Da cerca de madeira da casa simples, a visão não poderia ser mais inusitada. Sempre que a notícia de mais uma fuga se espalha pela vizinhança da rua Maria de Freitas Guimarães, no município de Marituba, a única alternativa para Isac Silva é se prender dentro de casa com toda a família enquanto os detentos estiverem soltos do lado de fora. Vizinho do Presídio Estadual Metropolitano I, o medo é companhia constante. “Segurança é o que falta por aqui”.
Para além dos assaltos rotineiros na área que acaba por servir de rota de fuga para quem acaba de cometer um crime, como o da última quarta-feira – quando 31 internos teriam fugido por um terreno próximo ao presídio após o desencadeamento de uma rebelião – são os que mais preocupam quem mora às proximidades do presídio, principalmente quando a moradia é vizinha do grande terreno vazio por onde os detentos costumam fugir. “A área de fuga é esse mato, é um sítio que vai dar lá na Alça Viária”, comenta a auxiliar administrativa Michele Martins. “A gente só mora aqui porque não temos pra onde ir”.
Sem que seja necessária muita explicação, da cerca instalada bem em frente à casa da família, a placa de ‘vendo’ deixa claro o que Michele anuncia sem ressalvas. Ainda que o presídio já estivesse instalado nas proximidades desde quando foi morar no local, há seis anos, a mulher não esperava ter que improvisar, dentro da própria casa, esconderijos para os momentos de confronto do lado de fora do grande muro branco que cerca a penitenciária. “O meu filho já sabe, quando começa a ouvir alguma coisa ele vai para debaixo da cama. É muita bala e ele tem problema no coração. O meu medo é que ele fique muito nervoso e passe mal numa situação dessas”, preocupa-se. “As crianças já ficam até com trauma dessas coisas”.
Ainda no trabalho quando os primeiros tiros disparados no momento da rebelião dos internos do PEM I puderam ser ouvidos, na última quarta-feira, Michele não precisou pensar muito para voltar o mais rápido possível para casa. “Minha filha ligou e fiquei em pânico. O helicóptero já estava voando baixo, minha cunhada disse para eu não vir porque poderia acabar levando algum tiro, mas sabe como é coração de mãe”, lembra, ainda apreensiva. “Os presos, quando fogem, querem ir pra longe. Mas a gente tem receio de que acabem fugindo para dentro de casa numa hora dessas. Aqui é só na misericórdia”.
O receio de que alguma coisa fuja ao costume também é o que preocupa a ambulante Olinda dos Santos. Moradora da rua Maria de Freitas Guimarães há doze anos, ela já acompanhou pelo menos três fugas da penitenciária vizinha. “Já teve fuga três vezes, mas eles vão lá pra trás, fogem por aquele mato, eles não vem para esse lado daqui”, confia. “Não dá para dizer que aqui é muito seguro porque sempre fica aquele medo de eles acabarem vindo pra esse lado e pular dentro da casa da gente”.
Ainda que, receosa, Olinda aponte certa tranquilidade na região, não nega que a qualquer notícia de rebelião ou fuga, as preocupações com a própria segurança aumentam. “Quando viemos para cá esse presídio não existia aí. Logo quando ficamos sabendo que ia ter isso aí a gente ficou preocupado porque não sabia o que podia acontecer”, lembra. “Quando tem fuga a gente não fica muito seguro”.
No que depender do planejamento da Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará (Susipe), conforme decreto publicado no Diário Oficial do Estado no último dia 19 de agosto, Olinda terá mais uma penitenciária na vizinhança. Segundo o decreto, um terreno com 8.925 m² de área abrigará uma nova unidade prisional feminina.
Também moradora antiga da área, a comerciante Adélia Oliveira não esconde a preocupação com a segurança. “A gente fica um pouco preocupada sim porque não deixa de ter o perigo deles fugirem para cá”, aponta, ao lembrar que as fugas costumam acontecer no final da rua, aos fundos da penitenciária. “A gente fica logo sabendo porque começa o barulho, é carro de polícia passando, ficamos preocupados”.
(Diário do Pará)
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