Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de pele é o mais frequente no Brasil e corresponde a 25% de todos os tumores malignos registrados no país. Em 2010, dados mais recentes disponibilizados pelo Inca, 1.521 pessoas morreram em decorrência deste tipo de câncer, sendo 841 homens e 680 mulheres. Para prevenir esta e outras doenças de pele, retardar o envelhecimento precoce ou queimaduras indesejadas, o consenso entre dermatologistas é que o uso do protetor solar, principalmente no clima Amazônico, deve ser diário.
Na mesma terra onde incide um sol que castiga os paraenses, no entanto, brota uma palmeira que pode nos ajudar, no futuro, a minimizar seus efeitos. Uma pesquisa preliminar conduzida pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) aponta que, daqui a alguns anos, poderemos estar usando protetores solares naturais à base de um fruto que é uma iguaria apreciada por muitos: a pupunha.
O nome científico da pupunheira, ao contrário da fruta, é indigesto: Bactris gasipaes. A palmeira pode chegar a 20 metros de altura e é natural de florestas tropicais, apesar de poder ser encontrada na maioria dos Estados brasileiros. Enquanto outras palmeiras, como o açaí, podem demorar no mínimo seis anos para começar a produzir palmito, a pupunheira, cultivada com os critérios técnicos adequados, pode ser extraída em até 18 meses.
Apesar de ser grande a procura comercial pelo palmito da árvore, rico em minerais como potássio e fósforo, o interesse do Museu Goeldi é preservar as palmeiras em pé, pois o potencial fotoprotetor está nos frutos de casca oleosa e avermelhada.A pesquisa exploratória, que por enquanto está em fase inicial, é conduzida pela doutora em química Cristine Amarante, coordenadora do Laboratório de Análises do MPEG. “O que nós chamou atenção, em um primeiro momento, foi a coloração específica e a casca oleosa da pupunha. Na casca, há uma grande concentração de substâncias chamadas flavonoides e alcaloides, sendo que os flavonoides, responsáveis pela pigmentação, apresentaram maior potencial fotoprotetor”, explica Amarante.
No próximo semestre, o objetivo será realizar testes in vitro para comprovar, de fato, se a pupunha pode integrar os insumos viáveis para fabricação de um protetor solar natural. “Por enquanto, a pesquisa está em fase muito exploratória. Nós ainda precisamos avaliar aspectos como o poder de fixação, se não há toxidade, se há viabilidade econômica em produzir o produto. A casca corresponde apenas a 11% de toda a fruta e nós não verificamos ainda se as propriedades se intensificam ou não depois que o fruto é cozido, por exemplo”, comenta Cristine Amarante.
Segundo números da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosmética (Abihpec), a indústria da beleza cresce a 10% por ano. Em 2012, o setor, apenas no Brasil, faturou R$ 34 bilhões. A coordenadora do Laboratório de Análises do MPEG diz que as descobertas iniciais são animadoras. “O mais importante nós já detectamos, que é o fato de a fruta realmente possuir essa capacidade fotoprotetora. Nós ainda iremos realizar testes com veículos, analisar a melhor composição, mas esperamos que os resultados sejam positivos. A procura por produtos naturais cresceu muito nos últimos anos e, caso seja viável, a demanda por um filtro solar à base de pupunha pode ajudar a complementar a renda de muitas famílias”, completa. Segundo Cristine Amarante, a expectativa é de que resultados conclusivos sejam divulgados dentro de dois anos.
MUDAR OS HÁBITOS
Apesar de o protetor solar ser útil na prevenção do câncer de pele, Werneck conta que, além do produto, hábitos saudáveis, como uma dieta equilibrada, hidratação constante e evitar estresses contribuem para aumentar a expectativa de vida e diminuir as chances do surgimento de diversas doenças. “O fator cultural conta muito. As pessoas não têm o hábito de se cuidar. Por exemplo, agora, nas férias escolares, os banhistas procuram ir à praia depois das dez horas, meio-dia. O bom sol é antes das nove da manhã e depois das três da tarde. A doença não surge do nada. É uma interação do hospedeiro, que é o homem, com o ambiente”, fala.
Para o oncologista, a pesquisa do Museu Goeldi comprova que a biodiversidade e o potencial fármaco dos vegetais Amazônicos merecem ser valorizados e reconhecidos. “Nós temos excelentes pesquisadores no Estado. A riqueza natural que temos à nossa disposição provoca a inveja e o interesse de diversos países que não têm o mesmo privilégio”, completa.
É possível evitar o câncer de pele só com proteção
Segundo o oncologista Luis Eduardo Werneck, o câncer de pele é uma doença que depende exclusivamente dos hábitos diários, possuindo pouca influência genética. “O tipo mais comum de câncer de pele é aquele que decorre de uma agressão intermitente e cumulativa. Nesse caso, o sol é o grande vilão. Hoje, nós estamos sendo mais bombardeados pela radiação solar do que no passado. Em parte pela mudança no estilo de vida das pessoas e depois porque a Terra perdeu parte de suas proteções naturais”, explica.
De acordo com Werneck, o fato de estarmos localizados geograficamente próximos à linha do Equador contribui para que os raios solares, aqui, sejam mais intensos durante quase o ano todo.
Para este ano, segundo o Inca, a estimativa é de que sejam diagnosticados 134.170 casos de câncer de pele, sendo 62.680 em homens e 71.490 em mulheres. Werneck explica que dos três tipos da doença, o melanoma cutâneo, apesar de ser o menos frequente, é mortal em 90% dos casos. Por isso, o oncologista afirma que prevenção é fundamental. “Eu não posso mudar o mundo ou o sol para que ele se torne menos agressivo, então eu tenho que mudar meus hábitos. O protetor solar cria uma barreira que protege o corpo contra os raios UVA e UVB. Quanto mais clara for a pele, maior deve ser o fator de proteção. O mínimo é 25. O ideal é que se use o protetor diariamente, pelo menos nas áreas expostas, como braços, rosto e colo, no caso das mulheres”, orienta.
Caso algum sinal estranho na pele seja detectado, a orientação é procurar primeiro o dermatologista.
(Diário do Pará)
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