Quando os passageiros perceberam o que estava acontecendo, os comentários iam do espanto à admiração. Não é sempre que se vê um motorista de ônibus, que também faz a função de cobrador, interromper o trabalho para ajudar uma senhora idosa.
Os cabelos brancos não deixam enganar: a idade chegou. O que não significa que a idosa tenha deixado de lado as atividades do dia a dia. Pegar ônibus é uma delas. Esperar o micro-ônibus da linha Sacramenta-Presidente Vargas (Bernal do Couto) dirigido por Nilson Martins Filho, o seu Martins, de 53 anos, também.
É ele que pelo menos cinco vezes por semana a auxilia na entrada e saída do coletivo.
Alvo de reclamações dos passageiros e, sobretudo, dos mais velhos, os tratamentos dispensados por motoristas de coletivos frequentemente recebem as mais variadas críticas, que podem ser resumidas à falta de educação. Mas o problema da mobilidade urbana na terceira idade não se resume só a questões de respeito: ela é um direito garantido, com regras claras muitas vezes ignoradas. Esse é mais um dos temas abordados pela série de matérias ‘Agente do Bem’, que o Projeto Orgulho de Ser do Pará veicula ao longo de 45 dias no jornal DIÁRIO DO PARÁ e RBATV. São exemplos de bom tratamento do universo da terceira idade e de pessoas com deficiência.
Incentivando indivíduos a se engajar em ações para construir cidades melhores, combatendo problemas que estão ao alcance dos cidadãos, para muito além da intervenção do poder público, o Grupo RBA está em campanha para formar um exército de ‘Agentes do Bem’ que transforme o Pará num estado mais civilizado e humano.
Respeito ao volante
Furar a parada, frear bruscamente, não parar na para idosos, não esperar que eles sentem para seguir viagem, recusar pegar passageiro com a alegação de não ter troco. A lista de maus-tratos a idosos é extensa e já criou um estereótipo para a categoria de motoristas. Seu Martins, no entanto, foge à regra. “Eu sou do interior de Minas Gerais, onde minha família cuidou de mim e me ensinou a tratar bem todo mundo”, diz. Para ele, não faz sentido ser mal-educado com ninguém. Manter os ensinamentos da família em meio ao estresse do trânsito de Belém é um desafio. O aprendizado veio com o tempo. “Já aconteceu, há uns 30 anos, de brigar com um passageiro, mas você vê que não é por ai”, lembra. Hoje a postura é diferente. “Quero que o passageiro fique satisfeito e que vá em paz”.
Por ser educado e solícito, há quem espere especificamente pelo micro-ônibus de Seu Martins. “O passageiro já se sente bem com a gente”, justifica. E não é só com os idosos que seu Martins dedica atenção especial e cuidados. “Esses dias um cadeirante queria ir para a Almirante Barroso, mas estava sozinho. Desci, deixei o carro com freio de mão puxado, liguei o elevador, ajudei a descer e atravessei com ele a Mariz e Barros”, conta.
“Nesse dia, dois ou três passageiros me deram parabéns”. Só que nem todos ficam satisfeitos com a boa ação. Para alguns, é tempo perdido em um dia tão corrido. Mas para Seu Martins, é a certeza de cumprir com o papel de cidadão e profissional. “Dá pra fazer, é só querer. Você vai fazer uma coisa boa que não vai te custar nada, só dois ou três minutos”, sintetiza. Pela postura exemplar, há aproximadamente 15 anos, recebeu uma carta com elogios da antiga Companhia de Transporte de Belém (CTBel), que relatava o agradecimento de um passageiro.
O motorista faz questão de ressaltar que não é o único que preza pelo bem-estar dos passageiros. “Tem várias pessoas, não só eu, muitos outros colegas motoristas que trabalham com educação e tem passageiro que espera por que sabe que vai ser bem tratado”.
Entre os vilões
As reclamações envolvendo transporte coletivo são as principais queixas recebidas pelo promotor de Justiça de Defesa dos Deficientes e Idosos, Waldir Macieira da Costa Filho.
O promotor esclarece que são garantidos três tipos de gratuidades no transporte. “No transporte urbano da Região Metropolitana de Belém não existe limite para idosos no ônibus, desde que identificado pela carteira de identidade ou cartão de Passe Fácil. O idoso pode usar quantas vezes desejar para fazer a locomoção”. Há ainda as gratuidades intermunicipal e interestadual.
Para a gratuidade intermunicipal, é preciso comprovar ter 65 anos completos ou mais. Neste caso, a gratuidade é limitada a 15% do total de assentos do ônibus. “É preciso chegar com antecedência de 30 minutos. Depois desse horário, o empresário poderá vender as cadeiras destinadas à gratuidade para qualquer pessoa”, pontua Macieira. A gratuidade é abrangente aos terminais rodoviários e aquaviários.
É com este direito que o aposentado Paulino Rodrigues, 70 anos, locomove-se no itinerário Colares-Belém-Colares, quando vem à capital visitar os filhos ou resolver alguma pendência. “Eu só vou quando há necessidade mesmo, e sempre vou de graça”, comemora. “Eu tenho que aproveitar o direito que eu tenho”, brinca.
“É um direito adquirido. É bom, muito bom, bom mesmo. Só viajo quando preciso, mas poderia aproveitar mais e ir conhecer outros lugares”, avalia o pedreiro aposentado que ainda faz bicos para aumentar a renda. “Eu esperei por muito tempo isso. Antes eu tinha que desembolsar o dinheiro da passagem”, lembra. O percentual de 15% das passagens para o transporte intermunicipal abrange idosos, portadores de deficiência, policiais militares, bombeiros e carteiros em serviço. Quando ultrapassar essa quota, o idoso paga a tarifa normal caso já esgotada a gratuidade.
Já para a gratuidade interestadual, são destinadas duas vagas por viagem, sendo necessário chegar com uma hora de antecedência. “São dois assentos exclusivos para idosos. Se as cadeiras destinadas à gratuidade já estiverem ocupadas, o idoso tem o direito de pagar 50% do valor total”, explica.
Para o presidente da Comissão de Defesa do Direito do Idoso da OAB-PA, Antônio Miranda, é preciso que a fiscalização no cumprimento da lei seja intensa, para a garantia dos direitos dos idosos. Ele acredita que no país as pessoas da chamada terceira idade sofrem preconceito por uma questão cultural. “Só aqui na sociedade brasileira existe essa discriminação. O país ainda não se conscientizou que precisa tratar o idoso com respeito e educação. O idoso ainda é muito discriminado, ainda não houve uma conscientização natural”, avalia.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar