Na manhã de ontem, a Tropa de Choque da Polícia Militar impediu que servidores da educação, em greve há cerca de um mês, tivessem acesso à Secretaria Estadual de Educação (Seduc), onde outro grupo de servidores fazem ocupação desde a última quarta-feira.
Os militares usaram de violência e várias pessoas foram atingidas com spray de pimenta no momento em que tentavam entrar com alimentos para atender cerca de 150 manifestantes que passaram a madrugada acampados na secretaria.
No momento em que a equipe de reportagem da RBATV tentava buscar informações com os próprios policiais, foi atingida com spray de pimenta. A repórter Sancha Luna, o cinegrafista Waldomiro e o motorista Antônio Lima passaram mal e chegaram a vomitar. A violência aconteceu por duas vezes.
Desde as 5h, quando Silvia Letícia, secretária do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Pará (Sintepp) retornou à Seduc após sair para tomar banho em casa, não conseguiu mais se juntar aos colegas grevistas. Segundo ela, vários PMs que também passaram a noite no prédio não permitiram a entrada dela e de nenhum outro manifestante. “A ordem é de prisão para todos que tentarem entrar ou sair. A situação é tensa. Os companheiros que estão lá dentro estão em cárcere privado. O que é isso? Somos trabalhadores, e não bandidos”.
Um dos coordenadores do Sintepp, Abel Ribeiro, diz que foi detido pelos policiais ao tentar entrar. Ele afirma que estava apenas com sacolas contendo pães para o café dos colegas, mas foi impedido de forma violenta. Militares da Tropa de Choque, Cavalaria, Canil e Rotam faziam barreira munidos de escudo, armas e spray de pimenta. “Polícia é para ladrão, para professores, não!”, gritavam os professores.
Durante boa parte da manhã, os manifestantes tentavam negociar com os policiais a entrada de alimentos para cerca de 120 professores e servidores e 30 estudantes. Somente após duas horas, foi permitida a passagem de água. O almoço foi liberado horas depois. “Estamos com fome e sede desde ontem (quarta-feira). Eles ainda cortaram a água e não podemos sequer lavar o rosto. Graças à luta dos colegas aqui fora, a situação lá dentro está tranquila e a nossa integridade física está resguardada”, detalhou a estudante Nilce Gonçalves.
Protesto
Os dois sentidos da avenida Augusto Montenegro foram bloqueados por duas horas. Quem vinha de Icoaraci precisou ter paciência ao dividir uma única via com os veículos que vinham do centro da cidade. Após quatro horas e meia de protesto, a via foi desobstruída.
A aluna Carolina Anjos, da Escola Estadual Santana Marques, no conjunto Panorama XXI, e também membro da Assembleia Nacional de Estudantes Livres (Anel), se uniu à manifestação. Para ela, “mesmo sendo prejudicada com a greve, a atitude do governo é o reflexo da falta de estrutura e investimento”. O vereador Fernando Carneiro (PSol) disse não entender a intransigência do governo em não acabar com a greve, já que a justiça decretou que a paralisação não é ilegal.
Os gestores da Secretaria de Estado de Promoção Social, Alex Fiúza de Melo, e de Administração, Alice Viana, reafirmaram, durante coletiva na manhã de ontem, no Centro Integrado de Governo (CIG), que o governo do Estado só voltará a negociar com os professores quando eles voltarem às salas de aula e desocuparem a Seduc.
Segundo a Sead, das reivindicações da categoria, “apenas um dos cinco itens reivindicados não foi atendido pelo governo. Trata-se do retroativo do piso do magistério”. Os secretários afirmaram que a Polícia Militar teria recebido ordem de “isolar o prédio para preservar o patrimônio publico e a própria integridade dos manifestantes”.
Alex Fiúza disse que o diálogo com a categoria sempre existiu. “A invasão de um prédio público é um ato radical. Quem rompeu o diálogo foi o Sintepp com o início da greve porque a categoria não esperou a mesa de negociação, que já estava inclusive pactuada”, finalizou.
Negociação
Por outro lado, a secretária do Sintepp repudiou a reposta do governo. “Não podemos aceitar essa posição do governo. Se eles pedirem uma nova reunião, é óbvio que desocupamos aqui”, afirma Silvia Letícia.
Com a chegada das caravanas de professores, na tarde de ontem, vindas de municípios como Bragança e Castanhal, o grupo ganhou força e decidiu por novo fechamento das duas pistas da Augusto Montenegro, às 15h30, para realização da assembleia deliberativa que definiu por unanimidade pela continuidade da greve e da ocupação na Seduc.
A categoria decidiu que só desocupará o local após o retorno das negociações com o governo. “Não existe isso de que eles já cumpriram 90% das reivindicações. Por que estaríamos aqui, nos desgastando, se isso já tivesse acontecido?”, disse Silvia Letícia.
Uma reunião entre governo e manifestantes deve ocorrer às 11h de hoje. No site da Agência Pará, foi publicada notícia de que o Ministério Público do Estado recomendou ao governo o corte do ponto dos grevistas, assim como o desconto da remuneração relativa aos dias parados dos docentes que se recusarem ao retorno imediato das atividades. A recomendação, diz a notícia, foi da promotora Maria das Graças Corrêa.
Promotor vai apurar conduta dos policiais
Um inquérito policial militar (IPM) vai apurar a truculência praticada por policiais militares durante a ação ocorrida na manhã de ontem em frente à Secretaria de Estado de Educação (Seduc) que resultou na agressão de professores em greve e jornalistas. “Vimos no noticiário que policiais militares impediram a entrada de comida para os grevistas que estavam exercendo o direito constitucional de greve dentro da secretaria e jogaram indiscriminadamente spray de pimenta em professores e jornalistas. Tudo será apurado no inquérito”, avisa o promotor militar Armando Brasil, que solicitou a abertura do inquérito. Brasil solicitou as imagens do ataque à RBATV, que serão analisadas. As investigações deverão seguir por duas linhas. “Do meu ponto de vista, não havia a necessidade do uso desse tipo de substância contra os professores e havia poucas pessoas e muitas senhoras inclusive. Por outro, é preciso saber quem proibiu a entrada deles na sede da Seduc. A greve é um instrumento legal e não pode ser tratada com arbitrariedade”, detalha.
A Corregedoria de Polícia, que foi acionada pelo promotor, terá 40 dias para entregar o relatório sobre o ocorrido e, em seguida, a promotoria decidirá se oferecerá ou não a denúncia.
Caso seja considerado procedente a abertura do inquérito, os policiais militares envolvidos poderão responder por crimes como improbidade, abuso de autoridade e lesão corporal. “Vamos apurar principalmente a cadeia de comando daquela ação e a conduta do oficial que espirrou o spray de pimenta nos manifestantes”, diz Armando Brasil.
(Diário do Pará)
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