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Delicada e Desigual

Noelma e Natália têm a mesma idade, 29 anos. Além do mesmo corte de cabelo, bem curto, há o sorriso que cede lugar às lágrimas - e vice-versa - e uma data sabida de cor. O dia da descoberta do câncer de mama, a partir de um nódulo que invadiu não só os co

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Noelma e Natália têm a mesma idade, 29 anos. Além do mesmo corte de cabelo, bem curto, há o sorriso que cede lugar às lágrimas - e vice-versa - e uma data sabida de cor. O dia da descoberta do câncer de mama, a partir de um nódulo que invadiu não só os corpos como tudo o mais ao redor da vida delas. “Descobri no dia 29 de maio de 2013”, diz Natália. “O meu foi descoberto no dia 24 de outubro de 2012”, lembra Noelma.

De certa forma, Noelma e Natália fazem parte de uma parcela de mulheres que podem combater a doença por terem sido diagnosticadas até com relativa rapidez. Não é o caso da maioria das mulheres paraenses. Não há mamógrafos em número suficiente para atender as necessidades das mulheres do Estado.
“Nem 10% das mulheres do Pará são cobertas pela mamografia. Em parte por desconhecimento e em parte pelo acesso difícil, já que não temos mamógrafos na rede SUS. Oitenta por cento dos aparelhos estão na rede privada e só são acessíveis por planos de saúde”, diz o especialista em mastologia Fábio Botelho de Almeida, chefe do setor de mastologia oncológica do hospital Ophir Loyola.
Como em outros setores da vida social brasileira, é por conta de distorções desse tipo que a taxa de sobrevida é maior entre as mulheres atendidas na rede privada que na rede pública. “Por lei toda mulher tem direito a um exame anual a partir dos 40 anos, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), mas nem sempre isso ocorre”, diz Botelho.

Noelma mora no município de Santa Izabel, Região Metropolitana de Belém. Antes de receber o diagnóstico definitivo, depois de ser submetida a duas biópsias, tinha a sensação de algo errado no próprio corpo. Uma noite sentiu uma dor estranha no seio direito, enquanto dormia. No dia seguinte, à tarde, assistindo televisão, lembrou o que sentira. “Fui para a cama e fiquei rolando de um lado a outro para ver se sentia a mesma dor”. Ela veio.

A mãe e o marido de Noelma foram informados da dúvida que se instalou em Noelma, uma mulher pequena, de voz acelerada e óculos estilizado. O marido a aconselhou a fazer os exames necessários, mesmo com a situação financeira complicada. Noelma foi a um posto de saúde e, de lá, orientada a fazer a mamografia, o exame que pode detectar se o câncer realmente se tornou o hóspede indesejável no corpo de uma mulher. Noelma abrigava esse hóspede.

Depois da consulta com um mastologista, chorando no táxi de volta para casa junto à tia que a acompanhara, Noelma descobriu possuir uma família disposta a tudo para lhe ajudar. “Minha filha de dez anos, por um descuido meu, acabou lendo o resultado do exame. Quando percebeu o que era e me viu chorando, segurou minha mão e disse que não iria mais largar”, lembra.
“Se for para chorar, não conte comigo, mas, se for para lutar, vamos juntos”. As palavras do médico ressoavam em Noelma. A decisão de lutar foi mais forte, mas isso não impediu que chorasse por 15 dias.

Vieram o tratamento, as mudanças de hábito, o enfrentamento. O câncer estava localizado apenas na mama. Noelma fez oito sessões de quimioterapia. Dezenove dias depois, os cabelos começaram a cair. A decisão de raspar a cabeça demorou um pouco, mas se tornou inevitável.
“Me senti como a Carolina Dieckman na novela. Meu marido começou a cortar meus cabelos e eu percebia que ele segurava o choro. Eu comecei a chorar logo depois. Minha mãe veio e disse que iria cortar, pois ela é quem fazia isso quando eu era criança. Só que não conseguiu ir até o fim, ela não conseguia me imaginar careca. Quando terminou, meu marido beijou minha cabeça e disse que eu continuava linda”.

Segundo o Inca (Instituto Nacional de Câncer), o câncer de mama é o segundo mais frequente no mundo e o que mais atinge as mulheres, sendo responsável por 22% dos novos casos da doença a cada ano. O grande investimento em campanhas de conscientização tem um bom motivo: quanto mais cedo for diagnosticado, maiores são as chances de recuperação. Desde a década de 90, o “Outubro Rosa” foi escolhido como o mês dedicado à prevenção do câncer de mama, diante da preocupação com a incidência da doença.

No Brasil, as taxas de mortalidade por câncer de mama continuam elevadas, muito provavelmente porque a doença ainda é diagnosticada em estágios avançados. Na população mundial, a sobrevida média após cinco anos é de 61%.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde ( OMS), a incidência é maior em mulheres a partir dos 40 anos. No Pará, o programa de Prevenção do Câncer de Mama e do Câncer do Colo de Útero da Secretaria Estadual de Saúde (Sespa) tem como focos principais a atenção primária, com a detecção, controle e prevenção da doença, além de alertar que o autoexame não deve substituir o acompanhamento clínico adequado.

Dados atualizados até fevereiro de 2013 pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, mostram que no Pará, entre 2000 e 2012, 1.974 mulheres foram diagnosticadas com câncer de mama. Dados do hospital Ophir Loyola, referência no tratamento de câncer no Pará, mostram que, dos 3.271 pacientes com câncer atendidos em 2012 na instituição, 492 corresponderam ao câncer de mama. Oitocentos casos foram diagnosticados pelo hospital este ano.

Natália não quer ser apenas uma estatística. O lenço na cabeça indica que nem todas as vitórias foram alcançadas ainda, mas ela persiste, desde o dia perdido em abril em que ela sentiu um nódulo palpável de uns 7 cm. Era um domingo e Natália assistia a um filme. Depois, ao deitar, sentiu um desconforto e percebeu o caroço vivo num dos seios.
“Foram três ultrassonografias e uma ressonância e mais uma biópsia até a certeza definitiva”, lembra Natália. “Os médicos todos diziam que não era câncer”. Natália recebeu a informação da disponibilidade do resultado dos exames por mensagem de celular. Foi ao site do laboratório e leu o resultado. “Fui chorar no banheiro do trabalho”, diz.
Para a delegada Socorro Maciel, o câncer de mama foi um alerta. Era preciso desacelerar. Aos 54 anos, era quase uma viciada em trabalho. A família a via pouco, o tempo era sempre corrido. “Eu acabava me preocupando mais com a vida dos outros que a minha própria”, diz.

O câncer da delegada foi diagnosticado em agosto de 2011. As primeiras sensações foram as dores nas mãos, constantes. Fez reposição hormonal e aí o câncer se instalou. “Já estava avançado, com nove centímetros, do tipo agressivo”. Socorro Maciel passou por oito sessões de quimioterapia. “A primeira sessão me deixou muito mal, tive que ser internada, minha resistência baixou muito, tomei vários medicamentos”. De início, Socorro Maciel não conseguiu fazer a reconstituição da mama, por reações adversas do organismo. “Só fiz em abril de 2012”, diz ela.

Socorro Maciel chega a dizer que o câncer foi uma bênção, por ter feito com que mudasse de vida. Noelma e Natália não chegam a tanto, mas perceberam que há vida depois da descoberta do tumor. “Descobri o amor da minha família e a importância enorme disso”, diz Noelma. “Cada dia é um novo dia”, reafirma Natália.

(Diário do Pará)

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