A incômoda posição como último colocado no ranking de desenvolvimento humano despertou o município de Melgaço. Há três dias, manifestações e passeatas tem movimentado a cidade. Os protestos são por melhores condições de saúde, saneamento, trabalho e energia elétrica.
Ontem, entre 400 a 500 pessoas, segundo estimativas da Polícia Militar, foram às ruas de Melgaço mais uma vez. A passeata, iniciada às 17 horas, durou uma hora e foi do centro da cidade a bairros de periferia, terminando com um panelaço em frente à prefeitura do município.
Em um ranking feito pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), contido no “Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013”, divulgado na última segunda-feira, Melgaço, no Marajó, ostenta o título de cidade com o pior desenvolvimento humano do país. “A situação está uma calamidade. O hospital está prestes a fechar, pois não tem um esparadrapo”, diz a comerciante Valmina Farias, uma das coordenadoras da manifestação.
Às 16h, os moradores começaram a se agrupar numa das principais ruas do centro de Melgaço. Com panelas e latas clamavam pela participação da população. Com cartazes que pediam a saída do prefeito Adiel Moura, exigiam água de qualidade e reivindicavam melhores condições de estrutura para o município, os manifestantes diziam que aquele era o momento da mudança. Alguns ostentavam camisetas com os dizeres ‘amo Melgaço’ e ‘Sou Melgacense com muito orgulho’, confeccionadas especialmente para os protestos.
Às 17 horas a passeata saiu do centro em direção à periferia, com paradas em frente a locais onde estavam previstas obras que não saíram do papel, como uma creche que deveria ter sido concluída em setembro de 2012, mas onde só há um descampado.
Em frente ao hospital municipal os protestos foram mais intensos. Os manifestantes se dirigiram ao portão da instituição e doaram simbolicamente caixas de remédios. “Já que o hospital não tem medicamentos, vamos fazer uma doação pacífica”, disse Valmina, após um minuto de silêncio contra a situação do hospital.
Sob o olhar de uma equipe da Polícia Militar, a passeata se dirigiu ao bairro do Tucumã, um dos mais recentes e considerado um dos mais pobres da zona urbana de Melgaço. Em Tucumã mora Sueli Reis e três filhos pequenos numa casa de madeira, onde a distância do poço cavado na frente da casa e a ‘retrete’ do fundo do quintal não chega a nove metros. “Se não cavar poço não tem água”, argumenta.
O vice-prefeito José Osvaldo Viegas também foi alvo dos protestos. Os manifestantes pararam em frente a casa dele e criticaram a atuação de Viegas como vice-prefeito. Depois a passeata se dirigiu à Câmara Municipal, no momento mais tenso da manifestação. Entoando o hino de Melgaço alguns manifestantes tencionaram invadir a casa, mas foram desestimulados pelos coordenadores da passeata. Seis policiais militares se postaram em frente à Câmara e depois em frente à sede da prefeitura, ponto final da passeata, para impedir qualquer ato mais violento.
Principal alvo das manifestações o prefeito Adiel Moura não estava no município, mas os manifestantes obtiveram o compromisso dos vereadores de uma audiência nesta sexta-feira com uma comissão formada por 12 pessoas para receber as reivindicações dos moradores. Uma pauta com nove itens foi elaborada.
Na lista estão a construção imediata de um sistema de tratamento e abastecimento de água, iluminação pública para três bairros da periferia, retorno imediato da gratificação dos funcionários da saúde e de obras e um cronograma mensal de aquisição de medicamentos e material para o hospital municipal.
Prefeitos do Marajó vão cobrar recursos e atenção
Os prefeitos da região do Marajó devem se reunir nas próximas semanas para debater os entraves ao desenvolvimento da região e elaborar um manifesto elegendo as prioridades para serem encaminhadas ao poder público estadual e federal. Eles não aguentam mais o abandono e a participação negativa em listas sobre qualidade de vida. Os municípios marajoaras, com poucos recursos, vivem excluídos. Em 2012, Curralinho foi apontado pelo IBGE como o de menor valor de produção por habitante, R$ 2,2 mil por pessoa (IBGE/2010). Agora foi Melgaço, com menor IDH do país, e dos 16 municípios do Marajó, oito estão entre os 50 piores IDHs do Brasil.
Para o prefeito de Bagre, Cledson Rodrigues, esses dados refletem a ausência secular de políticas públicas voltadas para região. “Somos obrigados a nos ajustar dentro que é oferecido pelos governos. As singularidades da nossa região são solenemente ignoradas”, comenta Cledson, que irá mobilizar os prefeitos.
(Diário do Pará)
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