Quatro meses. Foi o tempo que levou para que Aldaléa Azevedo sentisse a dor que a acompanha até hoje, três anos após o caso. Dos primeiros sintomas de que alguma coisa estava errada até o diagnóstico do câncer na mãe, foram mais de três meses. Menos de trinta dias depois, ela perdeu a mãe. “Ela estava em casa com todos nós ao redor. O pior de tudo é mesmo a sensação de impotência que dá. A vontade que dava era de pegar na mão do médico e levá-lo para fazer a cirurgia, mas eu não podia. Não há um só dia que eu não chore pensando se não podia ter feito mais pela minha mãe”, diz Aldaléa, 53, ainda emocionada.
Se viva estivesse, Beatriz França teria hoje 75 anos. Era alegre, lúcida, independente, lembra a filha. Não tinha plano de assistência hospitalar. Tratava-se na Casa do Idoso e até o dia 19 de março não se queixava de qualquer doença. Começou com um mal-estar, depois ficou com a pele amarelada e ouviu do médico que o problema era devido à ingestão de alimentos como cenoura e mamão. “Ele disse que era para ela evitar esses alimentos e, se o problema continuasse, ia investigar”. Continuou.
Alguns exames foram feitos e “descobriu-se” que dona Beatriz sofria com pedra na vesícula. “O médico disse que a gente ia ter que esperar porque tinha muita gente na frente. Esperamos meses. A gente correu atrás como pôde. Fizemos alguns outros exames particulares na busca de agilizar, mas a cirurgia só saiu mesmo em junho. Minha mãe já estava muito mal, mas eu estava aliviada porque pensava que com a cirurgia tudo ia se resolver”, relembra, destacando o momento em que recebeu a notícia. “O médico saiu da cirurgia e me disse. A minha mãe estava com um tumor enorme dentro dela e a gente nem sabe desde quando. A doença era muito agressiva e daí o quadro só se agravou”.
Não houve tempo para uma cirurgia de retirada do tumor, para um tratamento de radioterapia ou quimioterapia, para a atenção que ela merecia. “Eu sinto que eu perdi a minha mãe para a doença, porque o caso dela era muito grave e a doença evoluiu de forma muito rápida, mas eu também sinto, bem lá no fundo, que eu perdi a minha mãe pro tempo. Se tudo tivesse sido feito quando descoberto, quem sabe eu nem tivesse aqui contando essa história. Minha mãe poderia estar comigo”, reflete novamente emocionada Aldaléa, que já tinha vivido o mesmo drama antes com o tio, irmão de dona Beatriz. “Meu tio fazia hemodiálise e o tratamento é muito duro. O médico disse que, se ele conseguisse um doador, ele ficaria curado. Ele conseguiu, mas teve que esperar na fila para o transplante. Continuou fazendo a hemodiálise, foi enfraquecendo, enfraquecendo e morreu. Três meses depois, o telefone da casa tocou e disseram pra minha tia que ele tinha sido contemplado com a cirurgia. Ele tinha morrido. Foi um momento muito difícil para toda a família. É um desamparo”, desabafa Aldaléa.
TEMPO A FAVOR
Segundo a oncologista clínica Danielle Feio, quando o assunto é câncer, o tempo é o maior aliado do paciente. Apesar das diferentes características de evolução da doença, o diagnóstico e tratamento imediatos são fundamentais para a manutenção da vida. “Há casos como os de leucemia, em que se pode perder o paciente em 30 dias. O tempo é fundamental para um paciente de câncer. Travamos uma batalha diária contra ele [o tempo]”, destaca a especialista.
Em situações nas quais se faz necessária uma intervenção cirúrgica, lembra, o prazo máximo para o início do chamado tratamento complementar - quimioterapia ou radioterapia – são três meses. “Há estudos que comprovam. Esse prazo máximo é o necessário para que o paciente tenha o benefício necessário. O tratamento complementar é iniciado para diminuir o risco de o tumor voltar, é o bloqueio do crescimento celular, fora do prazo. Se houver um resquício de célula tumoral, ela já está se espalhando e, infelizmente, nos consultórios se vê muitos pacientes nessas circunstâncias”, adverte.
ESPERA QUE MATA
Casos extremos como os vivido pela família de dona Beatriz não têm sido exceção em Belém. No mês passado, o apelo desesperado de uma mãe não bastou para que o socorro ao filho de apenas três meses chegasse a tempo. À espera de um leito de UTI pediátrica por oito dias, a criança, que veio do município de Igarapé-Miri com suspeita de pneumonia, não resistiu e foi a óbito no último dia 19 de junho. No último domingo, a história se repetiu. Com o diagnóstico de uma broncopneumonia, uma menina de onze meses não resistiu a seis dias de espera, apresentou uma parada cardiorrespiratória e morreu.
Uma das mais recentes vítimas da corrida contra o relógio foi Tânia Maria dos Santos Vale, 44. Portadora de diabetes, a senhora teve a história contada na edição do último dia 06 do DIÁRIO DO PARÁ. Na segunda-feira, voltou a ser notícia, dessa vez em diferentes veículos de comunicação da capital. Há 40 dias à espera da liberação de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) através do Sistema Único de Saúde (SUS), Tânia Maria perdeu as forças e não resistiu.
DEMORA
De acordo com o Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa), não existem hoje em Belém estatísticas oficiais sobre o tempo de espera por um leito, mas entre os profissionais de saúde o que se estaria observando é uma demora média de 60 dias para leitos comuns e superior a isso para leitos de UTI. “O tempo na saúde é fundamental, mas em Belém hoje não está sendo respeitado. O grande problema da gestão da saúde atual é que não se está trabalhando uma política de promoção à saúde. Estamos correndo atrás da doença e, enquanto isso continuar, vamos permanecer vendo notícias de mortes por falta de leito”, afirmou o diretor administrativo do Sindmepa, João Gouveia.
Fila e burocracia são desumanas
Natural de Santa Cruz do Arari, na Ilha do Marajó, seu Raimundo dos Dias Assunção, 69, enfrentou cinco horas de viagem de barco até Belém. Na bagagem, a esperança de se livrar de um incômodo que o acompanha há dois meses. “Desde o dia das mães eu não urino. Só faço se tiver a sonda”, diz mostrando a ‘bolsa’ carregada 24 horas por ele desde então.
Acompanhado da filha, seu Raimundo esteve no Hospital de Urgência e Emergência Mário Pinotti, na 14 de Março, na manhã de segunda feira. Espera enfim confirmar o diagnóstico do mal que o aflinge. Menos de cinco minutos após a triagem que classifica os pacientes, sai sem resposta aguma. “O médico de lá [Marajó] disse que era pra eu vir pra cá que esse problema pode ser próstata, mas aqui a mulher disse que eu não posso ser atendido porque não vim com nenhum papel de encaminhamento e eu vou voltar, né. As filhas é que ficam se preocupando e chorando, mas eu já disse que é pra parar, não tenho medo da morte, tudo acontece no tempo de Deus”, conforma-se seu Raimundo apegando-se à última esperança que resta e seguindo uma receita prescrita por ele mesmo. “Eu me cuido fazendo dieta né. Não como peixe liso nem camarão. Tudo por mim mesmo”.
A manicure Rosicléia Rabelo chegou a passar pela avaliação de um médico, mas não passou disso. “O médico me disse que eu tenho que fazer uma cirurgia de cisto no ovário, mas que só poderia me operar se o cisto tivesse estourado. Eu perguntei - então quer dizer que só se eu tivesse morrendo? - E ele disse: Isso. Tô aqui, saindo do hospital, mas já sabendo que vou voltar morrendo de dor”, lamentou a caminho do táxi que a levaria para casa, no bairro da Marambaia, onde segundo ela é acompanhada pela Unidade de Saúde. “Tem três meses que venho me tratando com o médico de lá e ele já tinha dito que era caso de cirurgia. Ele disse que já tinha me cadastrado, mas a verdade é que a gente nunca sabe porque ninguém informa nada e o resultado é essa crise”, completou. Rosicléia vai aguardar a redução da dor para viajar até o Maranhão onde espera conseguir o tratamento, até aqui negado na cidade natal.
FILA DESUMANA
Com a mãe em tratamento no Hospital Ophir Loyola desde 2010, o mecânico Ananias da Silva Miranda, 49, também angustia-se ao ver o tempo passar. “Ela tem um cisto na mama que era interno, mas agora já tá externo. Teve uma consulta com uma médica que ela quis mandar prender a gente porque estaríamos abandonando uma incapaz. Foi quando a gente mostrou todos os documentos do tratamento dela [ mãe] que ela [a médica] viu. O problema é do hospital que não consegue o leito pra fazer o procedimento. São três anos e o problema vai aumentando”, reclamou o filho, que já precisou dormir na fila para garantir uma consulta para a mãe. “Tem que chegar de madrugada pra conseguir. É muita falta de respeito com o povo”.
Burocracia prejudica agilidade, diz prefeito
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) informou que todos os pacientes que vêm do interior precisam ser referenciados. “No caso do seu Raimundo dos Dias, a patologia dele é crônica e, não sendo pronto atendimento, este precisava vir diretamente para um hospital de referência”, informa a nota. Sobre Rosicléia Rabelo, a Sesma disse que a paciente não está cadastrada na central de leitos porque a cirurgia de que precisa é eletiva, aquela que pode ser programada. “A própria unidade de saúde que ela fez os primeiros exames pode fazer o encaminhamento para este procedimento”, afirma a nota.
Sobre dona Natalina Lobato, mãe de seu Ananias, o Hospital Ophir Loyola disse que a paciente não tem mais câncer. “Natalina deu entrada na Autorização de Internação Hospitalar ( AIH) no dia 25 de junho de 2013 e aguarda por uma cirurgia eletiva para a retirada total da mama, decorrente de um tumor benigno”, resume o texto enviado.
PERDA DE LEITOS
Na manhã seguinte, o prefeito Zenaldo Coutinho, em entrevista coletiva, se disse mais aliviado por poder firmar contratos para começar a suprir a grande demanda por leitos em Belém.
A prefeitura de Belém fechou convênio com quatro hospitais particulares, admitindo 49 leitos de média e alta complexidade. O prefeito de Belém afirmou que, em sete meses, a atual gestão está se esforçando para resolver problemas históricos do município e lamentou o fato de as soluções não estarem chegando no tempo ideal. “A gente sabe que saúde é algo que não pode esperar, mas infelizmente a burocracia exige uma série de avaliações, licitações e formulações que acabam demandando tempo”, comentou Zenaldo Coutinho.
No mês passado, o Departamento de Regulação da Sesma chegou a afirmar que em nove anos, Belém perdeu 1.440 leitos. Saiu de 3.564 leitos em 2004, para os atuais 2.124. A expectativa da prefeitura é até o final do mês que vem admitir 89 novos leitos, mantendo-se ainda distante do total da década passada.
(Diário do Pará)
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