Amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e um dos principais pensadores da esquerda no Brasil, o cientista político Emir Sader diz que as manifestações que sacudiram o País nas últimas semanas representam o ingresso de uma nova geração na vida política do Brasil e estão chacoalhando os partidos, o governo e o Congresso. “De um modo geral o resultado pode ser positivo”, diz Sader, afirmando contudo, não acreditar que esse movimento poderá alterar o quadro eleitoral no ano que vem. Para Sader, a reeleição da presidente Dilma Rousseff são quase favas contadas.
O cientista político foi o organizador do livro “10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma”, que reúne artigos com avaliação sobre os dez anos de PT no governo. Na semana passada, Sader esteve em Belém para um encontro de formação sindical. Ele falou com exclusividade ao Diário do Pará:
P: Como o senhor analisa os fatos recentes, esses movimentos jovens nas ruas?
R: Acho que ainda é um pouco cedo para dizer o significado que esses movimentos terão para Brasil. Ainda é um pouco cedo, mas pode se supor que é a entrada de uma nova geração na vida política. A pior coisa que poderia haver para o Brasil era uma juventude passiva e despolitizada. Pode-se fazer muitas leituras, mas acho que a leitura mais importante é a de que recolocou a juventude na rua em torno de problemas concretos para a massa da população. Foi o tema do transporte ao qual se agregaram outras coisas. Acho que o Brasil já deve a eles não só a retomada das manifestações de rua da juventude, mas até mesmo a anulação do aumento das passagens, o que já é uma coisa importante para a população. Depois, colocar em discussão o tema do financiamento do transporte público, da péssima qualidade, da necessidade de não ser um serviço que depende do lucro privado, certamente, que é um dos responsáveis pela má qualidade do serviço. Depois, claro, houve influência da mídia conservadora, que tratou de impingir aí o slogan dela, que não tem a ver diretamente com o movimento, e houve setores violentos, que também descaracterizam o movimento. Mas eu acho que globalmente é positivo. Tanto é que isso já deu uma chacoalhada no Congresso. O Congresso está aprovando de forma acelerada coisas que estariam na gaveta, que não aprovou antes. Mostrou que o sistema político precisa levar uma chacoalhada e até o plebiscito convocado pela Dilma, vai ser um momento de renovação, aprovação e democratização do sistema político.
P: Uma coisa que se observa nas manifestações é a rejeição em todo País aos partidos políticos, inclusive os de esquerda. A que o senhor atribui isso?
R: Os partidos de esquerda não participaram do movimento. Agora, setores extremistas. Cada um fala uma coisa contra os partidos. A direção do Movimento Passe Livre diz que os partidos têm lugar, participam. Se manifestou contra as ações violentas e contra a manipulação conservadora. Não quer dizer que no movimento embrionariamente existe esse elemento de rejeição aos partidos. Tiveram agressões, não só a partidos, como à própria CUT. Mas é um setor extremista que não representa a natureza essencial do movimento.
P: O senhor não acha que há uma crise da representação?
R: A crise da representação existe há muito tempo. Não há imagem pior no Brasil do que a do deputado. Claro que a direita também gosta disso, porque ela quer a política fraca, Congresso fraco, governo fraco, para ela ter muita força e para o mercado ter um papel importante e o Estado se enfraquecer. Há manipulação. Por que ninguém fala mal de empresário? Os empresários estão todos só fazendo o bem para o Brasil? Parece que corrupto é só o Estado, mas quem corrompe o Estado? Então, há uma visão muito unilateral, que a mídia tenta passar, de desqualificação dos partidos, da política, mas que se assenta em uma coisa real: a falta de representatividade do Congresso. Eu acho que o financiamento público é uma coisa que favorece a democratização da eleição dos parlamentares. Hoje a eleição é muito pressionada pelo poder do dinheiro, a quantidade. Lobbies privados dominam relativamente o Congresso, não representam o que é a sociedade. Tem, por exemplo, o lobby da bancada ruralista, do agronegócio, que é muitíssimo maior que o grupo dos parlamentares que representam os trabalhadores rurais. Então, eu acho que existe isso, mas essa iniciativa do financiamento público, pode ajudar a resgatar o papel do político.
P: Essa política de aliança e de coalizão também não desgasta um pouco a política?
R: Eu acho que um fator são esses partidos de aluguel, que na verdade não têm identidade ideológica, programa político definido e acabam fazendo negociata em torno dos votos que têm no Congresso e em torno dos minutos que têm no horário eleitoral gratuito. Então voltamos ao ponto de que é preciso fazer a reforma política. O governo Lula começou sem a maioria no congresso, quase que foi derrubado, então, acabou sendo levado a buscar alianças. Alianças com partidos mais ideologizados se fazem relativamente em termos de princípio. Embora haja partidos tradicionais que tenham perdido muito a sua identidade, a massa de partidos menores tem esse papel. Acaba levando a negociatas e não a acordos políticos.
P: Uma das consequências dessa movimentação é que a reforma política parece ter entrado seriamente na agenda. O senhor acha que isso acalma os ânimos?
R: Não é nem o objetivo colocado pelas mobilizações. Agora a desqualificação da política levou a Dilma a fazer essa leitura, que é uma posição que o PT tinha e que tentou negociar. Lula tentou tomar a frente e desde a eleição de 2010, na campanha, o Lula e a Dilma tinham falado de Assembleia Constituinte exclusiva, porque um congresso eleito com financiamento privado, dificilmente vai ser contra financiamento privado. Então, estava praticamente sepultada a reforma política, e agora com essa chacoalhada, aparentemente, vai voltar para o centro dos debates.
P: O senhor concorda com a ideia do plebiscito para a reforma?
R: Eu acho que o plebiscito é importante, porque o povo se pronuncia primeiro e o Congresso fica condicionado a isso. Referendo significa que o congresso vai fazer. E há muitas maneiras de sabotar: primeiro, colocando uma quantidade interminável de questões, que vão ter que ser regulamentadas.Não dá tempo.
P: Um ponto importante da reforma seria o financiamento público de campanha, mas o senhor acha que a população se consultada, vai aceitar? Não vai surgir aquele discurso de que estão tirando dinheiro de setores essenciais para a campanha?
R: Isso é o que a direita fala. Você precisa financiar as campanhas. Se o governo não financia, em quem e onde os candidatos vão buscar recursos? Nas empresas privadas, e vão ter um mandato com o rabo preso com quem financia. Então, tem que explicar isso para a população. Esse é um momento de politização. A gente sabe que pode não haver um consenso a favor, mas somente a consciência pública política pode levar a isso.
P: Da mesma maneira o voto obrigatório é uma polêmica. Já surgiram propostas para acabar com a obrigatoriedade. O que o senhor acha disso?
R: O país típico de voto não obrigatório são os EUA, que fazem eleição na primeira terça-feira de novembro. Não é nem dia que o trabalhador pode facilmente votar, e quem menos vota é quem mais precisa: são os idosos, negros, mexicanos, são menos informados e menos disponíveis para votar. Então, torna-se um paradoxo, de que um dever se torna uma obrigação, mas é um momento em que as pessoas são chamadas a se pronunciar. A massa da população é chacoalhada pela campanha eleitoral.
P: Então, o senhor é a favor de que o voto continue obrigatório e do financiamento público de campanha?
R: Sou a favor também de que se coloquem critérios mais rígidos para a fundação de partidos. Conseguir 500 mil assinaturas parece uma coisa grande, mas não são membros de partido. Para assinar, basta estar de acordo com que tal partido exista. Então existem máquinas por ai especializadas em buscar assinaturas. Acaba que um partido que conseguiu as 500 mil assinaturas vai para a eleição e tem oito mil votos. Tem que ter uma cláusula de barreira, tem que ter critérios mais rígidos, que descaracterizam a representação. São partidos que não têm identidade, o PC do B é pequeno, mas tem identidade. Pode ser que ele seja sacrificado, mas tem que fazer federação com outros partidos para sobreviver.
P: O senhor acha que o governo Dilma reagiu bem a essas manifestações de rua?
R: Acho que sim. O governo foi surpreendido como todo mundo, inclusive os que convocaram as manifestações, mas eu acho que reagiu bem, está reagindo bem.
P: Que pontos o senhor destacaria na reação do governo?
R: Primeiro, o respeito que ela [a presidente Dilma Rousseff] demonstrou desde o começo aos movimentos. Segundo, o governo foi chacoalhado por isso, e tomou iniciativas de abertura para todas as reivindicações e chamou-os para negociar.
P: E o PT como fica? A crítica diz que o PT se afastou dos movimentos sociais. O senhor concorda com isso?
R: Sim, com certeza. Eu acho que a própria direção do PT aceita isso. Houve uma acomodação relativa, e essa é uma chacoalhada importante, para o PT e para a juventude de esquerda em geral. Foi uma manifestação feita sem a esquerda e para alguns setores até contra a esquerda. Então, é a primeira vez que acontece isso.
P: E daqui para frente, o que podemos esperar?
R: Eu acho que o impacto vai ficar. O Congresso, aprovando essas medidas todas agora, está confessando a sua falta de representatividade. Está buscando legitimidade que não tinha. São coisas que não estavam na pauta ou que estavam, mas a maioria era contra. Agora, o Congresso cancela, não só as férias de julho, como as festas juninas de junho. Vamos ver o que vai representar tudo isso para o Brasil a médio prazo. Eu acho que não vai alterar o cenário eleitoral. Talvez a Marina Silva possa capitalizar um pouco, mas acho que não vai alterar o quadro, mas sim a agenda eleitoral. A própria Dilma não pode continuar achando que vai se reeleger quando acabar com a miséria. É preciso melhorar a qualidade dos serviços públicos e ela leu isso. Educação, saúde, transporte. Esses temas vão condicionar fortemente a agenda até de quem deve ganhar a eleição, que é a Dilma.
(Diário do Pará)
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