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Desrespeito exposto no Bengui e Tapanã

Aos mortos, o respeito. Todo Dia de Finados é assim. Sepulturas são visitadas, velas acesas, flores espalhadas. Consternados pela emoção da perda, que emerge em dor ainda mais forte neste dia do ano, milhares de cidadãos veneram amigos e entes queridos. E

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Aos mortos, o respeito. Todo Dia de Finados é assim. Sepulturas são visitadas, velas acesas, flores espalhadas. Consternados pela emoção da perda, que emerge em dor ainda mais forte neste dia do ano, milhares de cidadãos veneram amigos e entes queridos. Em Belém, no bairro do Bengui, porém, a data foi marcada também por revolta. O cemitério da região, desativado desde 1997, foi também abandonado pelo poder público.

“Quase não achei o túmulo da minha mãe”, disse uma mulher indignada. “Nem sei se o túmulo em que rezei é o certo, tava só mato lá”, disparou outra, enquanto se retirava do local. A equipe do DIÁRIO esteve no cemitério na manhã de sábado. “Ainda pouco rolou tiro lá atrás. A polícia entrou em conflito com uns caras que estavam roubando as pessoas que tinha que ir bem lá pro fundo. Isso é o resultado do abandono”, denunciou um vendedor de flores.

Um exército de crianças e adolescentes com enxadas em punho cercavam quem adentrava o local. “É cinco reais para limpar o túmulo que estiver muito sujo, quatro reais o que tiver mais ou menos e três reais o de criança”, explicava A.S., que aos 13 anos já acumula a triste experiência de cinco anos de trabalho no cemitério. “Antes eu vendia o que desse: água, flores, na verdade eu acompanhava meu pai. Ele pinta os túmulos e eu limpo”, contou o jovem.

Para Rosa Brito, 65 anos, o cemitério do Bengui é o retrato do descaso e desrespeito. “Minha tia e minha mãe estão enterradas aqui. Todo ano venho e fico triste não apenas por lembrar da partida delas, mas também por me deparar com essa situação, com o mato tomando conta de tudo. Se eu pudesse, tiraria os corpos delas daqui”, revoltou-se.

Apenas a área frontal do cemitério foi roçada pela equipe da prefeitura de Belém. Os caminhos que levam aos túmulos estavam fechados por mato. Para chegar e prestar suas homenagens, o público precisava desbravar o matagal usando as mãos para arrancar a vegetação que invadia as lápides. “Deus, perdoai! Não consigo entender o porquê de tanto descaso”, insistia Rosa.

Tapanã

“Depende do estado crítico”, pondera Simone do Carmo, que no Dia de Finados oferecia serviços de limpeza no Cemitério do Tapanã. Só a “capina” é R$ 5. “O completo sai a R$ 10, R$ 8, a gente avalia e tem cliente que chora também”. O “completo” compreende a roçagem, pintura e revitalização do nome na sepultura.

Pelo estado de abandono do cemitério localizado na periferia da cidade, Simone teve muitos clientes. Assim como ela, dezenas de garotos com enxadas nas mãos aproveitaram o Dia de Finados para ganhar um extra. Condição possível graças à falta de estrutura do cemitério público.

Até as 12h do último sábado, Simone já conseguira ganhar R$ 120 com os serviços prestados a quem se indignava com a calamidade das sepulturas. “Está abandonadíssimo. As pessoas chegam aqui e pedem logo a limpeza”.

O cemitério do Tapanã ainda recebe demandas. Caminhar por ali é uma dificuldade. É quase um cemitério fantasma, apesar de estar na ativa. “Parece que esse cemitério nem existe, que só existe o Santa Izabel, que é o centro”. Localizado no bairro do Guamá, o referido cemitério recebeu cerca de 100 mil visitantes no Dia de Finados.

O DIÁRIO também visitou o lugar, que de longe, apesar de ter sido criado no final do século XVIII, está em condições bem melhores do que os cemitérios do Tapanã e Bengui. No Tapanã, além dos assaltos, os visitantes reclamaram da insuficiência de apenas 15 guardas municipais para cuidar do cemitério, que abriga quase 120 mil sepulturas.

“Um bom dia para vendas”. Assim definiu o vendedor de planos póstumos Manoel Aguiar Lima. Com panfletos em mãos, ele distribuía aos visitantes do Cemitério do Tapanã a possibilidade de chorar suas lágrimas com dignidade. “É que o pobre não tem nem direito a isso”, indignava-se a aposentada Carmozinha Reis, 79. “Elas veem as péssimas condições do cemitério e fica mais fácil vender o plano”, apostava o vendedor a postos antes das lápides abandonadas. Dona Carmozinha confirma. “Tenho dois filhos enterrados aqui. Dois, não. Só um, porque o outro eu já tirei daqui. Espero um dia nunca mais ter que vir aqui”, desabafava.

Este ano, o DIÁRIO publicou matéria intitulada “O preço da morte”, que mostrava a dificuldade dos mais humildes em conseguir sepultar alguém. Sem condições de pagar um plano póstumo ou arcar com as despesas imediatas para o sepultamento em cemitérios particulares, as pessoas têm que recorrer ao cemitério público. No mínimo, é necessário desembolsar R$ 700 para gastos gerais.

Para quem já não consegue a quantia com planejamento, ser pego de surpresa pela visita da morte dificulta ainda mais. Além de ter a dignidade ferida na hora do enterro – sem a possibilidade do último adeus decente –, os mais pobres ainda sofrem quando tentam chorar pelos seus mortos no dia reservado a eles. Até o direito ao sofrimento digno é negado.

A assessoria da Secretaria Municipal de Urbanismo (Seurb) foi procurada para comentar a situação dos cemitérios públicos do Bengui e Tapanã, mas não atendeu os telefonemas da equipe de reportagem.

(Diário do Pará)

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