A condição de ser humano une bilhões de pessoas em todo o mundo. São todos cidadãos, membros de uma organização social. Um olhar mais atento, contudo, revela as distinções entre cada um deles. Existem as diferenças físicas, de altura, peso, cores, cabelos. Há também as personalidades divergentes. Os gostos, os hábitos. Cada ser é único e suas características não passam de uma parte de sua complexidade. É o caso das pessoas com deficiências.
Habituados com olhares curiosos, principalmente quando executam tarefas de forma independente, as pessoas com deficiência se incomodam de fato com o tratamento diferenciado que por vezes recebem. “O preconceito ainda é muito grande em vários aspectos. Basta caminhar na rua para ver. Às vezes na própria ignorância das pessoas que olham com pena, desprezo, desinformação. São situações que ocorrem principalmente em espaços públicos como ônibus, calçadas, praças”, diz Haroldo Bezerra.
Deficiente físico, ele teve problema cerebral há 20 anos, o que causou uma hemiplegia, um tipo de paralisia cerebral que atinge um dos lados do corpo, deixando-o paralisado e debilitado.
Aos 59 anos, aposentado, Haroldo diz que o primeiro passo para a convivência harmoniosa entre os indivíduos deve ser a autoaceitação. “Quando sofri o acidente foi preciso uma reforma íntima, moral para aprender a lidar com o problema. Primeiro tive que me aceitar, encarar a nova realidade e depois aprender a viver em sociedade com as adaptações necessárias”.
Uma delas é o tratamento do corpo, com a ajuda de fisioterapia constantemente. Para cuidar da emocional, escreve e lê bastante, o que abre sua mente e ideias, afirma. “A confiança é muito importante, trabalhar o psicológico e acreditar na felicidade. Comecei a compreender melhor a relação entre as pessoas, a dar mais valor a coisas importantes. E é isso que todas as pessoas, com deficiência ou não, devem compreender”, aconselha.
PRIORIDADES
Segundo o Ministério Público Estadual denúncias sobre discriminação e maus-tratos às pessoas com deficiência não são expressivas. Até o final de agosto deste ano, por exemplo, apenas três casos foram registrados na promotoria. “As maiores reclamações são em relação ao descumprimento das prioridades e efetividade de alguns direitos, como isenção de IPVA e transporte coletivo. Por isso, temos reunido regularmente com Sindicato das Emprensas de ônibus de Belém [Setransbel] e Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de Belém [Semob] a fim de garantir as condições adequadas. Ano passado tivemos problemas na gratuidade de cinemas e shows, mas o direito está sendo garantindo por liminar judicial”, cita Waldir Macieira, 1º promotor de defesa dos idosos e pessoas com deficiência.
Além de tratamento adequados nos serviços públicos, é preciso abordá-los também da forma correta, continua o promotor. Na Convenção Internacional para Proteção e Promoção dos Direitos e Dignidade das Pessoas com Deficiência, ficou decidido que o termo correto utilizado seria “pessoas com deficiência”. A expressão é mais adequada porque não esconde ou camufla a deficiência, mostra com dignidade a realidade e valoriza as diferenças e necessidades decorrentes da deficiência. Neologismos que tentam diluir as diferenças tais como “pessoas especiais” ou “pessoas com eficiências diferentes” devem ser combatidos.
Dando continuidade ao trabalho de informação sobre esses direitos, o MPE realizará, junto com Secretaria de Direitos Humanos e demais entidades parceiras, uma convenção nacional em alusão ao dia internacional da pessoa com deficiência, celebrado em 3 de dezembro. Na ocasião serão distribuídas cartilhas sobre a legislação que resguarda esse grupo. “É a forma mais eficiente de educar a população, combatendo qualquer tipo de crime e discriminação”, ratifica Waldir.
Ronaldo Castro de Oliveira, 44 anos, é integrante da direção da Associação Paraense das Pessoas com Deficiência (APPD), entidade que conta hoje com 35.800 mil associados, distribuídos em todo o Estado. Acompanhando a luta do segmento há mais de duas décadas, ele garante que muitas conquistas legais já ocorreram, como a adoção de cotas no mercado de trabalho. “Temos orgulho em ter participado da discussão nacional. E apesar de ainda enfrentarmos resistência de alguns empreendimentos, já temos bons exemplos como os supermercados de Belém, que contratam diversas pessoas com deficiência em diferentes funções”, cita.
Sobre a etiqueta social de relacionamento, ele também considera que houve uma melhora na inclusão entre os indivíduos. “A sociedade está encarando diferença de outra forma. As demandas ainda existem, mas principalmente em áreas mais carentes, o que não é um problema apenas das pessoas com deficiência. Antes tínhamos um deficiente que ficava em casa, escondidos, sem expectativa. Aos poucos conseguimos espaços onde eles começaram a se qualificar e mudar seu futuro. Acho que daqui a mais cinco anos teremos condições de oferecer profissionais ainda melhores”, comenta.
“A gente só consegue mudar se a gente consegue chegar à sociedade e mostrar a verdade. Pessoas com deficiência física querem apenas viver de forma independente e com dignidade, e você pode contribuir dando a eles um tratamento e a importância que merecem”, diz.
SONHOS REALIZADOS
Assim pensa também Elaine Nazaré, 27 anos. Há 10 anos a dona de casa teve câncer no pé e precisou amputar a perna direita. A princípio o momento foi de desespero. O médico disse que a jovem teria apenas mais quatro meses de vida.
Entretanto, tudo, felizmente, ocorreu de forma oposta. Elaine fez quimioterapia, radioterapia, tratou como pode e com determinação venceu a doença, que já estava em outras partes do corpo. Já saudável, voltou à escola anos depois, utilizando cadeira de rodas, para concluir o Ensino Médio.
“Passei a sempre olhar pra frente, pensando num futuro melhor. A gente não pode se entregar, reclamar. A cada dia eu renovava minhas esperanças e assim consegui tudo o que tenho”, diz.
Hoje, ela mantém uma rotina ativa, é casada, tem um filho e se considera abençoada. “Gosto muito de sair, praticar esportes, passear com a minha família. Não me prendo em casa. Nós também temos os mesmos direitos, basta mostrarmos que somos capazes. Infelizmente ainda existe preconceito, mas a gente não vive em função disso. Eu esqueço o que faz mal e vivo apenas em busca da felicidade”, afirma.
(Diário do Pará)
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