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Em nome de Cleonice Vieira

Uma série de manifestações organizadas por centrais sindicais pararam o centro de Belém na última quinta-feira (11). De acordo com a organização do protesto batizado “Dia Nacional de Lutas”, quatro mil pessoas tomaram as ruas da cidade, mas um grupo de ap

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Uma série de manifestações organizadas por centrais sindicais pararam o centro de Belém na última quinta-feira (11). De acordo com a organização do protesto batizado “Dia Nacional de Lutas”, quatro mil pessoas tomaram as ruas da cidade, mas um grupo de aproximadamente vinte manifestantes não arredou o pé da Praça da Leitura, no bairro de São Brás.

Na ocasião, completavam nove dias de acampamento no local e com planos de permanecer por muito mais tempo. “A intenção é ocupar a praça a qualquer custo. As manifestações são importantes, mas não podemos abrir mão desse espaço de convivência”, conta o artista Lucas Gouvêa, um dos integrantes da ocupação Cleonice Vieira.

Batizada em homenagem à gari Cleonice Vieira de Moraes, morta após ter inalado gás lacrimogêneo lançado pela Polícia Militar durante confronto com manifestantes, a ocupação foi a resposta deles a outra violenta ação policial.

No dia 2 de julho, um grupo de manifestantes que tomou as galerias da Câmara Municipal de Belém para acompanhar a votação do Plano Plurianual foi expulso pela guarda municipal à base de spray de pimenta e balas de borracha. Naquela noite, dez pessoas fincaram suas tendas ao lado da Coluna da Infâmia ou Pilar da Vergonha, monumento em memória do massacre de Eldorado do Carajás.

Atualmente, o camping é composto por seis barracas, montadas embaixo da sombra de duas grandes lonas. A ocupação ainda conta com uma área de convívio, repleta de colchões para as reuniões, aulas e sessões de cinema, improvisadas em uma lona branca que serve de tela para no projetor. Em uma área anexa fica a cozinha, composta por um isopor com gelo para manter os alimentos perecíveis e um fogão a carvão montado com meia dúzia de tijolos.

Ocupação segue por tempo indeterminado

O colorido das barracas quebra a paisagem cinzenta da vizinhança. Um simpático pedaço de papelão onde se lê “Bem Vindo” dá o tom da ocupação. Em outro canto uma pilha de livros ajuda a matar o tempo ocioso. Na coleção tem Julio Verne, “O Corcunda de Notre Dame”, livro esotéricos e até romances açucarados como da série Julia fazem parte do pacote. Se ouve música e grupinhos conversam em todos os cantos.

Mas não se engane: aqui ninguém veio torrar marshmellows na fogueira. Divididos em equipes, os ocupantes cuidam da alimentação, limpeza, segurança, busca e organização de donativos e reuniões diárias realizadas para debater, não só as necessidades do grupo, mas aquilo que gostariam de mudar na sociedade.

A programação do dia é discutida e votada por todos os integrantes. No calendário de atividades pendurado entre as árvores, se vê marcado aula de capoeira, oficina de culinária vegetariana e workshops de tambores.

Em uma das aulas abertas, integrantes da Qsa Utopia Espaço Libertário ajudam a entender os rumos da ocupação. Formada há seis meses no bairro da Campina, em Belém, a casa funciona como um espaço de convivência gerida de forma coletiva por um grupo de ativistas anarquistas, contando com um sebo, uma biblioteca e restaurante de comida vegetariana.

Convivência “sem líderes e sem partido”

“Na casa exercitamos o diálogo, o respeito, o apoio mútuo. Mas acima de tudo, um novo jeito de viver o mundo, diferente do que o capital impõe. Ao contrário do que muita gente pensa do anarquismo é preciso uma organização e uma reeducação dos nossos valores. É como o Glauber Rocha disse: é preciso arrancar as máscaras, para que a gente possa olhar diretamente um na cara do outro”, afirma André Leite, integrante da Qsa Utopia.

Sem liderança definida, os manifestantes dizem que são apartidários. Uma carta afixada em uma árvore lista algumas de suas reivindicações como “democratização dos meios de comunicação, reforma agrária e urbana, desmilitarização da polícia, financiamento público e igualitário das campanhas políticas, redução dos benefícios dos políticos, além de inclusão mais efetiva das pautas amazônicas referentes a exploração, expropriação e violência praticadas pelos grandes projetos de desenvolvimento”.

Enquanto um grupo discute, outro se reveza na cozinha. O jantar é um clássico do camping - macarrão e salsicha. Pratos circulam de mão e mão, divididos sem ressalvas como quase tudo no espaço.

A dispensa é mantida às custas de doações de amigos e simpatizantes da causa. Depois da refeição, outras pessoas se juntam na árdua tarefa de lavar a louça sem pia ou recipiente para enxágue.

Em assembleia que varou a noite, os militantes já pensam estratégias para tornar mais cômoda sua estadia na praça. Traçam projetos de construção de banheiros secos, áreas de compostagem. Em um caderninho marcam os turnos de vigia de cada um, três horas de sono revezadas para tomar conta do acampamento.

“Estamos vivenciando uma zona autônoma”, afirma o manifestante Maécio Monteiro, em referência às ideias de Hakim Bey, que define a Zona Autônoma Temporária como uma organização voluntárias de indivíduos, sem controle de hierarquias. “Estamos estabelecendo nossa segurança, nossa economia, nossa política. Isso é uma sensação de liberdade imensa e uma grande responsabilidade”

O dia amanhece e o barulho dos carros e ônibus na avenida Almirante Barroso ecoa.

Pedestres, rumo ao trabalho, em fila para os balneários, olham com curiosidade para o acampamento. Dois manifestantes preparam o café alheio. Ganharam mais um dia na batalha.

(Diário do Pará)

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