A diretoria do Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa) anunciou ontem, durante audiência realizada na Assembleia Legislativa (AL) sobre o caso dos 38 bebês mortos na Santa Casa só em junho, que médicos de três grandes hospitais públicos de Belém (Santa Casa, Abelardo Santos e Hospital das Clínicas) podem parar caso a Secretaria de Estado de Administração (Sead) leve em frente a intenção de cortar gratificações que podem chegar a mil reais.
Na ocasião, o secretário de estado de Saúde, Hélio Franco, confirmou que os cortes ocorrerão, enquanto que, posteriormente, em nota, a Sead informou que “não houve corte de plantões, apenas foi feita uma adequação à disponibilidade orçamentária e financeira do Estado, remanejando-se para o mês subsequente os valores que não puderam ser pagos no mês de junho”. Uma assembleia na sede do Conselho Regional de Medicina (CRM) hoje, às 19h, vai discutir a possibilidade de greve da categoria.
“O sindicato não tem nenhuma preocupação com a morte dos bebês, eles querem saber é de dinheiro. Estou falando do sindicato e não dos médicos”, retrucou Franco, após a reunião, quando questionado sobre a afirmação de que o Sindmepa teria enviado ofício em maio último sobre a precária situação na Santa Casa, solicitando audiência sobre o assunto - fato esse anunciado pelo próprio diretor do sindicato, João Gouveia, durante a reunião encabeçada pela Comissão de Educação, Cultura e Saúde da AL e com a presença de deputados, medicos e representantes do governo estadual.
“Foi patético, não há outro termo, o parecer do técnico do Ministério da Saúde que veio aqui para avaliar o caso. Só faltou dizer que os bebês haviam se suicidado”, debochou Gouveia.
“E não bastasse os problemas atuais, o governo anuncia que vai cortar em mil reais, no caso para os médicos. Para outros funcionários o corte deve ser menor, em gratificações para quem trabalha nos hospitais Abelardo Santos, das Clínicas, e da própria Santa Casa”, afirmou.
QUEBRA
Segundo Gouveia, isso representa uma quebra de acordo. “Passamos por algo semelhante seis meses atrás, mas a secretária Alice Viana (da Sead), reverteu o quadro. Se isso se confirmar, teremos greve com certeza. E a situação da Santa Casa também se agrava”, avisou.
Eunice Begot, diretora da Santa Casa, também presente à reunião, falou sobre os problemas que a atenção básica mal feita ou ausência dela geram para o atendimento de alta complexidade. “Não adianta dizer que não temos leito quando nos ligam pedindo transferências porque a ambulância bate na porta. Aí temos de pôr para dentro e tentar salvar. Morte faz parte da rotina hospitalar, claro que não nessa proporção, mas seria impróprio dizer que todos os óbitos foram causados por infecção”, afirmou.
Gestora anuncia entrega de parte da obra
A gestora anunciou que uma parte da nova Santa Casa será entregue já na próxima semana, com 40 leitos de UTI neonatal, e anunciou a inauguração oficial do prédio para agosto deste ano.
“Os prontuários estão para quem quiser ver: Organização Mundial de Saúde, Ministério Público, Ministério da Saúde, é só chegar e ver. Não houve negligência, imprudência ou falta de insumos na hora do atendimento. Mas há situações que são inviáveis, ainda mais se os bebês pesam menos de 400 gramas, ou tem anomalias congênitas ou são filhos de mães que se alimentam mal, ou que usam drogas ou que tentaram abortar”, explicou Hélio Franco, sobre as mortes dos bebês.
RELATÓRIO
A presidente da comissão, deputada Nilma Lima (PMDB) prometeu que a reunião de ontem irá gerar um relatório a ser entregue ao Ministério Público, governo do Estado e sindicatos da área da Saúde. “Sabemos que há inquérito, levantamento de óbitos. Queremos esses dados em mãos para podermos nos posicionar e saber o que o Estado fará em relação a isso e mesmo propor soluções”, declarou.
Bernadete Ten Caten, do PT, também membro da comissão, reforçou o compromisso de dar sequência ao encontro.
“A Rede Cegonha, programa que assiste a grávida e o bebê até dois anos de idade, foi criado pelo governo federal para a região Norte há dois anos e provavelmente não está presente nem em 5% dos municípios do Estado. Belém tem 400 anos e não possui um hospital municipal materno-infantil”, enumerou a deputada.
(Diário do Pará)
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