Passados os vinte minutos de espera pela chegada do transporte público, ainda é necessária mais uma hora no ônibus lotado até a chegada ao estágio. Moradora de uma das avenidas que mais têm crescido em Belém, a Augusto Montenegro, a estudante de direito Emanuelle Nery conhece bem as consequências causadas pela ineficiência de um sistema de transporte público desarticulado. Filha de pai professor e mãe comerciante, Emanuelle estagia pela manhã para arcar com metade da mensalidade da faculdade particular. À tarde está nas ruas de Belém levantando as pautas pelas quais reivindica há pelo menos dois anos.
Integrante do Diretório Central dos Estudantes da Universidade da Amazônia (DCE-Unama) e do coletivo de estudantes ‘Vamos à Luta’, a estudante integra a parcela dos manifestantes que não veem como novidade a ida às ruas e, infelizmente, também a repressão com bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha por parte da polícia. “Naquele protesto contra o aumento que acabou com a repressão da Guarda Municipal em frente à Prefeitura de Belém, em 2012, nós tínhamos combinado de fechar a rua, mas a guarda começou a jogar bomba e atirar com bala de borracha na gente”, lembra. “Não estávamos esperando. Levei três balas de borracha na perna”.
Como diferença do cenário observado ainda no ano passado, quando a quantidade de estudantes nas ruas era bem menor, para o que já conseguiu mobilizar cerca de 15 mil manifestantes, Emanuelle destaca uma realidade observada, inicialmente, fora do país. “Acredito que tenha influência da conjuntura internacional a partir dos indignados na Espanha, das mobilizações no Chile. Esse caldo veio fervilhando para o Brasil e a tarifa vem como um fator social que incentivou a juventude a saírem às ruas”, contextualiza. “É claramente a juventude que está nas ruas e a principal diferença é a pressão social que já tinha no Brasil, essa situação de caos social, transporte público ruim, trânsito saturado. A gente chega em casa e percebe que tudo encareceu”.
Tendo a rotina tomada por atividades ligadas às reivindicações por melhorias básicas, a estudante integra a grande quantidade de manifestantes que acreditam que é possível se ter resultados dos atos praticados nas ruas de forma mais intensa desde o início deste mês. “A gente vive uma crise generalizada e isso nos faz sentir que é cada vez mais necessário se organizar”, acredita. “A juventude que está nas ruas é a juventude da classe média que é a nova classe trabalhadora. É uma juventude que trabalha, sim, mas que tem uma situação precarizada”.
Diferente de Emanuelle, o estudante do terceiro ano do ensino médio em uma escola pública estadual, Roberto Alves Moura, de 17 anos, vivenciou a primeira experiência com reivindicações através de protestos e mobilizações no último dia 17 deste mês, quando aconteceu a primeira das manifestações que, em todo o Brasil, tem brigado, principalmente, pela redução da passagem de ônibus. Sem nunca ter participado de nenhum protesto, o estudante decidiu engrossar as caminhadas a partir do incentivo da própria mãe e de outros estudantes. “Eu via pela televisão os protestos nos outros Estados e minha mãe contava que já tinha participado na época dela. Antes eu via esses protestos, mas não tinha coragem de ir. Comecei a ir agora porque vi que é importante lutarmos pelos nossos direitos”, se convence. “Muita gente não tem condições de pagar R$2,20 todo dia pra pegar ônibus. A melhor coisa é irmos para as ruas. Com as mobilizações já conseguimos derrubar a PEC 37 (Projeto de Emenda Constitucional que pretendia limitar o poder de investigação criminal do Ministério Público) e podemos conseguir muito mais coisas”.
Filho único, a mãe de Roberto sustenta a família a partir do trabalho como cozinheira. “Minha mãe é assalariada e antes a gente conseguia fazer supermercado com R$100, agora com R$100 a gente não consegue comprar nada. Farinha, tomate, arroz, feijão, está tudo caro”, enumera.
De acordo com o cientista político Edir Veiga Siqueira, a ida dessa massa de jovens às ruas já provocou mudanças no cenário político do Brasil. “O que dá para perceber é que 80% do público que vão às manifestações são jovens de 16 a 24 anos, filhos da geração que derrubou o Collor (então presidente Fernando Collor de Mello) e que, agora, vêm atrás de direitos, de políticas públicas”, aponta, ao identificar sua percepção das mobilizações em Belém. “São filhos da classe média que estão sendo motivados a protestar por causa da paralisia dos transportes urbanos, pela baixa educação, pela falta de políticas públicas”.
Um quê de Primavera Árabe
Para Edir Veiga, as manifestações observadas hoje, diferente das que brigaram pelo impeachment de Collor, estão muito mais adequadas à realidade observada na chamada Primavera Árabe. “O Brasil já mudou. A agenda do Governo, hoje, é a agenda captada nas ruas”, acredita. “Esse é um movimento muito mais complexo e mais ligado à Primavera Árabe. Eles não têm líder, a mobilização acontece pelas redes sociais, cada um chega com a sua bandeira e não se consegue ter um comando único”.
Ainda segundo Edir Veiga, o processo observado hoje e que já promoveu mudanças deve se estender ainda por mais tempo. “Está aberto o período de mobilização em massa e em tempo real. Se não houver uma resposta imediata do Governo, não sabemos os resultados que essas mobilizações podem ter”, acredita. “Esse é um período que veio para ficar”.
(Diário do Pará)
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