Quando a sessão de júri foi suspensa para o almoço, Maria Joel Dias da Costa tinha lágrimas nos olhos. Em frente ao Fórum, no bairro da Cidade Velha, em Belém, sob um sol abrasador, ela sentiu a pressão dos momentos anteriores. Primeira testemunha a depor na sessão da última quinta-feira, que levou a julgamento o latifundiário Lourival Costa e o empregado dele, Domício Souza Neto, o Raul, Maria se sentiu acuada, como se a ré fosse ela e não os acusados - posteriormente absolvidos por insuficiência de provas, na leitura e análise dos sete jurados.
As lágrimas se repetiram cerca de oito horas depois, quando Maria Joel ouviu o resultado. Em silêncio, ela e a filha Joelma se retiraram do plenário. No fim da manhã, emocionalmente vergastada, Maria dizia ter esperança e fé. À noite, sob o impacto do resultado, prometeu recorrer da decisão.
Maria Joel é uma mulher pequena na estatura. Os cabelos estão sempre presos em um simples rabo de cavalo, a voz é baixa, em tom agudo, típica de mulheres nordestinas. Viúva desde a noite de 21 de novembro de 2000, quando o marido, José Dutra, o Dezinho, foi assassinado por um pistoleiro - a mando, certamente, de fazendeiros inconformados com a atuação sindical de Dezinho em Rondon do Pará.
Durante muito tempo, as cenas daquela noite repetiam-se na mente de Maria Joel. Poucos minutos antes ela dera de beber ao assassino Wellington de Jesus - uma junção significativa de um nome tipicamente estrangeiro ao salvador cristão. Maria morreu mil vezes desde aquela noite. Mas sempre ressurgiu no dia seguinte, em meio a luta pelo direito à terra, criando quatro filhos, seguindo em frente.
O pistoleiro foi condenado em 2007, num segundo júri, a 29 anos de reclusão em regime fechado. No mesmo ano recebeu a progressão de regime prisional para o semi-aberto em razão do cumprimento de mais de 1/6 da pena. No dia 18 de dezembro de 2007, menos de dois meses depois de concedida a progressão, Wellington de Jesus teve autorização da Juíza da Vara de Execuções Penais de Belém, Tânia Batistello, para passar o final de ano fora da prisão. Nunca mais retornou e há um mandado de captura expedido desde janeiro de 2008, mas nunca cumprido.
Ela viu companheiros de luta sendo assassinados. Ela própria passou a ser alvo de ameaças seguidas, numa região paraense onde ameaça não é promessa vã. É praticamente uma certeza.
Na rotina de Maria Joel há a presença de três seguranças, policiais incumbidos de garantir a ela o direito de continuar respirando. Foi dessa forma que o DIÁRIO DO PARÁ a encontrou em junho passado, durante a feitura da série de reportagens ‘Marcadas para morrer’, parceria com a Agência Pública de Jornalismo Investigativo. Na reportagem, selecionada como finalista do Prêmio Esso 2013, Maria Joel conta a luta que vem travando desde a chegada ao Pará, mais uma entre tantos migrantes.
Na sessão de julgamento da quinta-feira, Maria Joel sentiu cedo que a batalha seria mais difícil do que supunham os 65 moradores de assentamentos e acampamentos rurais que vieram de Rondon do Pará, numa viagem que iniciou às 20h da noite anterior. Com camisas brancas lembrando que Dezinho ainda vivia na lembrança de cada um, abriram cartazes e faixas em frente ao local de julgamento e viram aos poucos a esperança esvair.
Incisiva, a defesa dos dois acusados conseguiu convencer os jurados que as provas apresentadas pela promotoria estavam longe de serem robustas. No duelo de advogados, a defesa se saiu melhor. E Maria Joel morreu um pouco mais uma vez.
(Diário do Pará)
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