Estatura mediana. Magro. Jovem. Marcado. Aos 14 anos, J.C conhece a violência bem de perto. Nascido e criado na periferia de Belém, traz no corpo, e na memória, os sinais do dia determinado para ser o seu último. “Era pra eu ter morrido. Fiquei no hospital, mas graças a Deus escapei”, diz o garoto com uma naturalidade desproporcional ao peso da afirmativa.
Foi em agosto do ano passado. J. C dá poucos detalhes. Prefere ir direto ao ponto, mas deixa escapar que não estava sozinho. O plano era roubar um carro no próprio bairro durante a noite e fugir, mas um detalhe fez toda a diferença. “Eu não sabia, mas a vítima era policial. Ele reagiu e me deu vários tiros. Dois me acertaram. Por pouco eu não estaria aqui pra contar isso agora”, revela o jovem que de longe, misturado a outros meninos da mesma idade que aproveitam essa época do ano para por no céu suas pipas e papagaios, não deixa transparecer o passado ainda muito presente.
No braço esquerdo e nas costas estão as cicatrizes que não o deixam esquecer e o fazem planejar um futuro melhor. Típico menino adolescente, ele sonha ser um jogador de futebol. “Não precisa ser famoso como o Neymar. Pode ser só no Paysandu mesmo”, comenta o menor que eventualmente presta serviço como ‘cobrador de vans’ e luta para se manter longe do crime. “Eu tô me saindo aos poucos porque sei que isso não é pra ninguém, mas é difícil. Tudo varia muito. Tem gente que tem de tudo e tá lá porque quer mesmo, mas tem gente que não. Que tem comida e dormida em casa, mas quer sandália e roupa da moda. Mas que é arriscado é”, admite.
O risco a que J.C se refere é mesmo real. Um estudo do Centro de Estudos Latino-Americanos (Cebela) com dados do Subsistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde publicado ontem traduziu em números o problema.
Intitulado Mapa da Violência 2013, a pesquisa demonstrou um crescimento alarmante no percentual de violência entre a população jovem de 1980 a 2011. Mortes não naturais e violentas – como acidentes, homicídio ou suicídio – cresceram 207,9%, em todo o país. Considerando-se apenas homicídios, o aumento chega a 326,1%.
(FONTE: CEBELA/ SIM - MS)
Do total de mortes registradas na faixa etária de 14 a 25 anos (46.920), em 2011, 63,4% tiveram causas violentas (acidentes de trânsito, homicídio ou suicídio) mais que o dobro da década de 1980 quando o percentual era de 30,2%.
(Diário do Pará)
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