As manifestações que surgiram a partir dos protestos organizados pelo Movimento Passe Livre em São Paulo tiveram, na origem, um ponto em comum: a rejeição à participação dos partidos políticos. Em Belém, na primeira passeata do dia 17 de junho, organizada pelas redes sociais, a ideia inicial era evitar cor partidária. No percurso de São Brás ao Entroncamento, pessoas portando bandeiras foram hostilizadas aos gritos de “sem partido”. A maioria dos políticos preferiu não dar as caras para evitar confrontos. O deputado estadual Edmilson Rodrigues (Psol) foi alvo de vaias. O presidente do PV do Pará, José Carlos Lima, que está sem mandato também não escapou.
O apartidarismo do movimento, porém, começou a gerar críticas de que o grupo tinha viés fascista e as opiniões se dividiram já na segunda manifestação, quando as bandeiras começaram a aparecer timidamente. Hoje já é consenso que o movimento está dividido em cinco grupos que se digladiam nas redes sociais e reuniões convocadas para definir a agenda de protestos.
Psol e PSTU têm o maior número de manifestantes, mas esses não aparecem com a bandeira das legendas. A participação é feita por meio dos coletivos que reúnem jovens filiados. Do Psol participaram os grupos “Juntos” e “Vamos à Luta”. O PSTU aparece sobre a bandeira da Assembleia Nacional dos Estudantes Livres (Anel), uma dissidência da União Nacional dos Estudantes (Une) acusada pelo PSTU de ter se tornado excessivamente dócil desde que o PT chegou ao poder. O quarto grupo que tenta dominar o movimento é formado pela Juventude do PSDB, que prefere manter o discurso de protestos sem cor partidária. Entre os líderes está Gabriel Chaves. Filho do titular da Secretaria de Cultura do Pará, Paulo Chaves, Gabriel seria nome do PSDB para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa no ano que vem.
Há ainda o grupo de jovens sem ligações partidárias que continuam lutando para que as brigas entre as legendas não contaminem o movimento - missão quase impossível.
BELÉM LIVRE
Esse mosaico de opiniões é exposto diariamente nas redes sociais, principalmente na página Movimento Belém Livre, a primeira criada no Facebook para organizar os protestos em Belém. Parte do grupo já acusou Gabriel de ser “infiltrado”, para levar informações ao governo municipal do PSDB. Semana passada, Chaves divulgou manifesto onde afirma que o movimento “não é de esquerda, nem de direita, mas do povo brasileiro que está saturado da corrupção”. Em entrevista ao DIÁRIO, Gabriel admitiu ter sido hostilizado, mas, segundo ele, por “um grupo que quer manobrar o movimento”. Disse que defende que o Belém Livre seja apartidário.
“Já está na hora de parar com essas publicações de partidos no grupo. Isso já está ficando muito chato! Isso faz com que se perca o foco e enfraqueça muito mais o ato”, escreveu uma integrante do grupo na última sexta. A cada novo post, sucedem-se os comentários com críticas e defesas à participação dos partidos. “Essas picuinhas só fazem quebrar o movimento. Não precisas começar a amar e a concordar com tudo que um cara de partido fala e vice versa, aceitem uns aos outros com as diferenças, se tolerem, democracia serve pros dois lados”, apelou outro manifestante.
Um acordo, contudo, parece cada vez mais improvável. Psol e PSTU defendem uma radicalização dos protestos e a revindicação do passe livre para estudantes, além da redução das tarifas como já ocorreu em várias capitais. O prefeito Zenaldo tem resistido a acordos nessa área, no que é apoiado pelos jovens tucanos.
Depois da calma primeira passeata, houve uma série de confrontos entre policiais e manifestantes - que acusam a PM de ter agido com violência. Semana passada, um grupo ocupou a Câmara de Belém e foi expulso com bombas de gás e spray de pimenta. Até agora, em Belém, os protestos não tiveram consequências práticas e, à medida que o debate se intensifica na web, o movimento perde força nas ruas. Na sexta, uma passeata reuniu menos de 500 pessoas. Um grupo permanece acampado na Praça do Operário, em São Brás, mas a determinação é evitar falar com a imprensa - a quem acusam de divulgar informações contra os manifestantes.
A disputa partidária no Movimento Belém Livre acabou levando a uma dissidência com pretensões de fazer um debate mais técnico sobre os problemas da cidade. É o Foco Belém. O nome já é uma crítica ao Belém Livre, acusado de ter uma pauta ampla demais, o que impossibilitaria negociações. Foi o Foco Belém que realizou sábado um protesto batizado de ‘sentaço’. A intenção: ficar sentado na avenida Presidente Vargas até que o prefeito recebesse uma carta com revindicações para quatro áreas: BRT e Mobilidade; saúde; educação e tratamento do lixo.
O protesto reuniu menos de 50 pessoas e foi rapidamente encerrado, já que prefeito enviou equipe para receber a carta, Agora o grupo pede reuniões temáticas para discutir cada um dos temas da pauta.
O Foco Belém é coordenado por integrantes do Observatório Social, que há muito monitora o poder público em Belém. Sua página é aberta, mas os grupos temáticos são fechados. “Somos um grupo apartidário, o que não significa que as pessoas não possam ser filiadas. O que não queremos é partidos aparelhando o movimento”, diz José Francisco Ramos, um dos coordenadores do Foco Belém.
(Diário do Pará)
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