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Pará sofre o déficit de sete mil leitos

A notícia não é inédita, mas choca. O desconsolo de uma mãe que suplica o que lhe é um direito fundamental sensibiliza. Mas não resolve. Após sete dias de espera por um leito de UTI pediátrica, o pequeno M.C.D morreu sem a garantia do cuidado hospitalar n

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A notícia não é inédita, mas choca. O desconsolo de uma mãe que suplica o que lhe é um direito fundamental sensibiliza. Mas não resolve. Após sete dias de espera por um leito de UTI pediátrica, o pequeno M.C.D morreu sem a garantia do cuidado hospitalar necessário. Foi o caso [limite] mais recente de um problema antigo. A saúde pública míngua à falta de leitos.

“O meu filho morreu porque não tinha UTI. Ele morreu no meu braço e eu não pude mais fazer nada porque o que eu pude falar, eu falei. O que eu pude pedir, eu pedi. O que eu pude implorar, eu implorei. Ninguém resolveu e eu perdi o meu filho”, diz inconsolável a dona de casa Marília Pantoja, mãe da criança morta que na quarta feira, dia antes do óbito, fez um apelo emocionado na mídia. “Eu queria salvar meu filho, mas não consegui”, diz a mulher que também procurou ajuda no Ministério Público do Estado. Já tarde. Às 10h30 da quinta feira, 20, com insuficiência respiratória, Marília viu seu primeiro filho fechar os olhos e não abrir mais.

“A dor é pra nenhuma mãe ter. Eu quero mesmo que ninguém passe por isso. Porque não é fácil perder uma pessoa querida por falta de um lugar pra ficar”, revela a mãe. Dados oficiais dão conta de um déficit em torno de sete mil leitos. Atualmente, o Estado dispõe de 15.565 leitos hospitalares, sendo 11.129 deles exclusivo para atendimento do Sistema único de Saúde (SUS). Para situações mais graves que demandam tratamento intensivo o número limita-se a 1.125 leitos, sendo apenas 757 do SUS. De acordo com a própria Secretaria Estadual de Saúde, o ideal seria que o conjunto chegasse a 22 mil leitos hospitalares. Estar-se longe disso.

Há seis dias na capital paraense com a esposa vítima de derrame pulmonar, o lavrador Adilael Sampaio Farias já percebeu que precisará de força, e sorte, para vencer a espera. Acompanhando o sofrimento de Marinalda Pinheiro Farias ele pouco pode fazer além de correr de porta em porta e passar as noites em claro. “Ela não pode deitar porque a dor aperta e ela não consegue respirar. Faz tempo que ninguém sabe o que é dormir. A gente tentou agilizar como pôde, mas daqui pra frente não tem o que fazer a não ser rezar e esperar”, reflete o marido.

VIA-CRÚCIS

Com as economias adquiridas, Marinalda fez consultas e exames na rede particular, com o diagnóstico nas mãos, recebeu a orientação de conseguir um cadastro na Central de Leitos. Teve início a peregrinação. “Ela tá mal, a gente evita ficar carregando porque é sofrido pra ela. Não é fácil, a gente vem pra capital pensando que vai encontrar uma situação melhor e fica frustrado. Dá desespero ver uma pessoa sua não conseguir o básico – comer e dormir – e você não poder fazer nada. Você vai se esgotando. A cabeça, o financeiro, vai tudo acabando”, desabafa o lavrador que demorou quatro dias para conseguir cadastrar a esposa adoentada na Central de Leitos. “Agora é esperar”.

Com o irmão no Pronto Socorro Mário Pinotti, na travessa 14 de Março, uma dona de casa que preferiu não se identificar também se angustia. Horacildo Gomes Batista, 57, sofreu um Acidente Vascular Cerebral na terça feira, foi atendido na Unidade de Pronto Atendimento do bairro em que mora, transferido para o Hospital das Clínicas Gaspar Viana e, por fim, para o Pronto-Socorro. “Ele está inconsciente. Não fala, não come, não conhece ninguém e tá no corredor. Não tem leito e a gente fica nessa de ter que esperar em Deus. Medo dá porque já perdemos um irmão aqui e parece que a história todo tempo vai se repetir. É horrível”.

PROMESSAS

Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde respondeu que para suprir a demanda reprimida de leitos, o governo do Estado anunciou a construção do novo Hospital Regional Abelardo Santos, com 250 leitos; um Hospital Regional em Itaituba, com 140 leitos; um Hospital Regional em Castanhal com 140 leitos além da locação e adaptação do Hospital Galileu com 120 leitos. O texto enviado ainda cita a reforma no Hospital Ophir Loyola, que deverá gerar uma ampliação de 70 para 106 leitos no primeiro trimestre de 2014.

“Em relação à Santa Casa, o novo prédio, a ser inaugurado em agosto, terá mais 110 leitos, que serão distribuídos para as áreas da pediatria, neonatologia e maternidade”, afirma. “Haverá também um aumento no número de leitos de UTI, que agora contará com 100 unidades disponíveis, sendo 60 para UTI neonatal, 20 para UTI pediátrica, 10 para UTI adulto e 20 para UTI materna”, completa a nota.

Sobre a regulação do acesso a leitos, a assessoria informou que ela é realizada diretamente pelas Secretarias Municipais de Saúde (SMS) com auxílio dos Centros Regionais de Saúde (CRS), vinculados à Sespa, e das centrais de leitos municipais de cidades polo para esse tipo de atendimento. “Quando um paciente do SUS recebe o encaminhamento da necessidade de cirurgia ou de UTI, a SMS ou o próprio serviço onde esta necessidade foi constatada procura pelo leito junto ao hospital que é referência para o atendimento, seja pela proximidade geográfica ou pela especialidade”, explica.

SESMA SILENCIA

A secretaria Municipal de Saúde (Sesma) foi procurada na quinta feira para explicar como se dá o processo de regulação de leitos na capital paraense, mas até o fechamento desta edição não respondeu aos questionamentos.

LEITOS NO PARÁ

15.565

Quantidade de leitos hospitalares

11.129

São leitos exclusivos para atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS)

1.125

Para situações mais graves que demandam tratamento intensivo limita-se a este número. Mas só 757 são do SUS.

22 mil

De acordo com a própria Secretaria Estadual de Saúde, o ideal seria que o conjunto chegasse a esse número de leitos hospitalares.

NA AGENDA

Uma reunião para discutir a regulação de leitos no Estado acontece nesta segunda-feira (24), a partir das 9h, no anexo III do Ministério Público. O Sindmepa é presença confirmada.

(Diário do Pará)

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