Os irmãos Antônio Reginaldo Cardoso e Márcia Luzia Rodrigues, com uma caixa de fraldas para adultos e uma sacola com lençóis trazidos de casa, eram o retrato da saúde pública municipal, ontem, no Pronto Socorro Municipal Mário Pinotti (PSM da 14) . O material era para o irmão deles, portador do vírus HIV, que estava internado na enfermaria. “O país que mais paga impostos somos nós, deveríamos ter uma saúde melhor, até lençóis temos que trazer de casa porque aqui nunca tem”, protestou Márcia. “Isso é uma injustiça com os pacientes”, afirmou Antônio, na sala de espera para levar o material para melhorar as condições de internação do irmão, que já deveria ter tido alta, mas aguarda para fazer uma tomografia em outro lugar porque o aparelho do hospital não funciona. O precário atendimento no PSM da 14 levou os servidores a paralisarem as atividades, ontem. O movimento começou por volta das 7h, na hora da troca do plantão. Eles armaram tendas na frente do PSM e colocaram cartazes denunciando a precariedade do funcionamento. O movimento tem o apoio do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde Pública do Estado do Pará (Sindesp), do Sindicato dos Servidores de Saúde do Município de Belém (Sindsaúde) e da Associação dos Servidores de Saúde no Município de Belém (Assesmub). Além de reivindicações salariais, o movimento também é pela melhoria das condições de trabalho e do serviço prestado à população. Os servidores querem que sejam reativadas de imediato as urgências e emergências das unidades de saúde, que seja regularizada a compra de medicamentos e o funcionamento de equipamentos, como o aparelho de tomografia, que está quebrado, e a reativação do laboratório de análises clínicas cujo serviço foi terceirizado. Rosana Oliveira, presidente da Assesmub, garantiu que pelo menos 30% dos servidores estavam trabalhando para garantir o atendimento à população. Enquanto ocorria a paralisação, Odete Alves, de 62 anos, viajava em um ônibus da linha Bengui/Presidente Vargas. Foi quando sentiu a coluna deslocar. O problema teria sido causado pelo solavanco do veículo ao atravessar um buraco. A mulher não conseguia movimentar as pernas e reclamava de muita dor. “Do jeito que ela caiu no banco ela ficou e começou a chorar e gritar pedindo socorro. Então, o motorista resolveu trazer a passageira até o Hospital do Pronto-Socorro Municipal da 14 de Março, mas os funcionários estão paralisados e não tem ninguém para atendê-la”, informou o cobrador do ônibus. Pouco adiantou o argumento do motorista, identificado apenas por Dilson, que à porta do hospital solicitava uma maca para Odete. Durante 15 minutos, o DIÁRIO acompanhou o drama da paciente, que gritava e implorava por socorro.
RECLAMAÇÃO “Eu cheguei aqui há meia hora e fui buscar atendimento para esta passageira e ninguém me atende”, reclamava o motorista, que por conta própria resolveu erguer a mulher e, com ajuda do cobrador, retirou a paciente do ônibus enquanto um segurança empurrava uma maca sem lençol para que a senhora fosse enfim carregada. Odete foi colocada sobre a maca sem o cuidado de nenhum funcionário. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que, apesar da paralisação de alguns funcionários no Mário Pinotti, o atendimento de urgência e emergência à população de Belém e outros municípios “continua sendo realizado no hospital” e que servidores efetivos garantem a realização dos procedimentos dentro do PSM. Sobre a paciente Odete Alves, a Sesma informou que ela foi atendida por um neurologista e um traumatologista. Ela sofreu um deslocamento de coluna e passou por uma avaliação da equipe médica. Em relação à chegada da paciente no hospital, a Sesma esclareceu que, em função da grande demanda e da paralisação, a espera para o atendimento foi maior do que o normal. Porém, que todos os pacientes que chegaramm ao PSM receberam atendimento. Segundo o técnico de enfermagem do Pronto-Socorro do Guamá, Cláudio Rocha, os pacientes esperam até três meses por uma consulta. Ele se lembrou da morte de um bebê por falta de leito de UTI e cobrou: “O Zenaldo disse que em 100 dias ia resolver as questões mais graves, mas até agora nada”. Leitos que serão criados são insuficientes
Em 1994, Belém dispunha de 3.564 leitos. Quase 20 anos depois, o quantitativo diminuiu para 2.124, conforme dados do Departamento de Regulação da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma). Ontem o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, anunciou que vai contratar o serviço de 160 leitos de UTI em hospitais privados em contrato temporário com duração de quatro a seis meses. Os valores não foram divulgados. Mesmo com a medida, a oferta de leitos ainda é insuficiente. Nesse período, o prefeito espera “que se resolva o imbróglio da situação do novo PSM”. Os hospitais vão ser oficializados até segunda-feira (1º de junho). “Esperamos ter respostas imediatas pra oferecer na semana que vem esses serviços, já quarta ou quinta- feira”, afirmou. Os preços serão superiores aos pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os leitos serão disponibilizados para atendimentos de Urgência e Emergência e os pacientes serão encaminhados via central de regulação, seja pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) ou prontos-socorros municipais. A contratação não consiste somente na aquisição temporária dos leitos, mas aos aparatos necessários para os procedimentos. Em uma primeira conversa, os hospitais, segundo Zenaldo, mostraram-se dispostos a firmar contrato temporário de prestação de serviço pelos valores que serão oferecidos.
MEDICAMENTOS Sobre a denúncia de falta de medicamentos nos PSMs da travessa 14 de Março e do Guamá, o prefeito alega que as licitações estão em andamento e que uma parte dos remédios já foi entregue. A outra parte deve chegar na próxima segunda- feira. “Estamos com os prontos-socorros abastecidos. O Estado e o Hospital Geral do Exército têm nos ajudando com o abastecimento”. Denúncias de trabalhadores da saúde e de familiares de pacientes revelam a falta de medicamentos básicos, como dipirona. Zenaldo reafirma que em seis meses seria impossível resolver os problemas da saúde “com o sistema absolutamente destroçado e destruído”. Neste ínterim, os protestos e ameaças de paralisações na saúde foram tantos que, quando tocado no assunto durante a coletiva de imprensa realizada ontem, o prefeito disse, em tom de brincadeira, que faria seu próprio protesto. Ontem os trabalhadores do PSM da 14 de Março paralisaram as atividades por 24 horas. Na segunda- feira, a paralisação será por conta do Samu. Na terça- feira (25), moradores da Terra Firme fizeram o “Ato do Rato”, em protesto pelo péssimo atendimento e o aparecimento de um rato morto na Unidade de Saúde do bairro. Nas manifestações que têm tomado as ruas da capital, a saúde ocupa lugar nos cartazes, que clamam por melhorias nos serviços essenciais. Os 219 anestesiologistas que prestam serviço para a Sesma ameaçaram paralisar as atividades na próxima segunda- feira. Eles estão há dois meses sem receber, desde que o contrato terminou e não foi renovado. Indagado sobre a situação dos profissionais, o prefeito alegou desconhecer o caso. Depois de uma ligação, afirmou que o problema estava solucionado. “Acabei de falar com o diretor da Sesma e está tudo resolvido. É um período de transição (troca de secretário de Saúde). Já está autorizado o pagamento e já mandei fazer a renovação dos contratos. Não vamos ficar sem anestesiologistas”. “Os prontos-socorros pedem socorro”
Em entrevista à Rádio Clube na manhã de ontem, o diretor administrativo do Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa), João Gouvêa, engrossou o tom das críticas contra a atuação municipal em relação à saúde pública. Por telefone, da porta do PSM da 14, o médico condenou a gestão do prefeito Zenaldo Coutinho. “O prefeito, quando assumiu, disse que em 100 dias ia produzir uma nova imagem para a saúde de Belém, mas na urgência e emergência, infelizmente, tudo piorou. Nós estamos com falta de medicações e materiais básicos, como soro fisiológico e gaze. Isso não só no pronto-socorro da 14, mas no do Guamá e em outras unidades de saúde da capital”, disparou. “Literalmente nós estamos dizendo que os prontos-socorros pedem socorro. Essa é a situação dramática que nós estamos vivendo”, disse ele, à Rádio durante o programa apresentado por Helder Barbalho. O Sindmepa organiza para a próxima quarta-feira uma grande mobilização de repúdio ao secretário. “Vamos sair da Santa Casa, com concentração às 8h, passaremos no Pronto-Socorro da 14 e, em seguida, vamos à porta do secretário para prestar uma homenagem ao doutor Hélio Franco pelo bom serviço que ele está prestando à saúde pública do Pará”, ironizou Gouvêa, garantindo que a manifestação de ontem não tinha relação com questões salariais. Nesta semana, na Assembleia Legislativa, o secretário estadual de saúde, Hélio Franco, afirmou que o Sindmepa não estaria preocupado com a situação dos bebês da Santa Casa [foram 38 óbitos em menos de um mês], mas apenas com dinheiro. |
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(Diário do Pará) |
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