Nem o barqueiro Sidnei, muito menos o barqueiro Clóvis falam abertamente, mas deixam escapar nas entrelinhas a verdadeira função do que é conhecido como Porto Estário, no lado boliviano do rio Guaporé: ser o ponto de partida e chegada de produtos ilegais, como motos roubadas e cocaína. Do lado brasileiro está o Porto Conceição, em Rondônia. São dois corredores que se unem. Sem fiscalização são locais estratégicos para o tráfico e o contrabando.
Os portos ficam a poucas centenas de metros do quartel do Exército que protege o Forte Príncipe da Beira, uma construção histórica, herança portuguesa. Não faz parte das atribuições do Exército monitorar o tráfico de drogas. Mesmo se fosse, seria uma tarefa complicada. São apenas 68 militares no quartel. Não há sinal de Polícia Federal (PF) nem Receita Federal ao longo de vários quilômetros de rio. “Estamos sós aqui”, desabafa um oficial do Exército, justificando, inclusive, o forte arsenal de armamentos do quartel.
O rio Guaporé torna-se um corredor perfeito para o transporte de veículos roubados. O rio nasce em Mato Grosso e desemboca no rio Mamoré, que divide Brasil e Bolívia. É longe da luz do sol que o movimento se torna intenso.
“De noite é um perigo”, diz o piloto de embarcação Vilemar Silva, 51 anos. “Uma vez estava fazendo uma viagem à noite e foquei o rio pra ver melhor. Bati a luz num barco cheio de motos. De lá fizeram gestos pra que eu desligasse a luz e seguisse em frente”.
“Aqui se leva de tudo”, diz o dono de barco Lúcio Freire Neto, 49 anos. Desde os 14 Lúcio Freire navega pelos rios rondonienses. Já testemunhou vários transportes de contrabando e tráfico pela região. “É um corredor totalmente desguarnecido”, diz.
São dois pontos principais usados como rota. Um é o próprio rio Guaporé. Com quase 3 mil km de extensão, divide em grande parte Brasil e Bolívia. Em alguns trechos são menos de 700 metros de largura. Há trechos maiores e menores. Quase sempre o que há nos dois lados são florestas ou pequenas comunidades ribeirinhas. Um convite para a passagem de drogas e veículos roubados. Pode-se navegar por até 20 horas em alguns trechos sem contato com qualquer comunidade.
TRANSCOCAINEIRA
O outro ponto é a estreita estrada de barro esbranquiçado e poeirento que termina em Porto Estário na Bolívia e continua a partir de Porto Conceição, em Rondônia. Cercada por mata de ambos os lados, a estrada é quase deserta. A cidade mais próxima, Trindade, fica a 75 km a partir da margem do rio. Mas o terreno acidentado é via crucial para a droga que vem dos altiplanos bolivianos. Da beira do rio Guaporé, num arremedo de porto, a estrada passa por San Joaquim e alcança Santa Cruz de La Sierra, milhares de quilômetros adiante. Informalmente a estrada é conhecida como ‘Transcocaineira’, tal é a movimentação da droga por ela.
Do outro lado do rio, a estrada também acidentada, leva a municípios como Costa Marques. De lá, é possível se alcançar a BR-425, que leva ao município de Presidente Médici. Sem interferências e fiscalizações, as duas estradas unem Brasil e Bolívia no crime.
O que é transportado tanto pelo rio como pela estrada de terra espalha-se pelo Brasil afora. Inclusive o Pará, que recebe parte da cocaína produzida na Bolívia. Já as motos e carros roubados seguem para outras localidades bolivianas e paraguaias.
Esse percurso poderá ser ainda mais facilitado. Há planos que uma balsa faça a travessia entre os dois portos. “Aí vai ficar mais fácil ainda conduzir carros roubados”, diz Lúcio Freire.
(Diário do Pará)
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