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Fé em Nossa Senhora reúne 300 mil devotos em Vigia

Com os pés descalços e se jogando água a todo momento, o pescador Juracy Corrêa, 65, caminhava lentamente na frente da procissão. Mesmo com a expressão de cansaço, uma força o fazia seguir em direção a igreja Matriz Madre de Deus.  Nas mãos, um objeto qu

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Com os pés descalços e se jogando água a todo momento, o pescador Juracy Corrêa, 65, caminhava lentamente na frente da procissão. Mesmo com a expressão de cansaço, uma força o fazia seguir em direção a igreja Matriz Madre de Deus.

Nas mãos, um objeto que lembra um salva vidas envolvido em um terço. “É uma promessa que fiz há 50 anos quando sobrevivi a um naufrágio em mar aberto e pedi a Nossa Senhora de Nazaré que intercedesse por mim”. O pescador é um dos 300 mil devotos que participaram do Círio de Nazaré, em Vigia, ontem. A berlinda com a imagem da padroeira saiu da paróquia de São Sebastião, no bairro do Arapiranga.

Com o tema “Pela fé, como Jesus e Maria, sejamos obedientes ao Pai”, o Círio em Vigia, no nordeste paraense, completou 316 anos de tradição. A romaria transformou as ruas históricas de Vigia, em um “rio” de fé em Nossa Senhora de Nazaré. Ao longo de quatro quilômetros de via, por onde a berlinda passou, a cidade se “vestiu” de vermelho e branco para homenagear a santa. Toalhas, balões e pequenos altares eram as formas mais comuns de saudar a padroeira.

Às 7h15, a aposentada Maria Cecília Reis, 83, estava sentada e com o olhar atento para a paróquia de São Sebastião. “Eu não consigo mais acompanhar toda a procissão, mas daqui da frente de casa eu vejo Ela (Nossa Senhora) passar e agradeço por tudo o que fez por mim e pela minha família”.

Neste horário, a corda de 400 metros já tinha sido armada em formato de círculo e os promesseiros começavam a se posicionar para garantir a sua vaga. De um lado ficaram as mulheres e do outro os homens. O policial militar Anderson Lopes foi um dos que puxou a corda. “Eu estou aqui por causa de um ‘livramento’ que Nossa Senhora me deu e também pedindo pela saúde do irmão e de um amigo”.

A procissão começou às 9h, quando o entorno da paróquia de São Sebastião estava tomado pelo fiéis. Quando a imagem de Nossa Senhora foi colocada na berlinda, ornamentada com rosas vermelhas e flores amarelas, o silêncio da multidão se quebrou com uma salva de palmas.

Devoção

O padre José Carlos Cruz que está há 7 meses à frente da Igreja Matriz, comentou que ficou surpreso com o tamanho da devoção dos vigienses. “O Círio é uma expressão de luz acesa e que está impregnado no coração do povo de Vigia”.

Com uma câmera fotográfica nas mãos, o técnico em turismo Felipe Beckmam, registrava a forma como os vigienses se preparam para o Círio. “Dias antes da procissão, as pessoas começam a pintar a frente de suas casas e não é de qualquer cor, tem que ser com as cores do tema da festa do ano”.

A romeira Lourdes Carvalho, 27, levou a filha de 6 anos vestida de anjo para a procissão. Com os olhos cheios de lágrimas não soltava a menina do colo. “Quando ela tinha dois anos, ficou doente e os médicos não conseguiam diagnosticar a doença. Teve um dia eu vi a minha filha quase morta e pedi auxílio a nossa mãe e Ela me atendeu”.

A caminhada durou quase três e encerrou na Igreja Matriz Madre de Deus, onde uma missa foi celebrada pelo arcebispo de Castanhal Dom Carlos Verzeletti.

Tradição

Segundo o historiador Clerison Saraiva, a devoção em Nossa Senhora de Nazaré, em Vigia, começou no período da colonização portuguesa na cidade. “Alguns documentos comprovam que, por volta dos anos de 1700, os padres Jesuítas trouxeram uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré e introduziram a devoção na cidade. Diversas pesquisas estão sendo realizadas para confirmar isto, pois há documentos que também apontam que a devoção a padroeira já existia cerca de 30 anos antes desta data”, frisou.

Para ele, o Círio se tornou a cultura e a identidade da cidade. “O nosso Círio é tombado como patrimônio imaterial e cultural do Estado do Pará”.

(Diário do Pará)

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