O enterro de Tânia Maria dos Santos Vale, autônoma de 44 anos que morreu na última segunda-feira, no Hospital Santa Clara, conveniado ao Sistema Único de Saúde (SUS), sem conseguir um leito de UTI, ocorreu ontem, no município de Marituba. Parentes e amigos estavam inconformados com a perda e com o descaso, uma vez que a vítima esperava por um leito desde o dia 29 de maio.
Comovidos, os familiares choravam ao redor do caixão, cantando coros de igreja. Os discursos demostravam a indignação com a falta de estrutura da saúde pública de Belém. “Era uma esperança grande, era por ela que lutávamos, mas não deu certo. Nem o Ministério Público deu jeito”, comentou o cunhado, Raimundo Monteiro. “A gente espera que, pelo menos, outras pessoas se beneficiem. Hoje vimos na TV que abriram novos leitos, mas agora já é tarde para ela”, afirmou a prima Cléa Farias.
Além de diabetes e infecção generalizada, o quadro clínico de Tânia envolvia o mal funcionamento dos rins e uma série de complicações. A paciente já não conseguia mais ficar sentada e fazia as necessidades fisiológicas com muita dificuldade.
Sem Tânia, o marido Raimundo Monteiro ficou só com os quatro filhos. “Isso não vai ficar assim. Vou lutar com todas as minhas forças porque se eu me calar isso nunca vai acabar”, desabafou.
A família, já desesperada, pediu ajuda ao Ministério Público do Estado (MP), em busca do leito em uma UTI. “A gente ficava em cima, todo dia, para conseguir o leito. Deram três números da Central de Leitos pra gente, quase não atendiam. Fomos no Ministério Público umas duas vezes. Na sexta-feira passada, a promotora deu um prazo de 24h para que a Sesma (Secretaria Municipal de Saúde) arranjasse um leito para minha mulher, mas parece que a palavra dela não valia de nada”, relatou.
DESCASO
Para Raimundo, o descaso começou desde o início do atendimento. “Ela ficou quatro dias no Pronto Socorro da 14, de lá mandaram ela para o Hospital Santa Clara, mas com tanto hospital com mais estrutura, eles mandaram ela para um que não tinha UTI, sendo que ela precisava de atendimento urgente. Se eu tivesse dinheiro minha esposa tinha sido atendida. É uma lástima eu ver ela se acabar e não poder fazer nada. Recorrer a quem?”, questionou.
Segundo ele, a maior tristeza dele é não saber nem do que a esposa morreu. “Ela ficou todo esse tempo sem fazer exame, até hoje não sabemos o que ela tinha. Não sabemos a causa da morte. E foi por isso que não deixei o IML ir buscar ela, não iam tirar nenhum pedacinho para exame. Se não souberam antes o que ela tinha, não vão saber agora e ela vai do mesmo jeito pra debaixo da terra”.
(Diário do Pará)
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