Respeite os mais velhos. Esse é um dos primeiros valores ensinados às crianças. Seja em países remotos, em culturas exóticas ou em sociedades diferentes, os idosos representam um patamar que exige admiração. Estes eternos jovens valorizam sua independência, sua capacidade de realizar as atividades básicas da vida diária (fazer compras, pagar as contas, usar meio de transporte, cozinhar) e sobreviver para o autocuidado e o manejo instrumental da vida.
Afinal, autonomia significa o exercício da livre escolha, liberdade individual e independência moral. Refere-se à liberdade de experimentar os eventos de vida com harmonia com os próprios sentimentos e necessidades. O direito à autonomia na terceira idade é o assunto de mais uma matéria da série ‘Agente do Bem’ - iniciativa do Projeto Orgulho de Ser do Pará que veiculará no jornal DIÁRIO DO PARÁ e na RBATV, ao longo de 45 dias, um total de 24 matérias tratando do universo da terceira idade e também das pessoas com deficiência no Estado. Contextos de urbanidade e ações positivas de personagens inspiradores e agentes que promovem a inclusão e o acesso a direitos e à cidadania estarão em pauta. A meta é incentivar o engajamento de paraenses em ações para construir cidades melhores, combatendo problemas que estão ao alcance de todos, para muito além da ação do poder público. Desse modo, o Grupo RBA abre campanha para formar um exército de ‘Agentes do Bem’ que transforme o Pará.
Destino próprio
Graça Wanzeler sabe bem o que ser independente significa. Aos 64 anos, mais velha de uma família de sete irmãos, começou a viajar ainda na época de faculdade. Quando as condições financeiras melhoraram, saiu do Brasil pela primeira vez, ao lado dos filhos. A sensação de descobertas despertou uma paixão intensa por viagens e ela não parou mais. Já foi diversas vezes à Europa, chegando a incluir o norte da África e o Oriente Médio. Em seus trajetos, ela sempre busca reunir diversão, história e religião. “Fiquei muito emocionada quando fui à Terra Santa, em Jerusalém. Para mim, que sou católica, foi inesquecível”, diz.
A ideia é, duas vezes ao ano, sair um pouco da rotina e viajar. As parceiras são várias, sempre a acompanhando nas excursões. “Desde 2007 temos um grupo que planeja os destinos juntos. A maioria são pessoas mais velhas que querem aproveitar o tempo e a independência”, conta a aposentada.
Em Belém, o Centro Social e Cultural Palácio Bolonha, organização não-governamental localizada no bairro de Nazaré, é seu refúgio de aprendizado. Lá ela já fez cursos de informática, memorização e iniciará a dança de salão e o pilates. “Comecei por indicação de uma amiga que já frequentava e me identifiquei muito. Adoro a estrutura, os professores, as aulas e principalmente as festas”, conta. Além disso, mantém outros compromissos no âmbito religioso integrando a organização da festividade de Santa Luzia, no bairro do Jurunas, e confeccionando o manto da Virgem de Nazaré no Círio de Macapazinho, distrito de Castanhal.
Não importa aonde vai. Graça sempre se desloca sozinha. Ativa, ela anda de ônibus para a maioria dos lugares aonde vai. No geral, diz que não tem problemas com o atendimento e os serviços prestados, mas reconhece que parte da valorização do idoso não é frequente. “Nunca fui desrespeitada por motoristas, mas também é difícil alguém se levantar e oferecer o assento. Meus filhos brincam que é porque eu pareço mais nova”, sorri.
“Acho que o caminho para valorizar a autonomia é ter paz, calma e fé, acreditando em Deus e em si mesmo. Meus filhos me incentivam muito a sair, fazer minhas coisas, manter minha vida agitada, mas bastante saudável”, afirma.
Novos valores
A maioria dos idosos é capaz de tomar decisões e fazer julgamentos pertinentes sobre como conduzir sua vida, incluindo saúde e lazer. Por isso, sempre que mostramos interesse à história de vida e reforçamos a importância da autonomia dos idosos, conseguimos estabelecer um bom canal de comunicação, baseado na confiança e no respeito., explica o promotor de justiça Waldir Macieira, responsável pela promotoria do idoso e da pessoa com deficiência no Pará.
“Precisamos nos dedicar mais a esse debate. Conhecer para tratar o idoso com maior dignidade e paciência, com as prioridades às quais ele tem direito. Isso também é papel da sociedade, um comportamento que está entre o direito e a moral. Partindo da reeducação da população, principalmente dos jovens, conseguiremos fomentar de forma adequada a valorização que desejamos”, ratifica.
Ajudar sem menosprezar é o que faz diariamente Vanja Bardier, 56 anos, dona de casa e consultora de uma rede de cosméticos. Líder da Pastoral da Pessoa Idosa na Paróquia de Santa Cruz, em Belém, ela mantém hábitos de cuidado, atenção e carinho com os mais velhos.
“Sinto que devo ajudar os outros porque isso também me faz crescer. Aprendo muito com os idosos, gosto da companhia deles. Se encontro algum na rua precisando de ajuda eu fico por perto, acompanho nos hospitais aqueles que estão sozinhos, mas principalmente trato-os com respeito. Com esse convívio a gente aprende a ser mais amorosa, generosa”, diz.
E bastam poucos minutos de conversa para ter certeza de que Vanja vai além das próprias narrativas. São tantos os valores solidários agregados em sua rotina que, para ela, vivenciar o outro é normal. De amizade fácil, sempre disposta a ajudar, ela tem como uma de suas maiores qualidades justamente o que os idosos mais desejam atualmente: saber ouvir.
“Precisamos dar mais atenção às pessoas, perceber o que elas querem no momento, valorizar sua autonomia também, observar. As pessoas hoje não têm muita paciência para se relacionar, tratar os idosos com dignidade. E isso nos deixa fechados. O cuidado de ouvir, a sensibilidade de perceber o outro é muito importante. Tento passar isso para as minhas filhas porque acredito num mundo melhor. Acredito que as pessoas podem mudar e passar a ser mais solidárias. É com o amor que a gente consegue as coisas”, garante.
(Diário do Pará)
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