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As dificuldades de se fazer ciência na Amazônia

Pela primeira vez em oito anos – e 47 premiações depois – uma representante da Amazônia é contemplada no programa “For Women in Science”, prêmio à inovação científica promovido pela L’Oréal Brasil em parceria com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciênci

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Pela primeira vez em oito anos – e 47 premiações depois – uma representante da Amazônia é contemplada no programa “For Women in Science”, prêmio à inovação científica promovido pela L’Oréal Brasil em parceria com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciências. Professora adjunta da Universidade Federal do Pará (UFPA), a paraense Joyce Kelly da Silva, foi uma das 356 inscritas de todo o país na edição deste ano e ficou com a única vaga destinada à área de química.

Formada pela mesma universidade à qual voltou há três anos como professora, Joyce trabalha há uma década com a linha de pesquisa em óleos essenciais da região amazônica, onde se dedica a estudar composição química e atividades biológicas para aplicação industrial, especialmente na área de dermocosméticos. Eles são produtos com ativos farmacológicos que agem nas partes mais profundas da pele. Possuem registro grau 2 na Anvisa - são classificados como cosméticos, porém com comprovação científica de seus efeitos e segurança, e classificados como produtos intermediários entre medicamentos e cosméticos. Os óleos de essências da Amazônia são um grande campo a ser explorado nessa área. Nesta entrevista ao DIÁRIO, a pesquisadora detalha a pesquisa vitoriosa, fala das dificuldades de financiamento e do trabalho da universidade na área de óleos essenciais e da relação feminina com a ciência.

P: Você foi premiada na área de ciências químicas com o projeto “Avaliação das atividades antioxidantes, citotóxica e inibitória da tirosinase de óleos essenciais da Amazônia oriental com potencial aplicação dermocos”. Esse nome tão grande consiste exatamente em quê?

R: Há dez anos eu faço parte de um grupo de pesquisa dentro da Universidade Federal do Pará que desenvolve pesquisas voltadas a plantas aromáticas e produtoras de óleo essencial da região amazônica. Nosso trabalho é inventariar as espécies que ocorrem aqui na região, avaliando a composição química dos óleos essenciais, seus princípios ativos presentes para, posteriormente, aplicar com algum enfoque seja farmacológico, cosmético, agronômico, entre outros. A proposta desse trabalho [o premiado] é a aplicação de óleos essenciais com atividades antioxidantes. A minha pesquisa será avaliar a atividade antioxidante desses óleos essenciais presentes aqui na Amazônia e também estudar a capacidade de eles inibirem uma enzima chamada tirosinase, que desempenha um papel na síntese da melanina.

P: Na prática o que isso deve significar...

R: A tirosinase é a enzima responsável pela síntese de melanina na pele. Frente à ação solar, a melanina age como um filtro absorvente de radiação ultravioleta e sequestra radicais livres. Por isso, é o principal mecanismo de defesa da pele contra a radiação. Quando o organismo começa a produzir melanina desenfreadamente provoca o aparecimento de manchas escuras na pele. Uma substância com atividade antioxidante inibidora da tirosinase pode ser usada como clareador e substituir a maioria dos compostos hoje existentes que trazem muitos efeitos colaterais como sensibilidade e irritação da pele. Além da atividade, entretanto, vamos analisar também a toxidade das espécies estudadas. Além de desenvolver a pesquisa, também temos a ideia de gerar uma produção, pretendemos capacitar recursos humanos e alimentar a produção cientifica relacionada a essa pesquisa.

P: O projeto disponibiliza U$ 20 mil para serem utilizados em um ano. Ao final desse período, é possível já se pensar em um produto comercial, por exemplo?

R: Ao final de um ano, ainda não. O trabalho é basicamente voltado para triagem, o que significa pegar vários óleos e checar quais têm esse potencial. A ideia é selecionar os que apresentarem melhor atividade e depois tentar fazer uma formulação à base destes. Nada nos impede de tentar começar a pensar a formulação de um produto, mas, pelo tempo, não há garantia. A triagem é um trabalho demorado. Envolve coleta, extração, identificação química. Só depois de tudo isso é que se pode pensar numa formulação que é, claro, de grande valia principalmente porque a proposta é trabalhar com espécies nativas da região que ainda não têm valor econômico agregado.

P: Esse é um prêmio feminino. Que avaliação a senhora faz da participação da mulher na ciência?

R: Acredito que as dificuldades têm sido diminuídas no decorrer dos anos. A própria proposta desse prêmio, criado há oito anos, foi justamente essa, incentivar a participação feminina no cenário da ciência. Digo que há uma mudança porque posso fazer um avaliação pessoal. Quando fiz a graduação em química, o número de mulheres nas carteiras era muito pequeno, nós éramos apenas quatro mulheres na turma e essa era a realidade de praticamente todos os cursos da área de exatas. Hoje, como professora, eu já vejo uma participação próxima da metade. A dificuldade que persiste até hoje não se limita ao fator gênero, mas a questões culturais e sociais.

P: Como anda hoje a pesquisa na área de óleos essenciais na UFPA?

R: O grupo de pesquisa a qual pertenço- o ‘Plantas Aromáticas e Oleogenosas da Amazônia’ , coordenado pelo professor José Guilherme Maia - é consolidado. Tem 30 anos e nesse período já inventariou mais de três mil espécies da região com mais de 600 contribuições. Conhecemos muitas espécies aromáticas que a maioria das pessoas sequer pode imaginar o valor. A família das piperáceas, seria um exemplo. Tão comum na região, a única representante da terra que tem valor econômico é a pimenta do reino. De uma forma ou de outra é um desperdício. Temos excelentes produtoras de óleos essenciais nativas e que, no entanto, não têm seu produto utilizado como forma de qualquer insumo.

P: Uma das grandes discussões que se faz hoje diz respeito à dificuldade de financiamento à pesquisa científica. Na região, existe um agravo?

R: Eu entrei na universidade como professora em 2010 e posso dizer que desde lá a gente não tem visto editais de apoio a financiamento para recém-doutores. Há uma estagnação. Agora, muito recentemente, é que o governo do Estado através da Fundação de Amparo à Pesquisa, lançou um novo edital de apoio a jovens pesquisadores em primeiros projetos e só. De maneira geral, os editais aos quais jovens pesquisadores podem concorrer a maioria das vezes são nacionais e reservam a mesma quantia para um projeto a ser desenvolvido em 36 meses. É muito tempo e pouco recurso e uma concorrência absurda a ser vencida. Isso ainda é um problema. Quando se chega à universidade [como pesquisador], a cabeça está cheia de ideias, há muita disposição e vontade, mas acaba-se esbarrando nesse impasse, o da falta de recurso. O principal financiador hoje continua sendo o Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento, o CNPq. Temos também o Ministério da Ciência e Tecnologia e no Estado, a Fundação de Amparo à Pesquisa. É praticamente só isso.

P: Quando o assunto e pesquisa científica, qual é o maior desafio?

R: Acredito que ainda seja manter o fluxo de publicações e consequentemente concorrer aos editais. Somos cobrados, temos pouco tempo, quando ingressamos na universidade temos que desenvolver nosso trabalho de atividades didáticas, temos que orientar alunos de iniciação científica e pós-graduação e além disso tudo temos de manter o nível de publicações para que possamos nos credenciar na pós graduação e também melhorar o currículo para alcançar a aprovação de projetos. Digo que é o maior desafio porque é uma reação em cadeia. Se você não tem financiamento, você não vai conseguir orientar, não vai conseguir produzir.

P: Também se fala muito na necessidade de desempoeirar o conhecimento, ou seja, tirar o conhecimento da biblioteca, dos livros, dos laboratórios e levá-los até à população. A senhora concorda?

R: Outro grande desafio para a pesquisa acadêmica atual é conseguir estreitar os laços entre a pesquisa e a indústria. O conhecimento científico que nós temos a respeito das espécies poderia gerar vários produtos, movimentar a economia da Estado, mas infelizmente não é algo que acontece. Nosso trabalho nos faz conhecer o cultivo dessas espécies, as características que devem ser mantidas, a padronização da extração dos óleos, mas não há aplicação. Hoje as pesquisas rendem, pouca ou nenhuma divisa, para o Estado, mas temos total interesse em fazer essa parceria para diminuir esse abismo. A proposta é agregar valor a essas espécies que a gente sabe que tem potencial de mercado e que ainda não geram renda.

(Diário do Pará)

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