Por muitas e boas razões, os paraenses devem acompanhar com especial atenção o leilão da 12ª rodada de licitações de blocos exploratórios de gás convencional e não convencional, que a Agência Nacional do Petróleo (ANP) deve realizar no final do próximo mês de novembro. Ao todo serão ofertados 240 blocos em sete bacias sedimentares. Abrangendo áreas de novas fronteiras, serão 110 blocos nas bacias do Acre, Parecis, São Francisco, Paraná e Parnaíba. Outros 110 blocos vão a leilão nas bacias maduras do Recôncavo e de Sergipe-Alagoas.
O interesse maior dos paraenses deve se concentrar na bacia do Parnaíba, localizada em sua maior parte no Maranhão, mas que ocupa uma parte do Piauí e uma estreita faixa de terra no Estado do Pará. Não uma faixa qualquer, mas precisamente a área de influência direta da província mineral de Carajás. Em caso de descoberta de hidrocarbonetos na bacia do Parnaíba, a futura explotação desses bens, seja pelas técnicas convencionais de produção ou não convencionais, terá desdobramentos profundos sobre os cenários econômico, social e ambiental da região e de todo o Estado do Pará.
Do ponto de vista econômico, nem é preciso exercitar a imaginação para compreender o que significará a descoberta de gás naquela região próxima a Marabá. “A proximidade com Carajás é um dado importante. Para verticalizar a produção mineral. É necessário energético de alta capacidade calorífica, e aí é que pode entrar em cena futuramente o gás da bacia de Parnaíba”, afirma o professor e pesquisador Estanislau Luczynski, do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará. A disponibilidade do gás certamente abrirá caminho para a indústria de transformação mineral no Pará, incluídos nesse processo a construção da siderúrgica Alpa em Marabá e a implantação do tão esperado polo metal mecânico do Estado.
Geólogo formado pela UFPA, o professor Estanislau Luczynski, detentor dos títulos de mestrado em carvão pela USP e de doutorado em plataformas de petróleo, também pela Universidade de São Paulo, revela que a bacia do Parnaíba tem avaliação de uma reserva convencional de 5 trilhões de pés cúbicos de gás. “É uma reserva considerável”, diz o pesquisador, acrescentando que naquela área já funciona uma termelétrica alimentada a gás natural com produção diária de 4,5 milhões de metros cúbicos. Em números aproximados, explicou, esse volume equivale à geração de 600 Megawatts (MW), energia suficiente para abastecer uma indústria eletrointensiva do porte da Albrás.
Estanislau Luczynski acrescenta que as possibilidades do Pará e da Amazônia, em termos de potencial para hidrocarbonetos, não se esgotam aí. Ele lembra, por exemplo, que a Bacia do Solimões, no Estado do Amazonas, já produz óleo convencional e gás, com reservas de 132 milhões de barris de petróleo. No Pará, a Bacia do Amazonas, não incluída na 12ª rodada da ANP, também dá margem a expectativas bastante favoráveis para o futuro.
Localizada em boa parte do território paraense, estendendo-se no sentido longitudinal pela calha do rio Amazonas e acompanhando seu curso em larga extensão pelas duas margens, até atingir a Baía do Marajó, a Bacia do Amazonas já tem estudo inclusive na Formação Barreirinha, onde há também potencial para gás em folhelho e até para petróleo. “A bacia guarda semelhança com áreas do Texas, já produtoras de gás em folhelho”, afirma o pesquisador.
Estima-se que as áreas em desenvolvimento de Japiim, Azulão (próximas a Manaus) e a Formação Monte Alegre (Pará) tenham reservas de 72 bilhões de metros cúbicos de gás natural. No caso da Formação Monte Alegre, o potencial para ocorrência é elevado devido ao fato de estar localizada acima da provável geradora, que é a Formação Barreirinha.
Gás em folhelho, convém explicar, é o shale gas dos americanos, ou simplesmente “gás de xisto”, denominação rejeitada no meio científico para o gás (e eventualmente o petróleo) extraído pela técnica de hidrofraturamento das rochas. Essa nova tecnologia, que está causando uma revolução no mercado energético mundial e deixando em estado de choque os ambientalistas, já não é mais algo distante da realidade brasileira. “O Brasil está entrando também na corrida pelo domínio dessa tecnologia para a produção de gás não convencional e petróleo”, afirma Estanislau Luczynski.
Gás: Brasil abre frente polêmica
O leilão da 12ª rodada de licitações de blocos, programado para o fim de novembro pela Agência Nacional de Petróleo, traz para o Brasil uma novidade e tanto. Pela primeira vez o governo brasileiro permite a exploração não convencional de gás. Ou, em outras palavras, está aberto o caminho para a futura produção do gás em folhelho (e eventualmente também de petróleo), o erroneamente chamado “gás de xisto”, cuja exploração comercial teve início nos Estados Unidos no início do século, depois de duas décadas de pesquisa e desenvolvimento.
Luczynski diz que a tecnologia consiste em perfuração direcional e hidrofaturamento do folhelho, um tipo de rocha ultracompactada onde ficam retidos o petróleo ou gás. Para liberar os hidrocarbonetos, perfura-se a rocha no sentido horizontal e se faz o seu fraturamento no sentido vertical, por meio do chamado “tiro com água”. Nesse processo usa-se água misturada com areia e solventes, cuja composição oferece riscos cancerígenos.
Daí a preocupação ambiental, dado o temor de contaminação dos recursos hídricos. Luczynski lembra que a França está proibindo o “gás de xisto” e, na Grã-Bretanha, há um forte movimento em curso para forçar também a sua proibição. “Como vai ficar o mundo? A rigor, ainda não se sabe”.
Aqui mesmo no Brasil, a comunidade científica, manifestando-se por meio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), já comunicou à presidente Dilma Rousseff sua preocupação com a decisão da ANP de incluir o gás em folhelho no próximo leilão - e pediu a sustação da medida por tempo suficiente para aprofundar estudos. O governo até hoje não se manifestou sobre a proposta.
O dado concreto, hoje mundialmente reconhecido, é o impacto econômico que a nova tecnologia vem provocando. Os Estados Unidos têm hoje 16 bacias produtoras, e já se prevê que, em 2020, 30% de todo o gás produzido em território americano será shale gas. Os EUA se tornarão, então, independentes das petroditaduras do Oriente Médio e passarão à condição de exportadores líquidos.
Hoje, o shale gas custa, nos Estados Unidos, um quinto do que custa o gás convencional e um quarto do preço médio praticado no Brasil. “Os preços internacionais estão sendo derrubados. O impacto é tremendo. Quem vende mais caro tem medo de perder espaço no mercado”, afirma Luczynski, acrescentando que, do ponto de vista estritamente econômico, o Brasil está bem situado nesse novo cenário, já que detém a quarta maior reserva de óleo em folhelho do mundo. Os três primeiros lugares pertencem, pela ordem, aos Estados Unidos, Rússia e Congo (África).
Uma nova fronteira para o gás e o petróleo
Para o pesquisador da Universidade Federal do Pará, os próximos dez anos deverão definir uma mudança significativa no eixo da produção de hidrocarbonetos no Brasil. Entrando a Baia de Campos, no Rio de Janeiro, em fase de amadurecimento, com o consequente declínio dos níveis de produção, ele considera que a nova área produtora de gás e petróleo será provavelmente a província equatorial, que vai do Ceará até a região de Pirabas, no litoral paraense.
A província equatorial, segundo Estanislau Luczynski, cobre toda a faixa litorânea numa extensão que se projeta sobre o mar até cerca de 200 a 300 quilômetros da linha costeira. Nessa área, ele lembra que já se identificaram ocorrências de petróleo e gás em frente aos municípios de Viseu e Salinópolis, no Pará.
As Regiões Norte e Nordeste do Brasil têm muita semelhança, segundo ele, com áreas já produtoras da costa da África, como Gana, entre outras. Ele observa que o petróleo descoberto nas bacias próximas daqui – como o de Salinas, na Bacia Pará-Maranhão, por exemplo – é um tipo de óleo mais leve que o da Arábia Saudita. “No momento, a Bacia Pará-Maranhão está em avaliação e ainda falta muito estudo para se tornar convencional”, acrescenta.
(Diário do Pará)
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