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Santa Casa está à beira de um colapso

Com 150 leitos e apenas 60 médicos concursados, a Santa Casa de Misericórdia do Pará está à beira do colapso após a redução de médicos anunciada recentemente. Padrões internacionais determinam que para cada 10 leitos de UTI é necessário um médico. Nas Uni

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Com 150 leitos e apenas 60 médicos concursados, a Santa Casa de Misericórdia do Pará está à beira do colapso após a redução de médicos anunciada recentemente. Padrões internacionais determinam que para cada 10 leitos de UTI é necessário um médico. Nas Unidades de Cuidados Intermediários deve haver um médico a cada 15 leitos.

O Sindicato dos Médicos confirma o problema e diz que “a situação impede que as escalas sejam fechadas com o número ideal de médicos, o que poderia explicar parte das mortes de crianças ocorridas no mês passado”.

Em junho o número de mortos chegou a mais de 40. Nos primeiros dias, a média era de duas mortes por dia. Após as denúncias, o número foi reduzido à metade. “Quando você tem uma superlotação a probabilidade de infecção é muito maior. Não podemos afirmar que todas são por infecção, mas uma parte delas certamente é”, disse ontem o diretor do Sindmepa, João Gouveia, em entrevista à RBATV

Além dos concursados, o hospital tem cerca de 40 médicos que trabalham com contrato temporário, mas tudo indica que a intenção é reduzir esse número. Cinco deles já teriam sido chamados para distratos.

Além disso, informações do corpo clínico são de que o governo determinou limite para o número de plantões que cada neonatologista pode fazer. O máximo seria de apenas dez plantões extras, somando todos os hospitais. Ou seja, se um médico trabalhar no Hospital de Clínicas (HC) e na Santa Casa, por exemplo, só poderá fazer, no máximo, cinco plantões extras em cada um. Além disso, não podem mais fazer plantões noturnos e no dia seguinte trabalhar de manhã seja na Santa Casa ou no Hospital de Clínicas, Ophir Loyola ou Abelardo Santos.

GRATIFICAÇÃO

Os médicos também reclamam do valor da gratificação de desempenho da Santa Casa. O DIÁRIO apurou que hoje esse valor fica em R$ 900,00, a cada três meses, enquanto no Hospital de Clínicas são pagos R$ 2 mil e no Ophir Loyola R$ 3 mil pelo mesmo período.

Segundo o Sindmepa, quem se atrasa tem descontos, mas quem passa do horário não pode receber horas extras. A suspeita é de que o governo teria interesse em reduzir o quadro próprio do hospital para repassar o novo hospital para administração de uma entidade privada por meio de Organização Social, a exemplo do que já ocorre nos hospitais regionais e no Metropolitano, em Ananindeua.

“As dificuldades criadas para que os médicos neonatologistas concursados trabalhem aliada à redução do valor da gratificação nos impõe reflexão. O objetivo estratégico do governo Jatene é obrigar a saída dos médicos concursados e induzi-los a constituir pessoa jurídica como cooperativa ou firma comercial. Assim, terceirizam ou quarterizam o serviço. Cai como uma luva na pretensão do governo em privatizar a Santa Casa para uma Organização Social”, afirma o diretor do Sindmepa, Waldir Cardoso.

“Denunciamos mais esta trama perversa do governo que quer, a todo custo, entregar os serviços públicos para a iniciativa privada e tornar ainda mais precária as relações de trabalho, negando aos trabalhadores médicos elementares direitos trabalhistas”, diz.

Em entrevista coletiva concedida ontem, o governador Simão Jatene prometeu inaugurar a nova Santa Casa em agosto deste ano. Ele resistiu em admitir os problemas da maternidade. O secretário de Saúde, Hélio Franco voltou a afirmar que as mortes de bebês eram inevitáveis e não estão ligadas aos problemas de superlotação e infraestrutura do hospital.

Jatene ataca RBA, mas não esclarece mortes

O governador do Estado, Simão Jatene, escalou um time de primeira linha para responder às denúncias feitas na edição da última quarta-feira, do DIÁRIO, sobre a situação da Santa Casa de Misericórdia, referência em atendimento materno-infantil de alta complexidade no Pará.

Além dele próprio, o secretário de Estado de Saúde, Hélio Franco; a secretária adjunta de Estado de Saúde, Heloísa Guimarães e o Procurador Geral do Estado, Caio Trindade, estiveram na coletiva de imprensa armada ontem à tarde no Comando Geral da Polícia Militar, local que serviu de palco para uma série de ataques por parte de Jatene ao DIÁRIO e à RBATV.

A repórter Pollyana Gomes, da RBATV, tentou questionar Jatene quando foi interrompida pelo governador, num tom de voz bastante irritado por diversas vezes, enquanto ela citava denúncias de mau atendimento na saúde pública para contextualizar suas perguntas. O governador chegou a negar respostas à repórter. “Eu nem sei se o que a senhora está falando é verdade, era melhor perguntar sobre outras coisas”, ironizou.

Jatene chegou a dizer que “era mais razoável que o veículo fosse para a sociedade pedir desculpas”, ao falar sobre uma foto publicada em matéria de capa do DIÁRIO sobre a situação da saúde na Santa Casa, mas ele confirmou que as demais imagens reproduzidas de vídeo exibido desde a terça, 9, pela RBATV, eram sim, de dentro da Santa Casa, e que se trata de uma ala desativada no início deste mês por, segundo ele, motivos de inundação. A gravação feita por um funcionário da Santa Casa, divulgada pela RBATV, revela um espaço imundo, com lixo e muita água pelo chão, armários com aspecto de apodrecido e um banheiro com sanitário sem assento e sujo. O governador aproveitou a ocasião para anunciar que, na segunda quinzena de agosto próximo, será entregue a nova unidade materno-infantil da Santa Casa.

LEITO

Em seguida a repórter da RBATV perguntou se o governo do Estado não devia desculpas à família de Tânia Maria dos Santos Vale, de 44 anos, que morreu depois de mais de um mês de espera por um leito de UTI e que morreu esta semana - caso esse acompanhado pela reportagem da RBATV e do DIÁRIO. “Não me venha fazer aqui o uso da desgraça alheia diante de um quadro desses. Estamos discutindo aqui um caso muito mais sério”, rebateu Jatene.

A jornalista então perguntou se o governo aceitava abrir as portas da Santa Casa para a imprensa. “As portas da Santa Casa estiveram fechadas? Põe o vídeo do Ministério da Saúde”, desconversou Jatene, se dirigindo a membros da Comunicação do Governo. O vídeo foi exibido em um telão em que Dário Pasche, diretor do Departamento de Ações Pragmáticas Estratégicas do Ministério da Saúde, aparece afirmando que não existe surto de infecção dentro da Santa Casa - parecer esse classificado de “patético” pelo Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa) em reunião realizada entre autoridades e Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa no dia 26 de junho, conforme matéria publicada no DIÁRIO no dia seguinte.

Outras explicações sobre as mortes de mais de 40 bebês dentro da Santa Casa em um mês não foram dadas nem por Jatene e nem por Franco.

(Diário do Pará)

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