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Madrugadas são insones para quem busca atendimento

Iluminada pela única lâmpada acesa por entre a escuridão que ainda encobria a madrugada de ontem, Andréia Cristiana Moreira encontrava na agulha comprida e nas linhas coloridas descansadas sobre o colo a única companhia durante a espera pelo o que deveria

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Iluminada pela única lâmpada acesa por entre a escuridão que ainda encobria a madrugada de ontem, Andréia Cristiana Moreira encontrava na agulha comprida e nas linhas coloridas descansadas sobre o colo a única companhia durante a espera pelo o que deveria ser menos sofrido. Ciente das condições impostas pelo próprio sistema que ajuda a sustentar, a mulher deixou a Cabanagem, um dos muitos bairros que sofrem com a presença constante da violência, ainda às 2h para se acomodar na Unidade Municipal de Saúde da Marambaia no aguardo de uma senha.

Acostumada a passar pela longa espera que se prolongaria por pelo menos mais três horas, Andréia se sacrificava pela saúde do filho. “Eu vim para tentar conseguir uma consulta com um clínico geral. Ele tem quinze anos e está precisando muito dessa consulta”, lembra, sem que a ‘tentativa’ incluída na própria fala fosse por acaso. “É muito difícil sair de madrugada de casa do jeito que está a violência, mas se não for assim, não consegue. Às vezes a gente chega de madrugada e, mesmo assim, nem sempre consegue atendimento”.

Em outro ponto da unidade de saúde, pela entrada da frente, a solidão de Andréia era quebrada pela presença de outras quatro pessoas. Sentados improvisadamente na mureta da rampa que dá acesso ao prédio, era diante das portas cerradas que também mantinham a esperança de sair do local, ainda naquele dia, já consultados. Ainda na incerteza do atendimento, Rosane dos Reis, dona de casa, só poderia esperar. “Eles só distribuem quatro fichas para dentista. Cheguei aqui 2h30 para ver se consigo. Aqui, se não for assim, ninguém consegue consulta com dentista, ginecologista, clínico geral. Eu nem sei se o dentista vai vir hoje”, denuncia. “Eles não colocam aviso nem nada. A gente vem pra cá de madrugada e só sabe que o médico não veio, que não vão poder atender na hora”, complementa, angustiada, a professora Alessandra Nunes.

A frustração pela saída ainda no final da noite anterior de casa ainda resultar na ausência de atendimento não é novidade para a dona de casa Maria de Jesus Coutinho. Segunda da fila para a consulta com um clínico geral na Unidade Municipal de Saúde da Pedreira e acomodada em cima de um caixote de madeira, a mulher de 50 anos também não podia afirmar com certeza que sairia dali com o serviço básico garantido. “Todos nós temos que madrugar. Quando eu cheguei ainda faltavam dez [minutos] para a meia noite. Consegui ser a segunda da fila”, conformava-se. “Já aconteceu de eu ter que voltar pra casa sem conseguir consulta. Temos que esperar para ver”.

Madrugar é preciso

A espera do coletor de lixo Manuel Neri era sob o papelão esticado no chão. Com o cansaço do trabalho e o sono ainda estampados no rosto, o que lhe restava era improvisar uma cama e dormir ante a expectativa pelo início da distribuição de senhas na Unidade Municipal de Saúde da Tavares Bastos. Mesmo que a escuridão da madrugada favorecesse, o sono era sempre sobressaltado pela vigília da avenida deserta e soturna. “Todo mundo vem pra cá para a porta, principalmente idoso. A preferência foi embora. direito, aqui, não é respeitado”, enfatiza, ao lembrar que tentava consulta para ele e o casal de filhos. “Não tem mais como expressar como a gente se sente tendo que passar por isso. Aqui ninguém está alegre e satisfeito”.

O ‘ninguém’, a quem Manuel se referia, reunia, pelo menos, mais trinta pessoas. Enquanto o coletor indignava-se, o clima de melancolia era quebrado. Protegido, na medida do possível, pela camisa esticada sob o corpo, o fotógrafo Jhonatan Miranda resume o sentimento pelos artifícios necessários para a garantia da consulta para a esposa. “É uma humilhação!”, não hesita. “Quem chega 4h não consegue mais. É preciso fazer isso, se não... é o jeito”, opina, mais conformado, o pintor Francisco dos Reis Filho.

Passada a ligeira euforia pela reclamação por direitos conhecidos apenas através do papel, as feições se recolhiam novamente à companhia coletiva da música entoada pelo celular de um, dos muitos privados de conforto.

Com a cobertura apontada pela Sala de Apoio à Gestão Estratégica do Ministério da Saúde de apenas 16,43% da população de Belém e de 45,05% no Estado pelas Unidades Básicas de Saúde, não é difícil entender a existência das longas filas que se entrelaçavam pelas calçadas à frente da Unidade de Saúde do Marco. O grande acúmulo não permitia análise muito específica, porém, ao primeiro olhar, já se podia contar mais de cem à espera da sorte.

Jogando com a sorte

Vinda do Paar, bairro do município vizinho, Ananindeua, Cristiane Reis, conseguiu o último lugar na fila para a senha para dentista. Mesmo que a fila já comportasse uma quantidade muito maior, ela ainda tinha esperanças de conquistar uma das nove fichas. “Vim do Paar porque lá não tem dentista, a gente ficou com medo de sair de lá tão cedo com o neném porque é perigoso, mas não tinha mais o que fazer”, no colo da mãe e completando dez meses de vida ontem, Antony já conhecia o drama pela conquista de uma simples consulta. “Sei que são nove fichas que distribuem, espero que ainda dê tempo de eu pegar”.

Também com a filha no colo, tudo o que a cabeleireira Júlia Silva esperava era que o exame de raio-x de Natália, de nove anos, fosse avaliado pelo pediatra. “Como ela tinha que trazer esse retorno, tinha que vir cedo. Essa fila aqui é só pra pediatria”, anunciava a quem não parava de chegar. “Ontem eu cheguei 6h e não consegui pegar mais senha com clínico geral, tinha acabado. Aí tem que madrugar, mas é um absurdo a gente arriscar a vida da gente assim”, indignava-se a aposentada Emília Freitas, 73 anos.

“Esses dias eu vim pra cá pra essa Unidade do Guamá 5h e a ficha acabou quando chegou a minha vez”, aponta a doméstica Maria de Fátima, ao provar que o problema não se restringe a poucas unidades básicas de saúde. “Aqui tem que vir cedo se quiser ver dentista, pediatra, clínico geral. Isso quando não dizem que não tem médico. Já vim três vezes aqui e disseram que só ia ter médico depois do dia 30. Minhas férias já vão acabar e ainda estou aqui sem conseguir me consultar”.

(Diário do Pará)

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