Nunca uma visita papal ao Brasil ganhou tantas nuances e contrastes: a Igreja assistiu essa semana a vinda de Franciso ao país em meio a um cenário inusitado: violentos protestos paralelos pontuaram a sua chegada ao Rio de Janeiro na segunda-feira, após a passagem pelo palácio da Guanabara - ainda na esteira dos atos que pipocam pelo país desde junho. Dias antes, em Aparecida (SP), uma bomba caseira foi desmontada no banheiro do santuário que fez parte de seu roteiro no Brasil. Ao fim dessa semana, porém, a maratona parecia ser recompensada. O tom humilde cativou os brasileiros e suscitou respostas positivas das ruas e dos lares, ainda que só pela televisão.
Para fazer um balanço dessa visita histórica, o DIÁRIO ouviu o monsenhor Raimundo Possidônio. Natural de Icoaraci e pároco da igreja de Fátima, com 35 anos de sacerdócio, o padre Cid, como é conhecido, avaliou a participação paraense na Jornada Mundial da Juventude e a visita do Papa Francisco ao Rio. Ele detalhou alguns dos impactos dessa primeira viagem papal internacional para os novos rumos da Igreja - especialmente para o Brasil, a maior nação católica do globo. Confira:
P: A chegada do papa Francisco causou uma emoção genuína nas pessoas. Como o senhor acha que essa postura humilde, mais pé na terra do Papa, vai refletir para a Igreja?
R: A figura do Papa é emblemática dentro da Igreja, e em geral eles trazem um carisma próprio da experiência como padre, como bispos e transferem isso para o pontificado também. Se você pegar a trajetória do João XXIII que foi um dos grandes papas deste século, ou mesmo João Paulo II ou Bento XVI, você vai ver que foram trajetórias diferentes de vida. O papa Francisco vem de uma experiência de um continente que é diferente do europeu, historicamente, culturalmente, eclesialmente. A América Latina tem toda uma história também como Igreja muito interessante. E ele imprimiu ao seu episcopado em Buenos Aires um caráter muito especial, sendo um pastor, eu diria. Eu acho que isso foi levado para o pontificado. Ele não é um teólogo profundo como era o Bento XVI, por exemplo, e tem esse carisma de se comunicar. As próprias expressões dele, o sorriso franco, muito aberto, não são forçados, não é forjado. É um latino-americano, bonachão. Por isso alguns o acham parecido com o papa João XXIII, uma certa proximidade. João XXIII foi o papa que quebrou o protocolo. Desde 1870 os papas não saíam do Vaticano. Se consideravam prisioneiros do Vaticano por causa da história com a Itália. O papa João XXIII foi o primeiro a sair dos muros do Vaticano para visitar primeiro um orfanato, um hospital, e depois a prisão de Roma. Então ele quebrou aquela dureza, não só política, mas também humana do trato, da própria visão do espaço.
P: Seria isso uma coordenada ação de marketing para atrair mais fiéis?
R: Você tem aqui duas coisas. Uma é a visão que às vezes se tem da Igreja, como uma instituição petrificada no tempo, anacrônica, mais dura nas normas, rígida nos conceitos. Isso não vai mudar nunca porque é uma coisa própria da instituição. Se você espera que o papa diga que vai permitir a camisinha, você não vai ouvir nunca dele. Mas ele tenta aproximar a Igreja com a espontaneidade dele.
P: Nessa primeira viagem ao Brasil o desafio é não só de difundir a fé, mas, sobretudo, aproximar mais os jovens...
R: Temos um descenso da participação dos jovens na Igreja. Isso é verdade. Há uma estatística muito realista dessa história e isso é visível nas nossas igrejas. Você vê aqui na nossa missa. Realmente a porção juvenil é muito pequena. Em certas paróquias já há uma tradição juvenil...
P: Na Jornada Mundial da Juventude estamos vendo muito mais os jovens. Parece que eles apareceram. De repente, se motivaram...
R: De fato. É uma espécie de comunicação, porque tem isso, tem esse dado das identidades juvenis. Antes a identidade dos jovens era muitas vezes com a religião, com a Igreja, era o canal de participação na sociedade. Não tinha outro. Mas apareceram vários outros canais de sociabilidade: o partido, o colégio, os movimentos sociais que canalizaram essa identificação dos jovens. A família também está se degradando um pouquinho, se diluindo em todas essas questões, e a religião ficou como um canal multifacetado. Há diversas formas, diversas expressões religiosas para ajudar os jovens a também canalizar suas energias, sua criatividade, sua espontaneidade. E quem é que convoca hoje 100 mil, 40 mil jovens? Não é uma figura carismática, não é um político. É uma nova mídia que está aí criando redes e levando-os a uma participação efetiva na sociedade. Isso é muito bom, não estou negando o caráter bom disso, positivo. E aí você vê que lá em Madrid, por exemplo, houve reação muito grande à figura do papa, assim como aqui já começou no Rio de Janeiro, com um movimento contra os posicionamentos da Igreja, várias coisas. Então de fato eu creio que isso vai servir para impactar um pouco a realidade dos jovens que estão ali, procurando as suas identidades, onde ele se sente melhor. E isso deve ser aproveitado pela Igreja, pastoralmente. Eu creio que as mensagens do papa são um pouco nessa direção. Mostrar uma Igreja que abraça os jovens e ao mesmo tempo exigir dos jovens um compromisso, uma missão. O tema da jornada é isso: “Ide fazer discípulos meus”, tem esse caráter missionário dos jovens assumirem seu compromisso também na Igreja.
P: Aqui no Pará temos uma história da Igreja Católica, em determinados lugares, muito ligada aos movimentos sociais, à questão de terra, contra a violência no campo, muito engajada, muito ativa. Qual o posicionamento do Papa em relação a esse trabalho que a Comissão Pastoral da Terra faz e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) defende?
R: Eu não conheço o posicionamento dele, mas a da Igreja como tal, porque essas coisas nasceram praticamente dentro da Igreja. A Igreja apoiou os movimentos sociais e é identificada com os movimentos de esquerda, até com as guerrilhas. Teve padre que era guerrilheiro. Mas por outro lado há um equilíbrio que vem através de uma coisa chamada doutrina social da Igreja. Ela contempla todas essas coisas. O apoio às lutas, às reivindicações, é um negócio avançadíssimo na história da Igreja, porque até um tempo, de fato, a Igreja não fazia isso. Então de uma certa forma, em princípio, há um apoio. O que não se apoia são os extremismos, os radicalismos. Movimentos nasceram dentro da Igreja, como o CPT, Cimi [Conselho Indigenista Missionário] e outros de grupos de direitos humanos. No fundo há esse apoio.
P: Dizem que Franciso chegou a apoiar a ditadura argentina...
R: Não. Isso é um boato. Realmente não aconteceu. Mas creio que, como todo papa, tem um equilíbrio nessa história. E o discurso dele se aproxima mais de fato da Teologia da Libertação do que do discurso extremamente conservador, embora ele se considere um conservador.
P: O que se pode esperar como resultado da Jornada da Juventude para o Brasil?
R: Em primeiro lugar vamos trabalhar a dimensão da fé, uma dimensão puramente religiosa. Mas a gente sabe que a fé, pelo seu próprio caráter, é missão também, é ação. Existe uma fé para adorar a Deus, louvá-lo, uma fé intimista, e isso é até condenado pela Igreja. A fé por si já é dinâmica, já é aberta, comprometida. E uma das metas da jornada mundial, que já não é uma jornada, é uma semana, porque jornada é quando é somente um dia, é deixar essa marca nos jovens católicos brasileiros. Que os jovens sejam missionários daquilo que aconteceu dentro da jornada. Porque a jornada tem vários momentos. Além das missas com o papa, tem aquela via sacra, tem catequeses, tem também uma catequese vocacional, tem vários enfoques de espiritualidade para incutir nos jovens esse caráter missionário, de um jovem apostólico, de um jovem que realiza uma missão dentro da sociedade. E eu creio que é por esse viés que a gente pode influenciar a realidade social, política, cultural do jovem, que vai entendendo a sua missão dentro da realidade. Eu creio que o jovem engajado politicamente já passou. A gente teve jovens engajados, das comunidades, dos movimentos da Igreja. Jovens que hoje estão na política, no comando até de algumas prefeituras, vereadores, deputados. Mas isso foi um momento que passou. A gente não vai ver mais jovens engajados assim nessas frentes de batalha da ordem política ou social, mas a gente pode influenciar através da família, da escola, do ambiente onde ele vive. A Igreja, com a jornada, tem a esperança que toda essa alegria que envolve o movimento se torne um movimento de alcance mais longo do que aquele dia desse acontecimento. Eu acho que é bem provável que aconteça. Porque apesar dessas mudanças que ocorreram, do jovem que não frequenta mais a Igreja, esses que frequentam têm uma grande missão pela frente.
P: A missão vocacional tem sido um desafio para a Igreja. A questão do celibato é um desses dogmas imutáveis que dificultam a formação de novos religiosos?
R: Pelo que nós observamos, começando pela Europa, pelos Estados Unidos, há também um descenso das vocações específicas, vocações sacerdotal, religiosa. Por outro lado a gente ganha muito com a vocação do leigo. Tem muitos leigos que são comprometidos de alguma forma, até jovens estudantes celibatários, ou jovens casados que fazem uma missão pastoral, que vão para a África, vão para a Ásia, que assumem ali um trabalho que antes era feito só por padres e freiras. Hoje ele é feito por jovens e até por casais. Famílias inteiras se deslocam de um lugar para outro. No entanto a Igreja sofre muito com a chamada cultura pós-moderna, cultura urbana, que atrai muitos jovens para diversos lugares, âmbitos onde se sintam bem. Numa cidade como Belém, a gente já sente essa dificuldade. Antes tínhamos muito mais vocações. No sul e sudeste do Brasil, onde a cultura urbana é muito mias forte, as vocações religiosas e sacerdotais já declinaram. Temos que ter uma maneira nova de lidar com isso.
P: A Igreja pensa em novas estratégias?
R: Pensa. Existem nas dioceses, por exemplo, uma pastoral chamada Pastoral Vocacional, e a animação é feita pelo seminário. Um padre do seminário fica nas paróquias ao longo de um ano conversando com os jovens. Há uma preocupação. E interessante é que a diocese que faz isso consegue atrais mais os jovens.
P: Qual a expectativa em relação ao pontificado do papa Francisco?
R: Há o aspecto da liberdade que ele tem de se comunicar, de dizer as coisas e de atrair as pessoas. Li um artigo outro dia que dizia que há um crescimento da presença de fiéis nas catequeses de quartas-feiras que ele apresenta na praça São Pedro e para o Ângelus aos domingos, ao meio dia. Ele está atraindo gente um pouco fora desse círculo mais católico. Agora, outra coisa que é própria de um papa é a administração interna, e nisso a gente sabe que às vezes, dependendo muito do papa, ele pode ter sucesso ou não. A Igreja tem lá o Vaticano, aquela estrutura pesada da administração, todo o aparato político econômico, cultural etc. Essa questão administrativa é muito pesada para um papa. Alguns diziam que o Bento XVI tinha como marca cuidar da Teologia, da pastoral. A administração ele deixou com outros, o que todo papa faz. Mas a gente sabe que se o papa não tiver o cuidado de olhar também pra isso, desanda. A Igreja é uma instituição humana também com todos os percalços que existe na administração. Mas Francisco fez um negócio interessante: ele já convocou uma comissão de cardeais para estudar a questão e agora tem junto a ele uma comissão de peritos de várias áreas. Então, agora é como se fossem as mãos e os pés dele nessa questão.
(Diário do Pará)
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