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Renovando apostas no saber sobre a Amazônia

O sorriso simpático e o trato simples são características do senhor que, desde cedo, aprendeu a ser humilde estudando a grandiosidade da natureza. O britânico Ghillean Tolmie Prance, 77 anos, é um dos ecólogos mais respeitados e reconhecidos do mundo. Apa

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O sorriso simpático e o trato simples são características do senhor que, desde cedo, aprendeu a ser humilde estudando a grandiosidade da natureza. O britânico Ghillean Tolmie Prance, 77 anos, é um dos ecólogos mais respeitados e reconhecidos do mundo. Apaixonado pelo Brasil e pela Amazônia, o botânico desenvolveu pesquisas importantes no bioma amazônico e ajudou a financiar a Estação Científica Ferreira Penna, unidade de pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi na na Floresta Nacional de Caxiuanã que completou 20 anos recentemente. Prance já foi diretor de alguns dos Jardins Botânicos mais importantes do mundo, como os Jardins Botânicos Reais de Kew e o New York Botanical Garden. Um trabalho tão estimado que rendeu ao botânico o título de “Sir” da fidalguia britânica.

No início do mês, Sir Prance esteve em Belém para participar do seminário “Biodiversidade, Inovação e Sustentabilidade: Amazônia e Reino Unido: experiências e oportunidades”, promovido pelo Museu Paraense Emílio Goeldi. A seguir, ele fala de temas como o futuro da floresta amazônica, da importância da ciência para o desenvolvimento da região e de sua relação pessoal com o país. Com a palavra, o ecólogo que se tornou um dos cavaleiros da Rainha da Inglaterra:

P: No Brasil, é comum ouvirmos que “os olhos do mundo estão voltados para a Amazônia”. O interesse nas riquezas naturais da região e no potencial da biodiversidade local são temas sempre em destaque na imprensa nacional. O senhor percebe, de fato, esta atenção global para a Amazônia? Como o senhor avalia este cenário?

R: Eu acho isso um pouco exagerado. O mundo está preocupado com a Amazônia muito mais por causa do efeito do desmatamento no clima mundial do que pelas riquezas naturais da região. A temperatura mundial cresce com o aumento de CO2 [dióxido de carbono] na atmosfera. A preocupação com as riquezas foi criada pelos conservacionistas com o objetivo de defender as matas. Em geral, o mundo tem muito mais preocupação com o efeito estufa.

P: O Museu Goeldi, desde o século XIX, mantém relações estreitas com a Europa e tem seu trabalho reconhecido de Norte a Sul do país. Qual a relevância de manter um centro de pesquisa do porte do Goeldi estrategicamente localizado na Amazônia? Por que o diálogo com instituições internacionais é tão importante para o trabalho do Museu?

R: O Museu Goeldi é uma instituição científica importante para todo o mundo. Sem dúvida, é importantíssimo manter instituições de nível internacional na região amazônica. Pesquisadores localizados na região têm maior entendimento dos problemas e conhecimento regional. O Goeldi também tem coleções muito importantes. Eu acredito que pesquisas feitas na região são fundamentais. Por isso, em 1973, eu fundei o primeiro curso de Pós-Graduação em Botânica do Inpa [Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia]. O curso foi criado em Manaus para que estudantes da região pudessem ficar, treinar e pesquisar na Amazônia.

P: A Estação Científica Ferreira Penna, localizada na Floresta Nacional de Caxiuanã, fica em uma área de mata nativa de cerca de 350 mil hectares. Espaços verdes de grandes proporções como este são cada vez mais raros na Amazônia. O senhor acredita que há uma forma de garantir o desenvolvimento econômico da região sem que isso ocorra em detrimento da preservação da ambiental? De que forma isso seria possível?

R: As grandes áreas de conservação também são importantes para o desenvolvimento de todo o mundo. O desmatamento da Amazônia vai mudar tanto o clima que o desenvolvimento sustentável será impossível. Precisamos manter a biodiversidade extraordinária da Amazônia. Eu acho que o uso mais intensivo das áreas já destruídas garantiria espaço suficiente para o desenvolvimento da região. A Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] já tem muitos dados sobre uso intensivo dos solos. É possível preservar o ambiente amazônico e, ao mesmo tempo, garantir o desenvolvimento sustentável.

P: Como o senhor avalia as políticas públicas do Brasil voltadas para o fomento científico e preservação ambiental? O papel do governo enquanto agente de estímulo ao trabalho de pesquisadores e estudiosos está sendo cumprido? O que ainda precisa ser feito?

R: A ciência está se desenvolvendo bem no Brasil. Eu admiro o fato de encontrar tantos botânicos jovens nos congressos brasileiros. O Brasil, hoje, está produzindo mais de 14 mil PhDs por ano. Tem programas de doutorado no Pará, Amapá, Acre e Amazonas. O fomento científico é bom. Em relação à preservação ambiental, a questão é diferente e faltam políticas públicas. Muitas das que existem, são fracas.

P: De que forma as pesquisas em campo, visando resultados a longo prazo, contribuem para o desenvolvimento social da região? Por que a valorização e a promoção do conhecimento científico são fundamentais para nós, amazônidas?

R: As pesquisas e também a política visando a preservação ambiental precisam ser de longo prazo. Então, fiquei alegre de encontrar informação sobre o programa Peld (Pesquisas Ecológicas de Longa Duração) durante minha visita à Estação Ferreira Penna. O Peld tem quatro sítios no Pará e dois no Amazonas. Precisamos de outros em Roraima, Acre, Rondônia e no oeste do Amazonas. Nós só entenderemos o ecossistema amazônico através de pesquisas de longo prazo. Elas são essenciais para o uso sustentável da região. Os amazônidas precisam de conhecimentos científicos para assegurar o seu futuro e proteger seu meio ambiente. Uma economia sustentável e racional para a região tem que ser baseada na proteção das matas e dos rios.

P: O potencial econômico da Amazônia, através do desenvolvimento sustentável, está sendo bem explorado? Setores como o turismo ecológico e a verticalização da produção industrial de insumos naturais, como a Castanha-do-Pará, estão sendo bem vistos ou são atividades ainda incipientes?

R: O potencial econômico da Amazônia, através do desenvolvimento sustentável, ainda não está sendo bem explorado. Há muito potencial no ecoturismo, mas isso necessita da participação dos cientistas e ecólogos nacionais. É necessário mais treinamento para os guias de turismo e cursos ecológicos. Castanha-do-Pará, andiroba, copaíba e outros produtos florestais têm que oferecer preços adequados aos extratores para integrarem uma cadeia econômica sustentável. Na Inglaterra, estou me esforçando para encorajar o “fair trade” [troca justa] de produtos como café, chocolate e castanhas.

P: O senhor foi um dos idealizadores do Projeto Éden. Qual o objetivo do projeto e de que forma o que está sendo desenvolvido na Cornualha pode beneficiar pesquisas aqui, na Amazônia?

R: O Projeto Éden foi criado em 2001 para celebrar o milênio. É um sítio de turismo botânico para promover a importância das plantas para os seres humanos e encorajar seu uso sustentável. O Éden tem uma estufa grande de dois hectares de mata tropical e outra de meio hectare de ambiente mediterrâneo. Não é um jardim botânico, mas é uma exposição de plantas úteis de todo o mundo visando explicar suas origens. O Éden é uma instituição educacional que atende de escolas a universidades. Recebemos um milhão de visitas por ano.

P: Falando um pouco sobre sua relação pessoal com a ciência e a Amazônia, o que o levou a dedicar grande parte de sua vida ao estudo e à preservação da natureza?

R: O assunto da minha tese de doutorado na Universidade de Oxford foi sobre plantas tropicais. Estudei a família Chrysobalanaceae, com muitas espécies amazônicas. Viajei para o Brasil pela primeira vez em 1964. Gostei muito do país e desenvolvi um programa de pesquisas em colaboração com o Museu Goeldi e o Inpa, em Manaus. Colecionei mais de 30 mil amostras botânicas, depositadas nos herbários brasileiros com duplicatas nos herbários estrangeiros, incluindo muitas espécies novas, vistas pela primeira vez. Eu agradeço muitos colaboradores brasileiros que trabalharam comigo, especialmente os doutores João Murça Pires e William Rodrigues. Durante 49 anos estudando a Amazônia, eu vi o aumento da destruição da floresta e fiquei cada vez mais preocupado com o meio ambiente. Trabalhei mais em ecologia e botânica econômica. Do Brasil, tenho orgulho de receber honras da Ordem Nacional do Mérito Científico: Grã-Cruz, em 1995, e Comendador da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, em 2000.

(Diário do Pará)

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