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Queima de arquivo continuará na máfia dos veículos

O corretor de veículos Nicanor Joaquim da Silva, um dos principais envolvidos no esquema de fraudes na venda de mais de quatro mil veículos do Estado tido como sucatas, estava com medo de morrer e ameaçava “abrir o bico”, entregando ao Ministério Público

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O corretor de veículos Nicanor Joaquim da Silva, um dos principais envolvidos no esquema de fraudes na venda de mais de quatro mil veículos do Estado tido como sucatas, estava com medo de morrer e ameaçava “abrir o bico”, entregando ao Ministério Público fatos novos sobre o caso. Ele assumiu sozinho, inicialmente, a culpa ou parte dela, pelas fraudes. Chegou a prestar, em janeiro, um depoimento ao MP, mas no final de setembro passado passou a ser seguido por homens com quem tinha negócios e acabou baleado na cabeça, morrendo quatro dias depois no Hospital Metropolitano.

“Foi uma armação, uma queima de arquivo, porque ele sabia muita coisa e não iria assumir tudo sozinho”, declarou uma fonte ao DIÁRIO. Nicanor tinha depoimento marcado para este mês ao promotor militar Armando Brasil, mas a data da oitiva ainda estava pendente, porque o próprio acusado havia apresentado atestado médico, alegando estar passando por problemas de saúde. Na verdade, segundo a fonte ouviu de familiares de Nicanor, ele andava sofrendo “muita pressão” para não falar tudo o que sabia.

Dias antes de ser baleado, recebeu telefonemas de várias pessoas, inclusive de São Paulo, e demonstrava um comportamento estranho. Saía de casa sem dizer para onde ia, deixando os familiares preocupados. Ouvido pelo DIÁRIO, o promotor de Fundações, Entidades de Interesse Social, Falências e Recuperação Judicial, do Ministério Público, Sávio Brabo, foi taxativo: “Vai morrer mais gente nessa história”. Para ele, o que ocorreu com Nicanor tem a ver com o envolvimento dele nas fraudes que podem ter provocado prejuízos de até R$ 15 milhões aos cofres públicos.

O inquérito que apura a morte de Nicanor, aberto pela Polícia Civil, corre sob sigilo, mas o foco aponta para São Paulo, para onde a maior parte dos veículos oficiais desviados de órgãos do governo do Pará foi levada a vendida. As entidades assistenciais como Fundação Pestalozzi, Instituto Arca de Noé, Escola Salesiana do Trabalho, para as quais os veículos eram inicialmente doados e em nome deles vendidos, pouco receberam da negociação fraudulenta. É para essas entidades, contudo, que chegam as multas por infrações de trânsito cometidas pelos veículos que continuam rodando por várias capitais brasileiras.

Trampolim

O processo que apura as fraudes se desenrola em três instâncias do Ministério Público: criminal, civil e militar. As investigações indicam, pelos depoimentos já tomados dos envolvidos, que Nicanor da Silva era amigo pessoal da coronel da reserva da PM, Ruth Léa Guimarães. Outras quatro pessoas, entre elas o sargento da PM Raimundo Nonato Souza Lima, também são acusadas de envolvimento. Todos foram presos em dezembro do ano passado, mas em janeiro deste ano conseguiram habeas corpus e respondem em liberdade.

Segundo a promotoria, Ruth Léa, na função de diretora logística da Polícia Militar, teria doado viaturas da PM a instituições, entre elas a fundação Pestalozzi, mas as entidades nunca receberam os veículos. Elas apenas serviam de trampolim para as negociatas. Para o Ministério Público, veículos da Polícia Civil, das Secretarias de Saúde, Educação e Segurança Pública do Estado também teriam sido desviados. O caso foi descoberto quando verificou-se que os veículos que deveriam ir para as entidades estavam circulando em outros estados depois de serem vendidos.

A defesa da coronel nega as irregularidades e diz que as doações foram feitas dentro da legalidade. Ruth Léa e o sargento Raimundo Nonato Sousa de Lima já foram denunciados à Justiça Militar pelo promotor Armando Brasil. A denúncia tem o suporte de interceptações telefônicas feitas com autorização judicial. Consta em depoimentos nos autos que Nicanor subornava servidores públicos para agilizar e direcionar doações, além de fazer incluir na lista de bens inservíveis a serem doados veículos em bom estado.

De acordo com o depoimento de um homem chamado Ramon Rodrigo Rolim, foi descoberto que Nicanor adquiria as viaturas da PM da seguinte maneira: o comandante da corporação localizava veículos que estavam parados no interior do Estado e emitia um documento endereçado ao próprio Nicanor para receber as viaturas e trazê-las para Belém, a fim de ser reparadas. Mas os carros sequer vinham para a capital e também não retornavam aos locais de origem, depois de supostamente ser reparados. Eles eram negociados por Nicanor e embarcavam diretamente para a capital paulista.

Comandantes

Rolim informa que José Henrique Pereira - na casa de quem a polícia encontrou vários documentos de veículos que pertenciam a órgãos públicos -dizia que Nicanor pagava comandantes da PM para conseguir que veículos em bom estado fossem inseridos em lista de bens inservíveis a ser doados. Reafirmou que o próprio Henrique vendeu uma S10 cabine dupla para dar o dinheiro a Nicanor para que este pagasse os comandantes da PM e três viaturas da Rotam fossem incluídas na lista e uma delas seria de Henrique.

Ele declarou ainda ter visto por várias vezes um automóvel Honda Civic estacionado na garagem da casa de Nicanor. Henrique disse que o carro pertenceria à mulher ou namorada de Nicanor, que seria, inclusive, policial militar de alta patente. Ouviu também comentários de que Nicanor continuaria adquirindo veículos, todos da PM, e que esses carros estavam sendo retirados sem qualquer doação. Nesse caso, a situação ficou ainda mais grave.

Nicanor retirava as viaturas da PM com a autorização de comandantes gerais desde 2006. Buscando fortalecer esses indícios, a Divisão de Investigações e Operações Especiais (Dioe) e a Delegacia de Ordem Tributária (DOT) pediram à justiça a interceptação telefônica dos principais suspeitos. Sem Nicanor, as investigações sofrem prejuízos, mas já há indícios e provas suficientes que podem levar os acusados à cadeia.

(Diário do Pará)

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