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Na paz, ‘indignados’ mandam recado

Não foi cronometrado, mas poderia. Bastou o árbitro apitar o fim da partida entre Brasil e Uruguai para os manifestantes tomarem as ruas, pouco depois das 18h. Uma hora e trinta minutos depois, chegaram ao Palácio Antônio Lemos, sede do poder municipal. C

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Não foi cronometrado, mas poderia. Bastou o árbitro apitar o fim da partida entre Brasil e Uruguai para os manifestantes tomarem as ruas, pouco depois das 18h. Uma hora e trinta minutos depois, chegaram ao Palácio Antônio Lemos, sede do poder municipal. Com a experiência de três manifestações anteriores, duas delas com a ocorrência de cenas de violência ao final, muitos dos três mil manifestantes demonstravam apreensão.

Desde o início da marcha era possível identificar integrantes com máscaras para proteção contra possíveis bombas de efeito moral e spray de pimenta e rostos completamente encobertos por camisetas. Não foi necessário. Durante a maior parte da manifestação prevaleceu o tom pacífico, com registros isolados de pequenos tumultos, a maioria envolvendo o arremesso de bombas de São João.

Entoando o já tradicional grito de “Vem pra rua”, os manifestantes seguiram pela avenida Magalhães Barata. O comércio fechou mais cedo. Agências bancárias distribuídas ao longo do percurso reforçaram a segurança com homens e tapumes em frente às vidraças.

“Vândalo é Estado”, afixava sobre postes e muros um manifestante. “Classificam como violência a nossa indignação, o nosso protesto, mas violência de fato são as filas do hospital, é a fome nas ruas, a corrupção na política. Isso sim é uma atrocidade”, desabafava a universitária Caroline Bentes.

O protesto que tem como uma das principais pautas a redução da tarifa do transporte coletivo e o passe livre para estudantes e desempregados engloba outras causas que ao longo do percurso vão ficando mais evidentes.

Às proximidades da TV Liberal, na avenida Nazaré, um coro em uníssono despontava. “Ô Liberal, cara de pau. Vandalismo é a fila do hospital”, entoavam os manifestantes, que faziam questão de demonstrar a insatisfação popular com o grupo presidido pelo empresário Rômulo Maiorana.

PERFORMANCE

Contrariados com a cobertura dada pela afiliada da rede Globo no Pará, um grupo de manifestantes resolveu inovar. À frente da marcha, eles estacionaram em frente à sede e, em círculo, encenaram: um televisor, um político e sua mala de dinheiro e um grupo em manifestação. Estava montada a crítica inusitada.

O político negociava com a TV. Um aperto de mão, um acordo fechado e a entrega do dinheiro. Daí por diante, onde os manifestantes estavam, a TV não estava, uma referência à posição tomada pelo veículo que, segundo os manifestantes tem manipulado os últimos acontecimentos ligados aos protestos de rua.

Além da corrupção, alta dos preços, cura gay, passe livre, redução das tarifas do transporte público, saúde, educação, segurança, a ação policial também ganhou destaque nos manifestos. “Repressão policial, governo que faz”, dizia uma faixa.

Música embalou a caminhada

Na avenida Presidente Vargas, os manifestantes foram embalados pelo som que vinha da bicicleta de um homem que caminhava com a multidão. “Somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da nação...”. A imagem que se via era de pessoas caminhando num espírito animado, esperançoso. “Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer?”, dizia a letra da Legião Urbana. O senhor da bicicleta não se identificou, mas disse acreditar que as músicas combinavam com o momento. Perguntado sobre o motivo de estar ali, ele disse: “Eu não estudei, não sei te responder”. Aquele senhor não sabia, mas havia mostrado, através da música, o sentimento daquele povo que foi às ruas.

A manifestaçãochegou à Prefeitura Municipal de Belém por volta das 19h30. Os gritos continuaram, os cartazes se agitaram. Também foram projetadas nas paredes da prefeitura palavras de ordem. “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. “Sem violência”. “Mais amor, por favor”. Depois de um tempo onde o único som emitido eram as vozes e o helicóptero da polícia veio o primeiro estouro. As bombas do tipo que são usadas em festas juninas voltaram. Algumas foram arremessadas na direção da prefeitura mas, apesar dos sustos e correria, nenhuma reação. A situação foi se acalmando e aos poucos os manifestantes foram se dispersando.

Ação policial

Atrás, três viaturas e dois ônibus com policiais seguidos pela cavalaria. À frente manifestantes entregando flores a policiais. 550 homens da Polícia Militar reforçavam a segurança durante o trajeto da manifestação. “Não mudamos a estratégia, estamos aqui para manter a ordem e garantir a segurança dos manifestantes”, declarou o coronel Roberto Campos, responsável pelo comando da operação.

Na Presidente Vargas, aplausos recepcionavam os manifestantes que mantinham o ritmo acelerado da caminhada. A ideia era chegar à prefeitura a tempo de encontrar o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho. “O paraense cansou. Estamos calejados de tantas promessas. Estamos na rua e não vamos parar. Queremos resposta. Queremos ação. Já chega”, reclamou o professor Mário Lopes.

Prefeito não recebe e eles fecham as ruas

Ao fim da passeata, o impasse. Os manifestantes queriam ficar frente a frente com o prefeito. Zenaldo deixou claro que receberia uma comissão de 10 a 15 pessoas. Desse dilema, nada seguiu adiante. Zenaldo anunciou por meio da assessoria que irá discutir diretamente com a sociedade algumas questões colocadas em pauta nas manifestações. Chamou a isso de ‘reuniões públicas’, já que precisariam ser debatidas com mais gente, segundo a assessoria. Temas como saúde, educação e BRT podem entrar nessas reuniões públicas.

Foram pouco mais de duas horas de passeata. À frente da Prefeitura de Belém, ponto final, skatistas aguardavam fazendo manobras em frente aos policiais plantados à espera dos manifestantes. Chegada marcada por palavras de ordem contra a violência e por concentração em frente à sede do poder municipal.

Meia hora depois um carrancudo assessor de gabinete do prefeito se aproxima para receber a carta dos manifestantes, com a reivindicação do passe livre, da conclusão do projeto BRT e da denúncia contra a violência policial. O documento é repassado ao oficial coronel Alonso, que o leva até o prefeito Zenaldo Coutinho. O prefeito é chamado diversas vezes. Mas já se sabe que dessa vez não haverá encontro direto. “Algumas exigências não podem ser respondidas agora, pois precisam de um canal de negociação com alguma comissão e isso os manifestantes parecem não querer”, diz um assessor de comunicação.

Se não fala diretamente com os manifestantes, o prefeito tem mantido contato telefônico com lideranças. Elas existem e estão ligadas a partidos políticos, segundo detectou um serviço de inteligência da Prefeitura que até então não se sabia existir no palácio municipal.

Com o tempo passando e a indefinição crescendo, os ânimos ficaram próximos de se exaltar. Um fio tênue separou a manifestação e os gritos de ordem de um confronto explícito com a polícia. Rodrigo Ribeiro dos Santos foi um que tentou extrapolar esses limites. Atirou uma bomba, foi preso. Carregava uma sacola cheia de pequenos artefatos explosivos.

Outras cinco bombas foram jogadas em pontos diversos. Mais pessoas foram detidas. Mas, apesar de um corre-corre em direção às ruas do Comércio, não ocorreram maiores incidentes. Talvez simbolizando as disposições de ânimos que se apresentavam naquele momento, um homem entregou uma rosa a uma PM. Ela guardou a flor ao lado da pistola.

Outros oficiais argumentam com manifestantes. Alguns se dispõem a dialogar, enfatizam que os policiais também estão no mesmo barco. Outros preferem gritar palavras de ordem contra os soldados. É um jogo tenso, um duelo verbal que vai e volta nas ameaças, mas não se concretiza. Aos poucos a concentração vai se dispersando. Há cansaço e há disposição. Nos últimos dias, as manifestações no Brasil inteiro provocaram a queda da PEC da Impunidade, a redução de tarifas de ônibus em algumas capitais, a instituição do passe livre em outras, o fim das mordomias de 14º e 15º salários aos parlamentares. Não é uma voz rouca das ruas. É uma voz límpida que precisa ser ouvida. “Não vamos sair da rua, achamos nosso lugar”, diz, convicta, Betânia Cavalheiro, 19, enquanto batuca uma lata amassada. Na saída eles fecharam a travessa Padre Eutíquio, até a madrugada.

RUA FECHADA

Quando apenas uns 50 manifestante permaneciam em frente ao Palácio, a Polícia, andando por entre eles, dispersou o que sobrava. Ainda sim, os que sobraram caminharam até o cruzamento das vias João Diogo e 16 de novembro e lá ficaram.

Quando se pensava que o protesto havia acabado, eis que eles sentaram no meio da rua e voltaram a gritar palavras de ordem. Mandaram recados a Polícia, que afirmavam “está aqui para fazer a nossa segurança”. O trânsito complicou um pouco, os carros precisaram desviar. A Polícia estava por todos os lados, mas apesar de os ânimos parecerem exaltados dos dois lados, nenhum confronto. Foi questão de tempo a dispersão completa do cenário de protesto.

Protestos têm o grito dos jovens nas ruas

O gol de Fred no primeiro tempo do jogo entre Brasil e Uruguai provocou um momentâneo ato de trégua entre manifestantes e policiais militares. Ambos aglomeravam-se em frente a uma pequena televisão de um ambulante e comemoraram quase abraçados. “Policial também é gente, não é só ferro”, disse o soldado. Recebeu apenas o silêncio como resposta.

Desde cedo a polícia estava a postos na concentração de mais uma passeata- a quarta- desde que os protestos espalharam-se Brasil afora feito rastilho de pólvora de descontentamentos diversos. Cavalaria, Guarda Municipal, Rotam, PM, tropa de choque. Os possíveis contendores eram, a maioria, adolescentes.

Eles chegaram ruidosos e alegres. Camisetas de bandas de rock, calças apertadas, bandeiras do Brasil, do Pará e de partidos, máscaras de palhaço, máscara do V, da HQ V de Vingança, narizes de palhaço, rostos pintados. Cartazes eram confeccionados na hora e a criatividade expandia-se sem limites. De Belo Monte a Educação, do passe livre ao amor livre, havia um imenso guarda-chuva capaz de abrigar todas as utopias possíveis, todas as reivindicações, todas as matizes ideológicas contrárias ao que está exposto. “Eu quero ir além da máscara”, dizia Priscila Moreira, 16, abraçada à bandeira do Pará como um manto protetor. Denise Dias e Rafael Lemer, ambos com 17 anos, tentavam criar juntos uma frase bonita para uma cartolina. Acabaram reproduzindo um trecho de uma música da Legião Urbana.

Meia hora antes da saída da passeata, uma assembleia é convocada. Definirá o trajeto da caminhada e aprovará a carta a ser entregue ao prefeito Zenaldo Coutinho, denunciando a violência policial. Essa ainda não havia sido esquecida. Nas passeatas anteriores, atos de vandalismo policial se sobrepuseram a possíveis orquestrações baderneiras. Uma jornalista precisou apagar todas as fotos onde havia registrado espancamentos de pessoas. Às justificativas da polícia se contrapuseram dezenas de vídeos na internet, postadas por quem testemunhou as ações e reações. “País mudo não muda”, dizia um cartaz. E as vozes queriam se fazer ouvir. Às 17h a manifestação ganhou as ruas. Se movimentou como o Revolucionário Socialista vinha com a ideia de ‘Fora Todos!’, outras reivindicações soavam mais sensatas. Como a que alertava para o risco de privatização dos hospitais universitários do Pará, projeto que começa a ganhar corpo em Brasília.

Cabia de tudo na passeata. Dos cabelos prateados de Deise Vasconcelos, de 50 e poucos, como ela disfarça, aos cabelos azuis de Débora, ou Deby, como ela gosta. Mas é fato que são os jovens os protagonistas das ruas. “Quero mudanças, mentes pensantes”, desafiava o cartaz. E o recado bem humorado à Polícia. “Por favor, não nos machuquem, não temos hospital”.

Trilha sonora não era ouvida. Era lida. Legião Urbana e Ultraje a Rigor, ícones dos anos 80 se fizeram presentes. De colorido havia o amor. “Eu beijo homem, beijo mulher, tenho o direito de beijar quem eu quiser”, cantavam umas meninas. Outros portavam mensagens contra a ‘cura gay’. A liberdade sexual preconizada como bandeira de luta acaba por ser uma ponte com as gerações anteriores. Só que dessa vez, mais bem resolvida. “Mais sexo, menos corrupção”, defendia adolescente de sorriso largo. E este sexo não tem sexo definido. “A gente acha que não dá para ser assim tão preconceituoso”, diz Mauro Lindson, 17 anos.

Na Praça da República duas meninas posam ao lado de guardas municipais encabulados. Próximo a elas, o cartaz que talvez mais aponte os caminhos atuais. “Esse mundo de m...está grávido de outro”. É o que dizem as ruas, é o que mostra o povo brasileiro. Belém parece querer dizer que não está fora desse mundo. Quer mudanças. Ou como diz outro cartaz, ‘verás que um cabôco não pega o beco’. Nem que chovam cacetetes.

(Diário do Pará)

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