, 20 anos, também debutou em passeatas. Como Nataliane, também evitou contar em casa. “Minha mãe barraria”, diz. E como Nataliane, vota nulo. “Eu fui porque bateu como uma novidade, me deu a empolgação de querer fazer parte disso”.
Querer fazer parte. Essa talvez seja uma palavra fundamental para entender o movimento dos últimos dias. Parte dessa geração sempre se sentiu em dívida com as gerações passadas. Sempre acusada de alienada, de passar mais tempo nas redes sociais que nas ruas vivendo a vida de forma mais dinâmica, percebeu que pode – e deve ser protagonista.
“A gente saiu da frente do computador”, diz Rafaela Rabelo 19 anos. Com uma camiseta estampando a banda Led Zeppelin, uniforme constante no vestuário, Rafaela acredita que os movimentos, no plural, precisam amadurecer. “Falta um foco”, diz ela. “Em Belém foi o BRT, mas acho que muita gente nem sabia porque estava lá, mas eu prefiro acreditar que não é uma modinha”.
Rafaela votou a primeira vez. Não votou nulo, mas diz ter se arrependido do voto. Quando começaram as primeiras postagens conclamando pela manifestação, engajou-se logo. No domingo participou da reunião que antecedeu a passeata.
Esse engajamento foi a tônica da semana de Uliana Motta. “De minha parte, não só estou nas ruas registrando ou observando. Estou vivendo ativamente os fatos em questão”, diz ela, enquanto se preparava para a reunião que definiria as pautas da segunda passeata.
“Eu não participei no primeiro manifesto nas ruas, mas as minhas redes sociais ficaram todas repletas de minha opinião sobre o assunto. Fiz alguns textos e postei para de alguma maneira participar”, disse a estudante de Jornalismo Luana Pureza, logo depois da primeira passeata. Da segunda ela fez questão de participar, convocando vários amigos para acompanhá-la também.
Nataliane, Rafaela e Luâ também não compartilham da ideia de ‘vandalismo’, termo muito usado pela imprensa tradicional a respeito dos atos em São Paulo. Em artigo para o site Observatório da Imprensa, o jornalista Sylvio Micelli discute essa questão. “Muitos dos críticos aos manifestantes desses dias, inclusive na mídia, são os mesmos que não acreditam na eficácia das petições online, mas que assinam talvez, para aplacar a dor involuntária de suas consciências. Por sinal, a internet é um importantíssimo veículo para divulgar, esclarecer e formar opinião. Mas, sinceramente, assinar uma petiçãozinha online, ainda que seja uma forma colaborativa para discutir temas relevantes, de nada resolve”, diz ele.
“Só para relembrar nossa memória fraca, há pouco mais de quatro meses, quando Renan Calheiros foi eleito presidente do Senado Federal, o Brasil “se mobilizou”. Coletou cerca de dois milhões de assinaturas, imprimiu-as todas para fazer volume no Congresso Nacional. Até Renan disse que também assinaria e o que aconteceu mesmo? Nada! Renan foi inclusive presidente do país por um dia no mês passado para dar um upgrade em seu “vastíssimo” currículo. Se desses dois milhões de pessoas, 10% tivessem cercado o Senado Federal...”, argumenta o jornalista. O fato, segundo ele, é que não há vitória, sem luta. E não há luta sem enfrentamento. “Mestre Bertold Brecht, por exemplo, já ensinou que ‘do rio que tudo arrasta se diz violento, mas não se dizem violentas as margens que o comprimem’, encerra.
Dilemas como esse foram e serão enfrentados por estudantes como Rafaela, Nataliane e Luâ. Se o percurso das manifestações se mantiverem, qual o caminho a ser adotado?
(Diário do Pará)
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